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Carne Fraca

Sem Carne Fraca, rodada entre Mercosul e UE termina com avanços

O diretor do Departamento de Negociações Internacionais do Itamaraty, Ronaldo Costa Filho (direita), em foto de artigo.
O diretor do Departamento de Negociações Internacionais do Itamaraty, Ronaldo Costa Filho (direita), em foto de artigo. Luis Macedo / Câmara dos Deputados
5 min

A Operação Carne Fraca não teve nenhuma influência nas negociações entre o Mercosul e a União Europeia que terminam nesta sexta-feira (24), depois de uma rodada de cinco dias em Buenos Aires. Tanto os negociadores brasileiros quanto os europeus coincidiram que o melhor forma de tratar do caso da carne adulterada brasileira é através dos canais diplomáticos e técnicos diretamente entre Brasília e Bruxelas.

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"Na negociação nesta semana, o tema não foi suscitado em nenhum momento. Interpreto isso como um reconhecimento do lado europeu de que esse é um problema extremamente técnico que têm de ser resolvido pelos canais apropriados. Aqui a coisa avançou independentemente desse problema", disse à RFI o chefe da delegação brasileira de negociadores, Ronaldo Costa Filho, diretor do Departamento de Negociações Internacionais do Itamaraty. "A discussão no capítulo sanitário e fitossanitário foi extremamente positiva nesta rodada. Não houve contaminação desse problema localizado [Carne Fraca]", garante.

Dos 12 grupos de diálogos comerciais, os negociadores acertaram o primeiro capítulo do acordo: o que se refere à concorrência comercial. Os avanços em "Cooperação Aduaneira" e em "Facilitação do Comércio" foram significativos a ponto de quase serem fechados. E, pela primeira vez desde 2012, o acordo de integração entre os dois blocos foi tratado nos seus três eixos: além do comercial, o de diálogo político e de cooperação.

"O saldo é extremamente positivo. Não há nenhum grupo negociador que tenha me trazido uma situação de que a coisa tenha andado para trás. Evidentemente, alguns andam mais do que outros", conta o chefe dos 50 negociadores brasileiros que passaram a semana em Buenos Aires.

Pelo lado europeu, o embaixador interino da União Europeia em Buenos Aires e adido comercial, o francês François Roudie, explicou à RFI que nesta rodada "cada lado pôde conhecer bem as posições do outro". "Parece menor, mas é um elemento crucial para um acordo poder escutar o outro para entender o que se quer e qual é a dificuldade", explica.

Pontos sensíveis, estrategicamente adiados

Apesar do balanço positivo, os pontos mais sensíveis foram adiados. Por pedido dos europeus, os dois lados combinaram de só tocarem nesses aspectos a partir da próxima rodada em Buenos Aires, no final de maio, depois das eleições na França.

Como a França é o país que mais protege o setor agrícola, justamente onde o Mercosul é mais forte, os próprios negociadores europeus não queriam que o assunto se tornasse alvo de disputa política durante a campanha presidencial francesa. E sem a contra-partida de abertura do setor agrícola europeu, o Mercosul também não pretende abrir os setores de Indústria e de Serviços nos quais os europeus são mais competitivos.

Apesar disso, ficou mantida a meta de fechar o acordo politicamente no final deste ano e terminar de polir a associação entre o Mercosul e a União Europeia até meados de 2018.

"Tenho detectado um novo ritmo nas negociações desde outubro do ano passado, uma busca de soluções de lado a lado. Isso me dá muito otimismo. Fim do ano ou meio do ano que vem é uma meta aspiracional", projeta Ronaldo Costa Filho. "Trabalhamos para isso, mas não faço promessas", reiterou.

Os riscos de uma falta de acordo

A decisão política dos dois lados indica que o risco de não fechar um acordo é muito maior do que o de fechar. Para o Mercosul, o risco de não fechar um acordo com a União Europeia é o de continuar confinado no mundo ou de contentar-se com acordos irrelevantes num contexto global de desenvolvimento sustentável e de competitividade industrial.

"Já sabemos o que acontece quando ficamos protecionistas. O acordo é fundamental porque num mundo complexo e que tende a dissociação, a naturalidade da associação entre a União Europeia e o Mercosul é tanta que temos de demonstrar a liderança de que é possível", reflete a chanceler argentina, Susana Malcorra. "Não ser capazes de fechar essa integração torna certo axioma de que a integração não serve", adverte.

Para a Europa, um acordo com o Mercosul favorece a aposta pelo multilateralismo e pelo livre comércio num momento em que o protecionismo, a xenofobia e o nacionalismo ganham terreno e ameaçam aquilo que a União Europeia construiu nos últimos 60 anos. A integração Mercosul - União Europeia é uma oxigenação fundamental para os dois lados neste momento.

"Numa época em que se questiona tanto a integração e a globalização, este é o momento político para a União Europeia confirmar os seus valores e para liderar politicamente este acordo", acredita Malcorra.

"Somos sócios na defesa dos nossos valores. Precisamos unir-nos para avançar entre nós e também para juntos defendermos esses valores de diálogo político, de forte compromisso com o estado de direito e com os direitos individuais", indica à RFI, François Roudie da União Europeia.

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