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Fato em Foco

Para especialistas, só solidariedade pode amenizar crise migratória

Áudio 05:08
Policiais forenses isolam caminhão estacionado em que dezenas de imigrantes foram encontrados mortos em uma estrada perto de Parndorf, na Áustria.  27 de agosto de 2015.
Policiais forenses isolam caminhão estacionado em que dezenas de imigrantes foram encontrados mortos em uma estrada perto de Parndorf, na Áustria. 27 de agosto de 2015. REUTERS/Heinz-Peter Bader
Por: Vanessa Oliveira

No fim da semana passada a polícia austríaca retirou de um caminhão frigorífico abandonado mais de 70 corpos de migrantes, provavelmente refugiados sírios, em uma estrada do leste da Áustria. As autoridades anunciaram a descoberta no momento em que a chanceler alemã, Angela Merkel, participava de uma reunião com autoridades dos países países bálticos, em Viena, para buscar justamente uma saída à onda migratória que vem fazendo cada vez mais vítimas e ferindo os direitos humanos, em pontos distintos dos limites territoriais europeus. O número de vítimas da travessia do Mar Mediterrâneo, por exemplo, ultrapassa 2,3 mil, apenas em 2015.

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Os 28 países da União Europeia não conseguem chegar a um acordo quanto à partilha equitativa de quem pede asilo e também lutam para criar centros de cadastramento dessas pessoas nos países de entrada no bloco. Em seu pronunciamento logo após a descoberta dos corpos no caminhão, Merkel disse que o episódio era um “aviso” e que a crise deve ser tratada de forma mais solidária.

Abrir as fronteiras e os braços

Para o porta-voz da Organização Internacional para as Migrações, Joel Millman, além de solidariedade é preciso muita parceria: "O problema não é só da Europa, é um problema mundial". Ele acredita que é fundamental pensar em maneiras de "suavizar os problemas políticos" em países como a Síria, Líbia e Afeganistão, de onde vem grande parte dos migrantes.

Dona da maior economia da Europa, a Alemanha espera receber até o fim de 2015 cerca de 800 mil pedidos de asilo. O número pode ser expressivo, mas Millman acredita que é preciso pensar ampliar as frentes de ação, como abrir as fronteiras e proporcionar estadias temporárias com perfil humanitário, por exemplo. "O asilo não é a única opção", avisa.

Para ele, a solução para a maior crise de migração desde o êxodo europeu durante a Segunda Guerra Mundial está na solidariedade e na prevenção: "Uma possibilidade para resolver isso seria encontrar com esses imigrantes pela Turquia, pela África, Líbano, antes que eles viajem, para registrar os que podem se instalar em outra parte do mundo. Acelerando seus processos pra que eles já possam viajar com visto, de avião... Mas é muito difícil porque, para isso tudo, os países devem querer aceitá-los".

Com a crise, a xenofobia

Além da resistência dos governos, a Europa enfrenta outro problema: o aumento da xenofobia. Na semana passada, a chanceler alemã foi vaiada e chamada de “traidora” por extremistas de direita durante uma visita a um acampamento de imigrantes e refugiados. A líder alemã respondeu dizendo que a Alemanha não vai tolerar quem “questiona a dignidade de outras pessoas”.

Mas, como certos grupos podem adotar o ódio em vez da solidariedade, diante de uma situação de crise humanitária? Para o pesquisador Gustavo Barreto, doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em imigração no Brasil, essa intolerância o catalisador da intolerância é a falta de identificação com o outro, a separação entre "nós" e "eles". Segundo Barreto, este é historicamente o o embrião da xenofobia. O crescimento dessa doença é invariavelmente acelerado por crises financeiras e outros problemas sociais, quando os imigrantes, "por não serem daquele lugar, tornam-se o bode expiatório perfeito".

No meio da construção desse sentimento, a Europa tenta diferenciar os refugiados políticos, que escapam de guerras e massacres, dos migrantes econômicos, que buscam melhores condições de vida na Europa. Barreto conta que, no Brasil, separações semelhantes serviram para forjar a imagem do “bom” e do “mau” imigrante. Um processo que teve participação determinante da imprensa: "O bom imigrante era retratado pela riqueza da sua cultura, enquanto isso, os outros; latinoamericanos, africanos e caribenhos (como é o caso dos haitianos) eram retrados pelos problemas. A eventual riqueza cultural africana, por exemplo, que foi trazida para o Brasil; ou a diversidade da América Latina por meio da chegada dos bolivianos, isso é completamente ignorado". O Brasil, "país do mito da hospitalidade", como disferiu Barreto, mostrou em episódios recentes que um debate honesto sobre a imigração é urgente.

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