Pressionada por Pequim, UE altera relatório sobre falsas informações chinesas da Covid-19

Chineses usam máscaras em mercado de alimentos em Pequim. 24 de abril de 2020.
Chineses usam máscaras em mercado de alimentos em Pequim. 24 de abril de 2020. © ©A man wearing a face mask buys food at a street stall, as th

A China tentou bloquear a publicação de um relatório da União Europeia (UE) mostrando que Pequim alimentou a desinformação, divulgando conteúdo falso sobre a epidemia de coronavírus, de acordo com quatro fontes e correspondências diplomáticas obtidas pela agência Reuters.

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O relatório foi finalmente divulgado, pouco antes do fim de semana na Europa. Porém, algumas críticas ao governo chinês foram alteradas ou removidas do documento. Um sinal da difícil posição em que se encontra Bruxelas, enquanto a crise sanitária atrapalha as relações internacionais.

Segundo quatro fontes diplomáticas ouvidas pela Reuters, o documento estava originalmente programado para ser divulgado na terça-feira (21). Sua publicação, no entanto, foi adiada depois que autoridades chinesas souberam de elementos contidos no relatório, através de um artigo do site de notícias americano Politico.

No mesmo dia, um alto-funcionário do governo chinês entrou em contato com representantes europeus em Pequim para informar que "se o relatório fosse mesmo como o descrito e caso fosse publicado naquela data, seria muito ruim para a cooperação", de acordo com uma correspondência da missão diplomática europeia a que a Reuters teve acesso.

Segundo a correspondência, o alto representante do Ministério de Relações Exteriores da China, Yang Xiaoguang, disse que a publicação do relatório deixaria Pequim "muito zangada" e acusava os representantes europeus de tentar agradar "outra pessoa". Um comentário que diplomatas europeus interpretaram como uma referência a Washington.

Consequência: não apenas o documento foi publicado com atraso, mas a versão final divulgada nesta sexta-feira (24) à noite difere da versão original do relatório que a Reuters obteve.

Alusão à China só no final do relatório

Na primeira página do relatório interno compartilhado com os governos da UE em 20 de abril, o corpo diplomático do bloco afirmou, por exemplo: "A China continuou a organizar uma campanha global de desinformação para evitar de ser responsabilizada pela disseminação do vírus e para melhorar a sua imagem internacional”.

O resumo do documento tornado público na sexta-feira no euvsdisinfo.eu, o portal da UE dedicado à luta contra a desinformação, é muito mais brando. O texto atribui a desinformação sobre o vírus a "fontes" apoiadas por "diferentes governos, incluindo a Rússia e, em menor grau, a China".

O relatório menciona muitas "evidências importantes de operações chinesas ocultas nas redes sociais", mas essa referência é adiada para os últimos seis parágrafos do documento.

Relação comercial com Pequim

A questão da desinformação sobre a Covid-19 se tornou uma fonte de tensão entre os Estados Unidos e a China, com representantes de ambos os lados acusando um ao outro de esconder informações sobre a epidemia. Essa briga entre Washington e Pequim, acabou por vezes colocando os europeus no meio da disputa.

A União Europeia é o principal parceiro comercial da China, com mais de um bilhão de euros em comércio bilateral diário e não quer estragar sua relação comercial com Pequim. Já a China está atrás apenas dos Estados Unidos como o principal mercado de bens e serviços europeus. O embaixador chinês na UE, Zhang Ming, disse que "a desinformação é um inimigo para todos e que deve ser tratada conjuntamente".

 

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