Referendo

Europeus traíram sua promessa com a Grécia, diz Thomas Piketty

Economista Thomas PIketty em entrevista à TV do Le Monde.
Economista Thomas PIketty em entrevista à TV do Le Monde. Reprodução TV Le Monde

Autor do best-seller “O Capital no Século 21” e um dos economistas mais influentes do mundo na atualidade, o francês Thomas Piketty acha que a dívida da Grécia deve ser renegociada – a mesma posição do primeiro-ministro Alexis Tsipras e dos partidários do “não” no referendo grego. Piketty diz que a Grécia fez a sua parte do acordo ao reduzir para praticamente zero o déficit público – mas os credores não fizeram a sua ao continuar exigindo 4% de superávit primário, valor considerado “irrealista”.

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Em entrevista à TV do jornal Le Monde na manhã deste domingo (5) – dia em que os gregos vão às urnas decidir seu futuro –, Piketty analisou a dívida grega e deu a sua receita para tirar o país da crise. Seu diagnóstico é de que a Grécia honrou seu compromisso, mas não obteve uma contrapartida. “O acordo de 2012 pedia um superávit primário de 4% até 2057, mas também dizia que, assim que os gregos conseguissem fazer um pequeno superávit inicial, este valor seria renegociado. No fim de 2014, eles conseguiram. Mas os credores insistem nos 4%. Os europeus traíram a Grécia”, afirma.

Piketty diz que é justo exigir da Grécia que equilibre as contas e tenha excedentes orçamentários, mas considera que é preciso renegociar os 4%, o que teria sido prometido e não cumprido pelo Eurogrupo. “Os gregos recuperaram suas contas de uma maneira excessivamente rápida. Estávamos a 12% de déficit público em 2009 e passamos a 0% em 2014. Nenhum país europeu fez um esforço orçamentário tão grande.”

O efeito colateral da política de austeridade foi o encolhimento da economia grega em 25%. Para Piketty, a receita agora para a Grécia sair da crise é uma combinação de anulação de parte da dívida e não exigir mais superávit do que o atual: “O que fazemos quando se atinge o superávit primário? O principal é: não exigir mais do que isso da Grécia enquanto o PIB não voltar ao nível anterior à crise de 2008.”

Receita para sair da crise

Piketty diz que França e Alemanha – dois dos países que mais exigem esforço fiscal da Grécia – resolveram sua dívida pública do pós-guerra graças a anulações de valores proporcionalmente muito maiores do que a atual dívida grega. “Temos amnésia histórica. Éramos muito mais razoáveis nos anos 50”, critica.

Para ele, existem diversos métodos para resolver dívidas públicas. O modo lento, utilizado pelo Reino Unido no século 19, é o que estariam exigindo agora da Grécia: sacrificar a população com cortes orçamentários por várias décadas. O método rápido teria sido o utilizado por França e Alemanha no pós-guerra: uma mistura de anulação da dívida com medidas excepcionais de impostos sobre o capital privado. “Em 1945, o endividamento de Alemanha e França era de mais de 200% do PIB. Em 1950, caiu para 20% e permitiu o crescimento das décadas seguintes.”

As duas últimas medidas da receita Piketty para a crise grega: que os europeus paguem a dívida do país com o FMI, se tornando o único credor, e, em seguida, organizem uma grande conferência européia sobre endividamento público, reunindo todos os países que ultrapassam os 60% do PIB em dívidas - como Portugal e Itália - em um fundo comum, prevendo uma moratória de alguns anos.

Piketty garante que o crescimento econômico gerado pela anulação da parte da dívida grega mais do que compensará o valor perdoado. “Todos temos interesse em continuar juntos no euro. Os que pensam que conseguiremos estabilizar e disciplinar a zona do euro expulsando um dos países são perigosos aprendizes de feiticeiro”, conclui.

 

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