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Europeus armam ofensiva para controlar os gigantes digitais

O secretário de Estado para Assuntos Digitais da França, Mounir Mahjoubi.
O secretário de Estado para Assuntos Digitais da França, Mounir Mahjoubi. CHRISTOPHE ARCHAMBAULT / AFP

Enquanto o escândalo envolvendo a exploração dos dados pessoais de usuários do Facebook continua atingindo a imagem da empresa de Mark Zuckerberg, na França a imprensa analisa o que a Comissão Europeia pretende implementar para combater conteúdos indesejados postados nas redes sociais, ligados, por exemplo, à pedofilia, ao contrabando, textos de incitação ao ódio e de apologia do terrorismo.

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Apesar do lobby intenso dos gigantes digitais conhecidos como Gafa (Google, Apple, Facebook e Amazon), que resistem ao monitoramento generalizado de conteúdos, os europeus querem impor às plataformas tecnologias capazes de filtrar automaticamente conteúdos considerados ilícitos.

Segundo o jornal Les Echos, os europeus decidiram adotar uma postura ofensiva, pois não acreditam mais na autorregulamentação do setor. O debate sobre a regulamentação começou por mais garantias de proteção dos direitos autorais no Youtube e agora se expande para outros conteúdos compartilhados livremente na internet.

A Comissão Europeia deve adotar decisões nessas duas frentes nos próximos meses, informa o diário econômico francês. Do ponto de vista legal, os europeus estudaram detalhadamente as possibilidades e vão agir para obter resultados concretos, sem ferir a liberdade que caracteriza o universo das novas tecnologias.

Privacidade no mundo digital

O jornal de esquerda Libération traz uma entrevista com o secretário de Estado para Assuntos Digitais, Mounir Mahjoubi. Ele afirma estar satisfeito com a direção dos debates na Europa sobre as garantias de proteção dos dados privativos dos usuários das redes sociais. O objetivo é que não aconteçam outros casos como o da empresa britânica Cambridge Analytica, acusada de recuperar – sem autorização – os dados de 50 milhões de usuários do Facebook e de tê-los usado com fins eleitorais na campanha presidencial de Donald Trump em 2016.

"Essas marcas [Amazon, Apple, Booking, Uber etc.] se tornaram prisões douradas. Elas são atraentes, mas se tornaram territórios fechados. Você só pode comprar, consumir, ler o que é compatível com essas plataformas. Quando se compra um smartphone por € 1.000, ele realmente pertence ao dono?", questiona o secretário. "É preciso que os cidadãos retomem o controle de seus aparelhos e de seus dados", preconiza Mahjoubi.    

O secretário explica que a aplicação do regulamento europeu sobre a proteção de dados (RGPD), a partir de maio, será uma revolução favorável aos usuários das grandes plataformas da internet. "Elas serão obrigadas a declarar o que recuperam dos utilizadores e como usam essas informações na sequência." De acordo com Mahjoubi, a pessoa que quiser que seus dados sejam apagados não precisará mais esperar meses a fio para obter essa garantia. A pirataria de dados, que até então as plataformas escondiam, ficará visível. A título anedótico, ele conta que demorou sete meses para obter do Uber seus dados pessoais. "Um absurdo", critica.

O homem da área de novas tecnologias do governo Macron adverte que ante a evolução da inteligência artificial, o desafio é imenso. "Em pouco tempo, as empresas irão inserir 100% de seus dados em plataformas de inteligência artificial para desenvolver novos serviços", destaca. "O compartilhamento de dados deve ser ordenado e regulamentado, para que seja útil a todos e não atenda somente a interesses particulares e opacos de alguns grandes grupos, avalia o secretário.

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