Itália/Imigração

Europeus fazem vaquinha para apoiar comandante de navio bloqueado com migrantes na Itália

A comandante do Sea Watch 3, Carola Rackete, no navio em 26 de junho de 2019.
A comandante do Sea Watch 3, Carola Rackete, no navio em 26 de junho de 2019. Sea-Watch International via REUTERS

Em menos de 24 horas, uma vaquinha aberta nas redes sociais recolheu mais de € 130.000 para ajudar a alemã Carola Rackete, 31 anos, comandante do navio humanitário Sea Watch. O dinheiro será usado na defesa da capitã, caso ela venha a ser presa por ordem do ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, por ter desafiado a lei anti-imigração do governo populista italiano.

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O Sea Watch está bloqueado desde ontem em frente ao Porto de Lampedusa, no extremo sul da Itália, onde chegou depois de ter resgatado 42 migrantes no mar Mediterrâneo há duas semanas. Salvini esbravejou no Facebook que a comandante deve ser presa. Policiais estão a postos no cais da ilha. O navio não pôde atracar.

Heroína para os migrantes e defensores dos direitos humanos, Carola irritou o ministro. "Qualquer pessoa que viole as regras de um país tem que responder por isso. Vale para essa capitã encrenqueira do Sea Watch, que está fazendo política com as vidas dos migrantes", lançou Salvini.

Nas redes sociais, muitos elogiam a coragem da jovem alemã. "Oh, capitã, minha capitã!", escreveram internautas brincando com o apelido que os militantes de extrema direita utilizam para Salvini: "Oh capitão, meu capitão".

A comandante afirma agir por princípio: "Não importa como você acabou numa situação de perigo. Os bombeiros não se importam com isso, os hospitais também não. Para a lei marítima isso também não importa. Se alguém precisa ser resgatado no mar, você tem o dever de resgatá-lo", explicou. "A ajuda termina quando você deixa as pessoas em um lugar seguro", acrescentou.

Muro no mar

Desde que o governo populista chegou ao poder na Itália, em junho de 2018, a questão da migração é basicamente um assunto político. "Nós, europeus, permitimos que nossos governos construíssem um muro no mar. Existe uma sociedade civil que luta contra isso e eu faço parte dela", resumiu a alemã. "Eu tenho as habilidades, a oportunidade e o privilégio de estar em uma posição onde posso realmente ajudar", disse a comandante em um vídeo divulgado nas redes sociais.

A alemã no comando do Sea Watch diz que cumpre rigorosamente a lei marítima, algo confirmado por outros capitães de renome, como Gregorio De Falco, famoso por sua intervenção para resolver o desastre do Costa Concórdia em 2012. "Estou disposta a ir para a prisão e vou me defender no tribunal, se necessário, porque o que estamos fazendo está correto", declarou.

Ao entrar na quarta-feira em águas italianas, com os 42 migrantes a bordo, apesar da proibição do ministro, ela desafiou Salvini e sua política linha-dura.

Pesquisa ambiental abriu caminho para ativismo social

Cabelos escuros amarrados num rabo de cavalo, olhar confiante, a primeira mulher capitã de uma embarcação humanitária nasceu em Kiel, na costa báltica do norte da Alemanha. Depois de estudar ciências marinhas e proteção ambiental na Alemanha e no Reino Unido, ela se habituou à navegação quando passou vários meses fazendo pesquisa em quebra-gelos no Ártico e na Antártida.

"Sempre fui apaixonada pelas regiões polares, porque são muito bonitas e inspiradoras, mas trabalhar lá é triste porque você vê o que os seres humanos estão fazendo com o planeta", confessou em um vídeo divulgado pela organização humanitária alemã Sea Watch. De seu compromisso com a defesa do meio ambiente nasceu o engajamento social. Ela aproveitou suas férias para trabalhar com a ONG alemã, cujos tripulantes são voluntários.

A primeira missão de Carola foi em 2016, quando a flotilha humanitária passou a ser considerada um apoio valioso aos vários barcos militares italianos e europeus que realizavam o resgate de migrantes ao largo da costa da Líbia. As tragédias no mar marcaram as missões de ajuda a barcos que naufragaram, com poucos sobreviventes no meio de cadáveres flutuando.

Nos últimos anos, ouviu muitas histórias de tortura, abusos e agressões sofridas pelos migrantes que esperam zarpar a partir dos campos de refugiados na Líbia. Pouco a pouco, os barcos militares pararam de prestar assistência e os humanitários, que estavam na linha de frente, passaram a ser considerados cúmplices dos traficantes de seres humanos pelo governo italiano. Mas Carola diz estar disposta a ir para a prisão. Para ela, é uma questão de princípio.

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