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O Mundo Agora

Brexit: Reino Unido busca divórcio amigável com UE

Áudio 04:44
Documento assinado pela primeira-ministra Theresa May com o qual o governo britânico comunicou oficialmente aos seus sócios europeus sua decisão de abandonar o bloco.
Documento assinado pela primeira-ministra Theresa May com o qual o governo britânico comunicou oficialmente aos seus sócios europeus sua decisão de abandonar o bloco. REUTERS/Yves Herman
Por: Alfredo Valladão

Acabou a brincadeira. A primeira-ministra britânica, Thereza May, espoletou oficialmente as negociações para a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. O Brexit não é mais um bate-boca para saber se é bom ou ruim. Agora, as negociações tem tempo marcado (dois anos no máximo) e, no final, a Inglaterra vai cair fora.

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A questão é de que maneira. Até hoje, os partidários do divórcio argumentavam que, desde o voto pela saída, a economia inglesa vai bem obrigado – e até melhor do que outras no continente. Mas esqueceram que ainda não aconteceu nada.

O Reino Unido continua membro da União, desfrutando de todas as vantagens e deveres. A Europa representa – e de longe – o maior mercado para os produtos britânicos. O gigantesco poder das instituições financeiras estabelecidas em Londres (17% do PIB do país) depende do famoso “passaporte” europeu que lhes dão o direito de atuar na Europa inteira. As leis, regras e standards da União estão completamente embutidos na legislação britânica – sem eles é toda a economia do país que vai ter que inventar um novo rumo.

E o modo de vida e o consumo das famílias inglesas estão intimamente ligados às importações que vêm do continente. Dois anos é pouco para acertar os termos da separação e negociar as futuras relações bilaterais, econômicas, jurídicas e sociais. Por enquanto, algumas grandes empresas financeiras começaram a transferir parte de suas sedes para Frankfurt ou Paris. Mas a maioria já está de sobreaviso. Caso o tempo fechar, o êxodo pode ser massivo.

Acordo benéfico

Claro, Thereza May não está a fim de afundar a Grã-Bretanha. O objetivo é chegar a um acordo benéfico para as duas partes. Só que o Reino Unido precisa muito mais da Europa do que o inverso. A primeira-ministra resolveu dar uma de Tarzan, com gritos estridentes para intimidar Bruxelas e serenar a opinião pública doméstica. “Nenhum acordo é melhor que um mau acordo”, conclama a líder britânica, para mostrar que não tem medo de sair de mãos vazias se os Europeus não entregarem a rapadura.

May exige que as negociações sobre as cláusulas do divórcio sejam concomitantes com um compromisso sobre um novo tratado de livre-comércio com o continente. A ideia é ficar com o que é bom na relação e descartar o que é considerado ruim. Londres já disse cinicamente que quer “ter o bolo e comê-lo também”.

Relações comerciais

Bruxelas já respondeu que não é bem assim. Primeiro a separação – que vai custar caríssimo – e, só depois, as relações comerciais. Algumas medidas limitadas e transitórias podem ser pactuadas, mas sempre respeitando as regras em vigor na União. Além disso nada de aceitar que o Reino Unido faça uma concorrência desleal se transformando em paraíso fiscal para atrair empresas e investimentos. Um acordo de livre-comércio terá garantias contra dumping, “fiscal, social e ambiental”. E nem pensar em acordos setoriais ou bilaterais de país a país. A Europa foi clara: estamos unidos e também prontos se o papo fracassar.

Na verdade, os partidários do Brexit contavam em dividir os europeus e convencer a Alemanha – que sempre foi mais favorável à Grã-Bretanha – a apoiar uma solução camarada. Só que hoje, manter a unidade europeia é um imperativo estratégico para Berlim. O mercado único é fundamental para a economia alemã e, mais ainda, a União é o baluarte indispensável para enfrentar o novo protecionismo de Donald Trump e as ameaças de segurança do Kremlin de Vladimir Putin e do terrorismo islâmico.

Angela Merkel não pode arriscar que Londres, fora da Europa, se beneficie de condições mais favoráveis que os próprios membros da União. O resultado seria a implosão da mesma. Portanto, a perspectiva de um acordo sem dor para os britânicos não é nada alvissareira. A menos que partidos nacionalista e anti-europeus ganhem as próximas eleições na França e na Alemanha. Mas nesse caso é a Europa inteira que vai sofrer, junto com os ingleses.
 

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