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Brasileiro diz que é preciso mudar a maneira de ver as enchentes para enfrentá-las

Áudio 05:33
O brasileiro João Porto Albuquerque, diretor do Instituto para Desenvolvimento Sustentável Global, da Universidade de Warwick, na Inglaterra.
O brasileiro João Porto Albuquerque, diretor do Instituto para Desenvolvimento Sustentável Global, da Universidade de Warwick, na Inglaterra. Divulgação

Partes do Reino Unido estão debaixo d’água neste momento. Vinte dias atrás, a cidade de São Paulo parou, enquanto enfrentava a maior inundação dos últimos 35 anos. A mudança dos regimes climáticos mundo afora e a urbanização desordenada ou mesmo planejada, mas com base nos fluxos de chuva do passado, estão por trás desse fenômeno, segundo o brasileiro João Porto Albuquerque, diretor do Instituto para Desenvolvimento Sustentável Global, da Universidade de Warwick, na Inglaterra.

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O professor afirma que as chuvas fortes sempre existiram. Mas o que era apenas a exceção, passou a ser regra. Ele defende que a única maneira de enfrentá-las, bem como diminuir perdas materiais e humanas, é enxergar as inundações de outra maneira. Esse é um dos objetivos do projeto “Dados à prova d’água”, comandado por Albuquerque. O programa prevê a criação de um aplicativo que conta com a participação da população no combate às enchentes. Ali, as pessoas vão ajudar, em tempo real, as autoridades a medir as chuvas, indicar as áreas mais afetadas, ou de risco. Elas também vão dividir suas experiências, o que os acadêmicos chamam de memória da inundação, e usar esse software participativo para se informar.

O piloto do projeto está sendo feito no Brasil, no bairro de M’Boi Mirim (nome que vem do tupi e significa “cobra pequena”, o nome do rio sobre o qual a área foi construída), no município de São Paulo, e em Rio Branco, a capital do Acre. Trata-se de um universo de quase um milhão de pessoas, consideradas as populações das duas regiões. Mas a ideia é ampliar o modelo para todo o país, em um segundo momento, e até replicá-lo em outras nações. A partir destes dois lugares tão distintos serão coletadas as informações que permitirão ver de perto o que não é possível apenas pena medição das águas.

"O aplicativo e a produção de dados com os cidadãos ajuda a gente a produzir novos dados sobre realidades que hoje não estão no mapa. Nosso projeto propõe repensar o jeito que a gente se relaciona com os fenômenos naturais a partir de dados. O dado de medição tradicional é o hidrológico, que calcula o nível do rio e o volume de chuva. A gente faz isso também, da maneira científica, só que a gente permite às pessoas fazerem isso lá onde elas estão, nos bairros de periferia, o que torna isso muito mais capilar”, diz.

O maior problema para enfrentar enchentes, hoje, segundo Albuquerque, é a falta de comunicação entre população, autoridades e comunidade científica. E é fundamental que essas informações cheguem às pessoas para que elas possam decidir como agir em em dia de chuvarada e que riscos envolvem suas ações cotidianas.

"Para que, por exemplo, a pessoa entenda se vai hoje para trabalho, ou não. Se vai ser surpreendida por uma enxurrada, na volta para casa. Se ela vai perder o dia trabalho, ou se ela vai perder tudo dentro da casa dela. Ela pode decidir que caminho pegar naquele dia para não se expor a áreas alagadas”, explica.

Esse projeto internacional tem a participação da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), no Brasil.

Em uma outra frente, os 25 pesquisadores do programa já estão treinando alunos de 81 escolas brasileiras para medir os níveis de chuvas em pluviômetros artesanais em múltiplas localidades.  Algumas das escolas estão mudando os seus currículos para entrar no projeto.

Para o professor brasileiro, que está a frente deste projeto há quatro anos, é preciso deixar claro que "as águas não são as culpadas pelos acidentes". Ele até evita o termo desastres naturais nesses casos.

"Esses desastres acontecem não é por causa do fenômeno natural. Se uma chuva forte cai numa área sem ocupação, e que não tem pessoas em situação de risco, ela não causa estrago. É a interação entre a chuva e o jeito que a gente ocupa o solo. Se há, ou não, vias para a água ser escoada, se há habitações mais ou menos vulneráveis, e se as pessoas e casas estão expostas ao perigo em áreas de enxurrada”, afirma.

Todas as informações serão digitalizadas e centralizadas para que sejam utilizadas por todos. A ideia é criar uma rede cidadã. Tudo isso traz novos conceitos de trabalho para um universo em que o envolvimento das comunidades não era necessariamente um elemento importante. É a chamada ciência cidadã.

Uma nova realidade

Em Warwick há quatro anos, Albuquerque, que é formado em ciência da computação, dedica-se agora à geografia da computação. Os dados obtidos com o programa devem orientar também políticas de governos regionais. Segundo o professor, já não adianta apenas confiar nas obras de engenharia do passado. É preciso repensá-las.

"Uma das coisas é mudar essa confiança excessiva nas obras de engenharia que vão conter completamente a chuva. A gente vai ter que pensar em maneiras de ocupar o solo que acomodem mais as águas, que sejam mais sensíveis a água, à nova realidade climática que nós temos”, destaca.

As chuvas fortes têm sido mais frequentes pelo mundo inteiro, mesmo nos países europeus, segundo o professor. Mas ela afeta as comunidades de maneiras diferentes.

"O que nós observamos com a inundações é que elas têm ficado mais frequentes no mundo todo. Isso se deve a dois fatores pelo menos. Um é a mudança dos regimes climáticos, extremos climáticos agora mais frequentes. Temos agora chuvas muito mais fortes e concentradas no tempo que acontecem de uma maneira muito mais frequente do que anteriormente. E o segundo é aquilo que determina impacto em si: a forma de urbanização”, explica.

Urbanização não planejada

No Brasil, segundo ele, há um fenômeno composto, que ainda inclui a urbanização não planejada.

"A gente tem zonas periféricas de crescimento urbano aceleradíssimo que tivemos nos últimos 50 anos. Hoje, o Brasil é mais de 70% urbano. É um dos países mais urbanos do mundo. E isso aconteceu com um fluxo muito grande dentro das cidades de crescimento, que ocupou áreas que eram tradicionalmente várzeas de rios, ou áreas baixas, que alagavam, e que hoje estão alagando ainda mais frequentemente”, conta.

Todos os dados obtidos pelo programa serão transformados em mapas que vão mostrar os lugares que estão sendo mais afetados por inundação. Albuquerque destaca que, com essas novas maneiras de produzir e circular as informações, e fazer fluir a comunicação entre cidadãos e governo, será possível tornar a sociedade mais preparada para enfrentar o problema.

"Tudo isso pode ter grandes impactos em termos de prevenção de perdas econômicas e até de vidas humanas”, diz.

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