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Arrogância ocidental é responsável por milhares de vítimas do coronavírus, diz The Lancet

"Essa arrogância é responsável por dezenas de milhares de mortos. Os óbitos foram provocados por um vírus, mas também aconteceram por um orgulho ocidental", afirma Richard Horton, editor-chefe da revista britânica The Lancet.
"Essa arrogância é responsável por dezenas de milhares de mortos. Os óbitos foram provocados por um vírus, mas também aconteceram por um orgulho ocidental", afirma Richard Horton, editor-chefe da revista britânica The Lancet. © Fotomontagem RFI
Texto por: RFI
4 min

O jornal Libération desta terça-feira (16) traz uma entrevista exclusiva com Richard Horton, editor-chefe da revista britânica The Lancet, sobre a recente e polêmica retratação de um estudo sobre a cloroquina. O médico também faz duras críticas sobre o gerenciamento da crise sanitária pelos governos ocidentais. 

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Para Horton, alguns líderes não acreditaram que o coronavírus era tão grave quanto alertavam os cientistas. Segundo ele, isso demonstra o menosprezo dos países ocidentais. O editor chega a acusar alguns governos de racismo contra a China. 

"Havia essa visão de que nossos sistemas de saúde pública e nossas comunidades científicas eram muito mais avançados que os da China e que nós poderíamos gerenciar a crise muito melhor do que eles", diz o professor honorário da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Em entrevista ao jornal Libération, ele não esconde seu revolta. "Essa arrogância é responsável por dezenas de milhares de mortos. Os óbitos foram provocados por um vírus, mas também aconteceram por um orgulho ocidental", dispara.

Crimes contra a humanidade

Horton acusa o presidente americano, Donald Trump, de "crimes contra a humanidade" e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, de ter "falhado em cumprir seus deveres e de ter mentido"

Segundo o especialista, há anos a comunidade médica sabia que não estava preparada para enfrentar uma pandemia e nada foi feito para mudar essa situação. Ele relembra que, em 24 de janeiro deste ano, quando The Lancet publicou um primeiro artigo sobre a Covid-19, os cientistas estavam conscientes desta realidade e alertaram os governos. 

"Sabíamos que precisávamos distribuir urgentemente material de proteção, que precisávamos testar, rastrear e isolar os pacientes contaminados. Sabíamos que precisávamos aumentar a capacidade de acolhimento nas UTIs. E o que foi feito em fevereiro para se preparar? Absolutamente nada!", diz.

Horton afirma que as autoridades britânicas começaram a se dar conta de que algo de perigoso estava acontecendo quando a Lombardia, região no norte da Itália, foi extremamente castigada pela doença em março. "Perdemos quatro, cinco, seis semanas nas quais poderíamos ter impedido dezenas de milhares de mortos no Reino Unido", sublinha.

Para ele, esse é o aspecto mais revoltante da situação. "Boris Johnson ousa se apresentar diante do Parlamento e dizer que fizemos o melhor que podíamos, que ele está orgulhoso de seu governo. Essa declaração é criminosa", afirma o editor-chefe da The Lancet.  

Estudo retratado

No início deste mês, três dos quatro autores de uma pesquisa publicada pela revista se retrataram. O estudo apontava para o perigo do uso da cloroquina para tratar pacientes contaminados pelo coronavírus. O texto levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a interromper os testes com o medicamento.

Para Horton, o episódio envolvendo a revista The Lancet é "um fracasso completo para a ciência". A polêmica envolve os dados utilizados na pesquisa, baseada em informações de 96 mil pacientes.

Quem forneceu os dados foi a empresa americana Surgisphere, que se negou a transferir o conjunto completo de informações sobre os pacientes para os pesquisadores realizarem o estudo. O fundador da empresa, Sapan Desai, é co-autor do trabalho do qual os outros três autores se retiraram.

O método utilizado pelos cientistas para confirmar as informações, chamado de "revisão dos pares", também é contestado pelo editor-chefe. Segundo ele, "três dos quatro autores não tinham nenhuma ideia sobre o que assinaram", um caso classificado por Horton como "um absurdo". 

"O estudo foi retirado do ar e isso é uma coisa boa", afirma o especialista ao jornal Libération. No entanto, ele sublinha que "essa história não pode terminar assim. É preciso uma investigação completa sobre como o estudo foi conduzido". 

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