Economia

Para Thomas Piketty, política econômica de François Hollande “é uma piada”

O economista francês Thomas Piketty.
O economista francês Thomas Piketty. NOTIMEX/FOTO/JAVIER LIRA

Economista de esquerda celebrado no mundo todo, o autor do best-seller “O Capital no Século 21”, Thomas Piketty, diz que o governo de François Hollande na França vive “de improviso permanente”. Em entrevista ao jornal Libération desta segunda-feira (8), Piketty disse que, para sair da crise, a Europa precisa de uma reforma fiscal profunda e que a política econômica de oferta de Hollande “é uma piada”.

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“O problema de Hollande é que ele não tem política nenhuma”, disparou Piketty, autor que chegou a ser apontado pelo presidente - antes de este chegar ao poder - como inspiração para o Partido Socialista francês. Piketty defende que existem alternativas à política de austeridade colocada em prática pela União Europeia e que, segundo ele, não está ajudando o bloco a sair da crise.

“Nós tentamos reduzir o déficit muito rapidamente e isso matou o crescimento. Até o FMI reconhece os erros da austeridade, mas Berlim e Paris insistem na questão”, diz Piketty. Para ele, a comparação com a forma como os Estados Unidos lidaram com a crise de 2008 revela o erro europeu.

Há cinco anos, a taxa de desemprego na Europa era igual a dos Estados Unidos. Hoje, a do bloco europeu é duas vezes maior. “Eles tiverem flexibilidade orçamentária para reativar a máquina. E nós transformamos uma crise financeira americana privada, a dos subprimes, em uma crise europeia de dívidas públicas”, compara o economista.

Como seria uma economia de esquerda?

Mesmo que Hollande não tenha mudado o rumo da economia francesa em relação a seu antecessor Nicolas Sarkozy, Piketty diz que é falsa a ideia de que não existem alternativas ao modelo de austeridade defendido pela maioria dos partidos conservadores europeus.

Ele diz que a história demonstra diversas maneiras de se lidar com a dívida pública - embora, na entrevista ao Libération, não tenha dado nenhum exemplo positivo concreto. Como exemplo ruim, cita a forma como o Reino Unido, no século 19, abateu sua enorme dívida de 200% do PIB herdada das guerras napoleônicas. O processo levou quase um século e foi feito à base de cortes de benefícios sociais - modelo que, segundo Piketty, seria similar ao que a União Europeia agora pede à Grécia: pagar 4% do PIB em dívidas enquanto a educação do país recebe apenas 1%.

“França e Alemanha sofrem de amnésia histórica”, diz. “Em 1945, os dois países tinham mais de 200% do PIB de dívida pública que foi jamais reembolsada. Eles se afundaram na inflação a nas anulações das dívidas. Foi o que lhes permitiu investir em infra-estrutura e crescer”.

A solução, para Piketty, seria uma profunda reforma fiscal, em que o financiamento da proteção social se daria pelo imposto de renda progressivo - o contrário do que fez Hollande, que aumentou o imposto sobre o consumo, na França chamado de TVA. “Esse é o imposto mais injusto”, defende Piketty.

“A solução de esquerda seria um imposto progressivo pesando sobre toda as rendas: assalariados do setor privado e público, pensões e renda do patrimônio.” Piketty também defende um sistema de aposentadoria único, em que as cotizações e os direitos sejam iguais para todos. Hoje, a França tem dezenas de sistemas diferentes de aposentadoria, dependendo do setor de trabalho. “Em todas estas áreas, o governo está a anos-luz de fazer qualquer reforma”, lamenta.

 

 

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