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Linha Direta

Turquia aguarda dinheiro prometido pela UE para conter refugiados

Áudio 04:40
Grupo de migrantes que usaram barcos improvisados para atravessar de barco a Turquia em direção à ilha de Lesbos, na Grécia, em 8/2/16.
Grupo de migrantes que usaram barcos improvisados para atravessar de barco a Turquia em direção à ilha de Lesbos, na Grécia, em 8/2/16. REUTERS/Giorgos Moutafis

Três meses após o acordo firmado entre União Europeia (EU) e Turquia para conter avanço migratório, o número de migrantes no país não para de crescer e nenhum plano de ação ainda saiu do papel. O país é o que mais concentra refugiados em todo mundo, segundo a ONU, e, somente do início do ano até agora, 120 mil sírios cruzaram a fronteira rumo ao território turco.

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Fernanda Castelhani, correspondente da RFI Brasil, em Istambul,

A ajuda financeira de € 3 bilhões prometida pela Europa só gerou desavenças entre os países do bloco e, apesar de terem chegado a um consenso sobre a contribuição de cada um, agora em fevereiro, o dinheiro ainda não chegou. A situação é alarmante e, por enquanto, sem sinais de melhora.

Durante o inverno, a previsão era de freio no número de refugiados, mas o gráfico das Nações Unidas mostra uma linha constante de crescimento e o último relatório da Agência da ONU para Refugiados fala em mais de 2 milhões e 620 mil abrigados pela Turquia.

O país tem, ao todo, 25 acampamentos, principalmente, no Sudeste, onde faz fronteira com a Síria. Mas o que mais impressiona é que 90% dessas pessoas estão fora desses campos de refugiados. Vivem, hoje, espalhadas pelas cidades turcas em condições precárias e sem acesso aos serviços públicos básicos.
 

Em Istambul, por exemplo, parte dos refugiados mora nas ruas. As famílias se concentram nas áreas centrais e em acostamentos de grandes avenidas, onde atuam como vendedores ambulantes, ou pedem esmolas, muitas vezes, com auxílio de uma placa com palavras em turco – uma vez que não dominam o idioma. A Comissão da ONU para Direitos Humanos estima que metade dos refugiados sírios seja composta por crianças. Dessas, 400 mil estão fora da escola.

Divisão europeia e pressão turca

A União Europeia continua muito dividida em relação à entrada dos refugiados no bloco. E a Turquia está sabendo jogar com essas divergências e, por isso, começa a ser acusada de usar os refugiados como moeda de barganha.

O primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoğlu, já afirmou que o valor anunciado pelos países europeus é “somente uma demonstração do desejo político em dividir o fardo” porque a Turquia sozinha teria gastado três vezes mais do que a Europa com a crise migratória. O governo espera mais dinheiro e já está dando esperanças aos cidadãos turcos de viajarem à Europa sem precisar de visto num futuro bem próximo.

A própria redatora do relatório anual da União Europeia sobre a Turquia declarou, na semana passada, que foi uma falha associar o acordo migratório à possível adesão do país ao bloco. Isso porque o processo de inclusão teria de estar ligado a reformas democráticas, e a UE se silenciou diante da deterioração dos Direitos Humanos e da liberdade de expressão para os turcos. Apesar dessa crise de confiança, a Alemanha, até agora, é o país que mais se mostra inclinado a uma aliança com a Turquia na busca de uma solução.

Por conta do atentado em Ancara, na última semana, o governo turco se ausentou da reunião em Bruxelas em que seria discutido, finalmente, o plano de ação para os refugiados. Mas a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, disse que esta será a prioridade do próximo encontro com os 28 países-membros, previsto para o próximo mês.

Fronteiras para o terrorismo

Nos últimos quatro meses, a Turquia foi alvo de três grandes atentados nas suas duas maiores cidades e a fragilidade das fronteiras na entrada de migrantes compromete a segurança do país. De acordo com analistas em segurança internacional, os terroristas em todo mundo usam álibis diversos para executar o que desejam e, no caso da Turquia, diante dessa entrada maciça de refugiados, essa condição também pode ser usada como artifício.

Mas o que os especialistas afirmam é que a volta do terror aqui expõe, na realidade, a falta de posicionamento claro do governo turco nos conflitos internos e externos. Isso quer dizer que, nos dois atentados em Ancara e o ataque no coração turístico de Istambul, havia dois grandes suspeitos: os grupos armados curdos e o grupo Estado Islâmico.

Mas o combate ao terrorismo tanto no plano internacional quanto local, por parte da Turquia, tem focado massivamente nos ataques aos curdos. Isso causa desconfiança nos aliados, como Estados Unidos e União Europeia, sobre a real intenção do país em combater os extremistas independentemente da origem.

Portanto, em vez de tentar alcançar o papel de ator principal em uma futura sucessão de governo na Síria, a Turquia deveria focar na própria política para definir de que lado fica: ser o exemplo que já foi para o Oriente Médio ou ter os conflitos do Oriente Médio como novo modelo.

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