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Senso de coletividade: a grande lição de brasileira que atuou no front contra coronavírus na Suíça

A fisioterapeuta Flávia Greco, de 35 anos, esteve na linha de frente do combate ao coronavírus.
A fisioterapeuta Flávia Greco, de 35 anos, esteve na linha de frente do combate ao coronavírus. © Valéria Maniero

O combate à Covid-19 na Suíça, país que conseguiu enfrentar relativamente bem a epidemia - 1.656 mortes, de acordo com a OMS -, teve o reforço de uma brasileira na equipe. A fisioterapeuta Flávia Greco, 35, esteve na linha de frente do combate ao coronavírus, trabalhando em Lausanne, em uma clínica particular que atendeu dez pacientes com a doença com idades entre 55 e 85 anos.

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A RFI conversou com a fisioterapeuta, que contou sobre a experiência de passar pela pandemia estando dentro de uma unidade de atendimento, diretamente envolvida na recuperação dos pacientes, e sobre as situações mais marcantes. A maior dificuldade, para ela, foi ter três dos dez pacientes na UTI, que vieram transferidos do hospital da região, precisando inclusive de intubação.

“Eu acho que esse foi o maior desafio, mas estávamos todos motivados a estar ali, a trabalhar não sabendo até quando. A reação deles a gente contava um pouco pelo número de dias de intubação. A gente falava: olha, essa senhora já tem tantos dias, vamos esperar um pouco para ver como ela vai reagir. Tivemos um homem de 57 anos, e você pensa que, pela idade, vai se recuperar mais rápido, mas na hora você vê que não é bem assim. Então, a gente pôde controlar um pouco esses três na nossa incerteza. Apesar de ser a mesma doença, foram recuperações diferentes, mas as três positivas, e a gente fica bastante aliviada”, conta.

O caso do paciente de 57 anos sensibilizou em especial a fisioterapeuta. “Ele tinha mais ou menos a idade do meu pai. Então, quando eu olhava para ele, eu falava: pode acontecer com todos nós. Pode acontecer com qualquer família. Um dia a gente achou que ele estava bem, mas piorou, aí, no final do dia, eu falei: como é que ele está? Não consigo ir embora, não posso deixá-lo assim. Vou pra casa ou não vou? Foi um dia em que eu fiquei com medo de ir embora e não vê-lo mais no dia seguinte. O que não foi o caso, porque correu tudo bem”, lembra ela.  

Greco acha que, “por ser um perfil que se parece com o de alguém da nossa família, a gente se coloca mais no lugar. Esse momento me tocou bastante”, diz.

Uma conversa de mãe e filhos na UTI  

O período vivido na clínica durante os atendimentos aos pacientes da Covid-19 promoveram uma série de experiências sensíveis a essa brasileira, que parece ainda à flor da pele. Ela descreve quando uma mulher de 75 anos, também na UTI, viu os filhos pela primeira vez pelo celular depois de 30 dias de internação, e o cqrinho da equipe em arruma-la para esse momento.  

“Eu vi a reação dela, que estava um pouco sem entender o que estava acontecendo. E a gente ouvia as vozes dos filhos. É gratificante ver que a família estava aliviada de ver a mãe ali. Esse momento me tocou bastante, isso de mostrar o paciente para a família”.

Flávia explica que se ocupava da fisioterapia respiratória dos pacientes, com “todos os cuidados que uma intubação requer” e, em um segundo momento, fazia também todo o procedimento de fisioterapia motora e reeducação neurológica.

“No início, havia a parte da fisioterapia para movimentar os pacientes, mas eles estavam muito instáveis, então era muito pouca essa parte motora. Era mais a respiratória, de um gesto de aspiração, de ajudar a enfermeira a fazer uma troca de material. À medida em que eles ficavam menos instáveis, a gente poderia fazer mais coisas com eles. Enquanto que, no período de intubação, era uma coisa bem leve, a gente estava muito mais com a equipe de enfermagem. Logo depois da intubação, foi mais intensivo, que era a parte de recuperação motora, saber se tinha sequelas, quais sequelas, o que poderíamos trabalhar. A gente foi progredindo junto com os pacientes”, explica a profissional, que se graduou no Brasil e fez mestrado na França.

Uma rotina de cuidados

Além do aprendizado em relação à doença e ao contato com os pacientes, Flávia destaca a rígida e cansativa rotina de cuidados inerentes à atividade, a exemplo de todo o material de proteção indispensável ao trabalho - roupas especiais, toucas, óculos, máscaras, luvas. “Era exaustivo. No fim do dia, você sai com todas aquelas marcas sobre a pele, com dor de cabeça, porque a proteção de cabeça aperta a testa”, conta.

Mas, uma vez protegida pelos equipamentos adequados, Flávia admite que se sentia segura para exercer suas funções. "A gente tinha total segurança ali dentro. Ninguém se preocupava com nada em relação à contaminação. A partir do momento em que a gente está seguro, consegue, realmente, se doar, estar ali para o paciente”.

As principais preocupações

Em um trabalho como esse, de contato direto com o vírus, todo cuidado é pouco, como se pode imaginar. "A gente tinha que prestar atenção, ter cuidado na hora de colocar a roupa e, o mais importante, no retirar, porque já está contaminada. A gente seguia um protocolo, etapa por etapa, para sair tranquilo”, conta.

O que o Brasil pode aprender com a Suíça  

Epicentro da pandemia no momento, com 49 mil mortes e mais de 1 milhão de casos, o Brasil poderia aprender com outros países como a Suíça. Essa é a opinião da fisioterapeuta. "Temos que pensar na gente e nos outros. Porque esse vírus nos faz pensar nos outros. Eu me protejo para proteger as outras pessoas. Acho que esse comportamento da sociedade é o mais importante agora”.

Senso de coletividade

Na opinião da fisioterapeuta, a queda no número de novos casos na Suíça – atualmente menos de 20 por dia - estaria diretamente relacionada a uma questão cultural e a um desenvolvido senso de coletividade. “Eu acho que tem muito de você respeitar, saber o seu papel na sociedade. Aqui tem muito essa consciência do que se deve fazer. Cada um fez o máximo que poderia para evitar a propagação. Eu acho que foi isso que funcionou. No Brasil, a gente tem que ter esse senso de coletividade, esse sentimento de respeitar os outros. Eu acredito que a gente vê isso no resultado da Suíça”.

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