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Para evitar transfobia, Amsterdã tenta apagar noção de gênero na esfera administrativa

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Reportagem da revista semanal M do jornal Le Monde destaca a política contra discriminação de pessoas trans na Holanda.
Reportagem da revista semanal M do jornal Le Monde destaca a política contra discriminação de pessoas trans na Holanda. Reprodução site Le Monde.fr

A revista M do jornal francês Le Monde desta semana traz uma reportagem sobre as medidas adotadas pela prefeitura da Amsterdã para evitar a discriminação das pessoas trans. A partir de agora, o gênero dos cidadãos desaparece de vários documentos.

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O texto relata que a cidade holandesa não colocará mais a menção “menino” ou “menina” na documentação dos moradores. A administração vai adotar expressões como “nascido menino” ou “nascida menina”, conta a reportagem. “Amsterdã não quer mais se dirigir à população como ‘senhora’ ou ‘senhor’, e sim como ‘caros cidadãos’ ou ‘caras pessoas presentes’”, continua.

A revista conta ainda que a cidade lançou no final de julho um guia linguístico distribuído para todos os servidores públicos. Mesmo se nada será imposto, o documento tem como objetivo incitar os funcionários a evitar expressões que determinem o gênero dos cidadãos. Segundo as autoridades, além de inúteis, as menções ‘masculino’ e ‘feminino’ são discriminatórias.

As medidas “têm como objetivo demonstrar que a linguagem administrativa pode ser ‘inclusiva’”, prossegue a reportagem, lembrando que a menção sexual também desapareceu dos títulos de eleitor, dos documentos de estudante ou ainda de seguridade social em Amsterdã. A cidade também fará algumas alterações em prédios públicos, como a Prefeitura, que terá banheiros “neutros”, sem indicação masculino e feminino, conta a reportagem.

A prefeitura defende que a distinção entre homem e mulher não corresponde mais à realidade da sociedade. A reportagem relata que a Holanda teria hoje cerca de 50 mil pessoas trans, com idades entre 15 e 70 anos e que, para as autoridades municipais, esse dado já é suficiente para mudar os hábitos e as normas em vigor.

"Allossexual" e "alterssexual" são expressões cada vez mais usadas

A revista comenta que as medidas anunciadas por Amsterdã também atestam que a separação habitual entre heterossexual e homossexual já está ultrapassada. “A diversidade sexual é bem maior, com pessoas trans, interssex ou queer”, explica o texto. Por essa razão, na Holanda já se usa cada vez mais expressões como “allossexual” ou “alterssexual”, que englobariam todas as pessoas que não fossem hétéro. “Amsterdã vai até rebatizar sua Gay Pride, que passará a se chamar Canal Pride”, comenta a reportagem.

Celebradas pelas organizações de defesa das pessoas trans, essas medidas irritaram os grupos mais conservadores do país. Diederik Boomsma, um dos chefes do partido Chamado Critão-Democrata, um dos principais da Holanda, disse que “a minoria” trans deveria se adaptar à norma e que palavras como “senhor” e “senhora” não deveriam ser abandonadas por serem vistas como ofensivas por alguns.

Apesar da polêmica, a revista M do jornal Le Monde lembra que algumas medidas similares já foram adotadas em outros países. É o caso do Reino Unido, onde o metrô de Londres já aboliu as expressões “Ladies and gentleman” em seus anúncios e agora usa apenas “Hello everybody”.

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