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Linha Direta

Ex-braço do IRA, partido radical de esquerda Sinn Fein lidera corrida eleitoral na Irlanda

Áudio 05:29
Cartazes mostram os líderes dos partidos que participam das eleições antecipadas na Irlanda, que serão realizadas no sábado, 8 de fevereiro.
Cartazes mostram os líderes dos partidos que participam das eleições antecipadas na Irlanda, que serão realizadas no sábado, 8 de fevereiro. BEN STANSALL / AFP
Por: Vivian Oswald
11 min

A República da Irlanda vai às urnas neste sábado (8) e o partido radical de esquerda Sinn Féin, ex-braço político do IRA, saiu na frente e promete embaralhar a cena política no país, ainda no calor do Brexit. Nenhuma das legendas deve conseguir maioria, de acordo com as pesquisas de opinião. Portanto, é cedo para dizer que o Sinn Féin, que se manteve às margens do sistema no último século, poderá ter lugar numa nova coalizão.

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Correspondente da RFI em Londres

Na última eleição, realizada em 2016, sem maioria, o Fine Gael e o Fianna Fáil, duas legendas consideradas de centro no espectro político e bem parecidas, se uniram para comandar o país. Mas, desta vez, há um elemento novo em jogo: o Sinn Féin, partido que se manteve até hoje às margens do sistema, e não fez parte de nenhum governo no país há um século, lidera a corrida eleitoral.

O avanço da legenda é um sinal de que as pessoas querem mudanças, sobretudo os mais mais jovens, que estão atrás de mais oportunidades econômicas. Eles têm dito que a bonança da República da Irlanda - a economia que cresce mais depressa dentro da União Europeia - não é para todos. Trata-se de uma legenda da esquerda radical, que defende a reunificação das duas Irlandas e que trouxe para o debate assuntos populares como falta de habitação, desigualdades e pensões.

Para alguns analistas, é como se a onda populista que parece varrer o mundo tivesse chegado à República da Irlanda também. Há quem compare o Sinn Féin com Donald Trump, nos Estados Unidos, o Brexit, no Reino Unido, e Marine Le Pen, na França.

Sinn Féin ameaça partidos

Os dois partidos que estão no poder nesse momento, o Fine Gael e o Fianna Fáil, querem evitar que o Sinn Féin ganhe espaço. Defendem que eles conduziram o crescimento e a estabilidade econômica do país nos últimos anos.

O atual primeiro-ministro, Leo Varadkar, destaca a sua participação fundamental nas negociações do Brexit, pelo lado europeu, para tratar de um dos temas mais espinhosos do acordo final entre o Reino Unido e a UE: a fronteira entre as Irlandas. Com a saída britânica da União Europeia, a demarcação terrestre entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte se tornou a nova fronteira entre o Reino Unido e o bloco.

Os norte-irlandeses, que votaram maciçamente contra o Brexit, ficaram de fora do bloco, junto com o resto do Reino Unido. Tudo isso significa que a chegada de um partido radical no Dáil, o parlamento irlandês, deve pesar nas conjunturas políticas de Belfast, Londres e Bruxelas. Ou seja, a mesma fronteira, que esteve no centro de três décadas de conflitos violentos na Irlanda do Norte, e que já não existia mais desde o acordo de paz de Belfast, cria uma nova uma sombra entre os dois lados.

Entre 1968 e 1998, os conflitos na Irlanda do Norte mataram mais de 3.500 pessoas. Foi a mais longa campanha militar britânica desde que as tropas foram enviadas à Irlanda do Norte em agosto de 1969 para enfrentar os protestos dos separatistas. Eles queriam deixar o Reino Unido monarquista para juntar-se à República da Irlanda. O que havia sido descrito como um movimento temporário de emergência durou 38 anos para acabar com o cessar-fogo entre o IRA e os paramilitares unionistas.

Até hoje em Belfast, muros e cercas com arames farpados recortam parte da cidade de apenas 240 mil habitantes. Separam as áreas onde vivem católicos - ainda em maioria - e protestantes. Pelas paredes da cidade vê-se que a história recente dos anos violência que ficaram conhecidos como "The Troubles", ainda assombra o imaginário coletivo.

Aproximação entre as Irlandas

Cada vez mais próxima da República da Irlanda, que é a vizinha próspera, a Irlanda do Norte cresceu recentemente, turbinada justamente pela união com o continente. Mesmo assim, as diferenças entres as vizinhas é imensa.

O acordo que o Reino Unido firmou com os europeus para conduzir o Brexit cria as temidas barreiras de fronteiras a partir de janeiro de 2021, quando termina o período de transição para a entrada em vigor para valer do divórcio. Isso pode não só trazer violência para uma região pacificada no lado britânico, depois de um longo período de derramamento de sangue, como também o desejo de norte-irlandeses de deixar, eles também, o Reino Unido.

Ninguém sabe se isso é o que a população da República da Irlanda quer agora. O atual primeiro-ministro Leo Varadkar e o líder do Fianna Fáil, Mikhail Martin, garantem que não está na hora de discutir isso.

Gaélico, idioma oficial

Varadkar é conhecido entre os irlandeses como "taoiseach", mesmo em inglês. É a palavra em gaélico para chefe de governo. Não dá para adivinhar a pronúncia do termo, porque é bem diferente da maneira que se escreve. O parlamento também: o Dáil. 

O gaélico ainda é falado por 1,8 milhão de pessoas. Esse número vem caindo ano a ano. Só 73 mil pessoas usam a língua no seu dia a dia. A população da República da Irlanda é de 4,8 milhões de habitantes. Desde 2007, o gaélico passou a ser usado como idioma oficial da UE.

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