UE e China debatem comércio, investimentos e saúde em reunião virtual tensa

Dirigentes europeus e chineses participam hoje por videoconferência da 22ª cúpula China União Europeia.
Dirigentes europeus e chineses participam hoje por videoconferência da 22ª cúpula China União Europeia. AP - Yves Herman

Europeus e chineses se reuniram para uma cúpula virtual nesta segunda-feira (22) na tentativa de resolver diferenças. Inicialmente, o encontro visava a preparação para uma reunião extraordinária de seus líderes marcada para setembro, na Alemanha, mas que foi cancelada por conta da pandemia. A negociação de um acordo bilateral de proteção ao investimento, um dos assuntos em pauta, deve levar mais tempo.

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“A cooperação sino-europeia é mais importante do que a concorrência que possa existir entre os dois blocos, e Pequim quer aprofundar sua colaboração na busca de uma vacina contra a Covid-19”, disse o premiê chinês, Li Keqiang, na 22ª cúpula China-UE. “A China espera que os europeus possam relaxar barreiras alfandegárias contra produtos chineses”, completou.

O encontro por videoconferência entre autoridades europeias e chinesas começou às 10h (horário de Paris), com uma reunião entre Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia e o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. Uma segunda rodada de negociação inclui o presidente chinês, Xi Jinping. Entretanto, nenhuma declaração conjunta está planejada e os chineses "não se ofereceram para realizar uma coletiva de imprensa conjunta", disse uma autoridade europeia.

"A China atribui grande importância a esta reunião e está pronta para trabalhar com a UE para alcançar resultados positivos", afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian.

Pandemia acendeu alerta sobre dependência chinesa

A pandemia de Covid-19 trouxe novas preocupações para esse encontro. A escassez na Europa de suprimentos médicos, como máscaras e remédios, fabricados na China acendeu um alerta sobre a forte dependência da China nessa área, reanimando o debate sobre a realocação de cadeias de suprimentos. E não apenas no setor de saúde, mas também na indústria automotiva, de novas tecnologias e aeroespacial. Até países muito favoráveis ao livre comércio, como os Estados Unidos, agora querem endurecer as regras.

A Europa espera que a China tente aumentar a proteção a seus investimentos no acordo. "Caso contrário, estamos determinados a jogar outra carta, a de defender nossos interesses", alertou um alto funcionário europeu.

O desejo de assinar um acordo sobre a proteção de investimentos foi anunciado no ano passado, “mas não fizemos o progresso necessário", disse uma autoridade europeia. "Estamos chegando ao cerne da questão, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Teria de haver um ponto de virada por parte da China, e é isso que esperamos desta cúpula", completou a mesma fonte.

Desconfiança no ar

Os europeus estão preocupados com o crescente domínio de Pequim sobre Hong Kong, especialmente com o questionamento da autonomia do território e os ataques às liberdades fundamentais. A UE exigiu a libertação de vários defensores dos direitos humanos e denunciou as campanhas de desinformação orquestradas pela China na pandemia de Covid-19.

Os europeus também estão decepcionados com o pouco progresso observado na implementação por Pequim de seus compromissos com o clima, em particular a construção de novas usinas a carvão. A China é responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa. "Se a China não faz nada, é uma desculpa para os países que se recusam a se comprometer", alertou uma autoridade europeia.

Os chineses, por sua vez, estão preocupados com a nova legislação europeia sobre investimentos estrangeiros e o distanciamento da UE em relação a eles. Envolvida em um conflito comercial e político com Washington, a China busca apoio. Porém, os europeus não querem se envolver no jogo de tensões entre as duas potências. "A Europa não será o campo de batalha dos Estados Unidos e da China", afirmou o comissário europeu da Indústria, Thierry Breton, no domingo (21).

Washington havia feito um alerta aos europeus, antes da cúpula: "O Partido Comunista Chinês quer forçar vocês a escolherem" entre os Estados Unidos e a China, disse o ministro das Relações Exteriores dos EUA, Mike Pompeo.

Comércio bilionário

O comércio de mercadorias entre a China e a UE alcançou € 1,5 bilhão por dia em 2019, segundo dados da Comissão. "O relacionamento com a China é complexo e continuará sendo", disse o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell. “Ele deve ser baseado na confiança, transparência e reciprocidade", reiterou.

"A China espera que a UE crie um ambiente justo, imparcial e não discriminatório" para o investimento, disse o embaixador chinês na UE, Zang Ming.

"Precisamos continuar as negociações. Precisamos de um bom acordo e ainda não chegamos. Vamos levar o tempo necessário", respondeu a Comissão Europeia.

 

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