Maioria dos italianos é a favor do censo de ciganos proposto por vice-premiê ultranacionalista

O vice-premiê e ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, líder do partido de extrema-direita ultranacionalista Liga.
O vice-premiê e ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, líder do partido de extrema-direita ultranacionalista Liga. REUTERS/Stefano Rellandini

Uma pesquisa recém-publicada pelo instituto de pesquisas italiano Noto mostra que 55% dos italianos é favorável ao censo dos ciganos, uma proposta inconstitucional feita pelo vice-premiê e ministro do Interior Matteo Salvini visando deportar os que estejam ilegais. A Constituição italiana veta expulsar cidadãos com base na sua etnia. Para a União Europeia, seria uma violação dos direitos humanos.

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Gina Marques, correspondente em Roma

A proposta de Salvini lembra dias sombrios da Segunda Guerra Mundial, quando cerca de 500 mil ciganos foram deportados e exterminados em campos de concentração nazistas.

Os aliados do Movimento 5 Estrelas (M5S) tentaram contornar a proposição de Salvini, figura que ganha ainda mais força dentro do governo. Luigi Di Maio, líder do M5S, declarou: “Ainda bem que Salvini desmentiu, o que não é constitucional não se pode fazer”.

Devido às críticas dos aliados e opositores, Salvini afirmou que não estava propondo um levantamento oficial, mas sim uma avaliação dos acampamentos ciganos para "ajudar as milhares de crianças" ciganas que estivessem fora da escola. Apesar da interdição do censo e da deportação, o líder da Liga, partido de extrema-direita ultranacionalista, segue determinado: "Primeiro os italianos e sua segurança", destacou Salvini.

Firmeza de líder extremista agrada aos italianos

Na terça-feira (19), ele ressaltou que em Carmagnola, cidade próxima de Turim (norte), administrada pela Liga, uma casa construída sem alvará foi demolida em um terreno ocupado ilegalmente por ciganos. Salvini comentou: “De palavras a ações”. O mesmo lema usado em sua campanha eleitoral.

A firmeza contra os ciganos e contra os imigrantes ilegais parece recompensar o líder extremista. As pesquisas apontam que a Liga cresce e registra cerca de 29% na aprovação popular. O partido obteve 17% nas últimas eleições de 4 de março.

Ciganos na Itália

Segundo as estimativas, entre 120 e 180 mil ciganos são cidadãos italianos, dos quais 26 mil vivem em favelas ou acampamentos ilegais. Na Itália a maioria é da etnia Rom; os Sinti são representados em menor número. Os dados constam do último Relatório da Associação de 21 de Julho. O documento é apresentado anualmente no Parlamento.

Existem 148 favelas de ciganos espalhadas pelo país. Cerca de 16.400 pessoas moram nesses aglomerados, distribuídos em 87 municípios, de norte a sul. Os assentamentos informais contam com 9.600 ciganos. Dos moradores em favelas formais, estima-se que 43% tenham a cidadania italiana, enquanto há 9.600 ciganos rom originários da ex-Iugoslávia, dos quais cerca de 3 mil são, na verdade, apátridas. Portanto, não teriam para onde ser deportados.

Os ciganos têm dificuldades em se inserir no mercado de trabalho e são marginalizados. A maioria dos italianos tem uma percepção negativa dessa comunidade e acredita que são eles que não querem trabalhar. Os ciganos são vistos como batedores de carteira, costumam ser associados aos roubos domésticos ou aos catadores de cobre que vasculham as lixeiras.

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