Elite científica exige investigação independente das falhas da Espanha na gestão da pandemia

O espanhol El País destaca a carta publicada por uma elite científica que pede uma análise da gestão espanhola da epidemia.
O espanhol El País destaca a carta publicada por uma elite científica que pede uma análise da gestão espanhola da epidemia. AP - Manu Fernandez

A elite científica exige um exame independente das falhas da Espanha na gestão da pandemia. O diário espanhol El País destaca nesta sexta-feira (7) uma carta publicada por 20 especialistas de renome na prestigiosa revista científica "The Lancet". No texto, eles se dizem preocupados com a situação no país, com recordes piores do que seus países vizinhos.

Publicidade

"A Covid-19 atingiu fortemente a Espanha, com mais de 300.000 casos, 28.498 mortes confirmadas e um excesso de cerca de 44.000 mortes, em 4 de agosto de 2020. Mais de 50.000 profissionais de saúde foram infectados, e quase 20.000 mortes ocorreram em casas de repouso".

Assim começa a carta publicada por 20 epidemiologistas espanhóis e especialistas em saúde pública na revista The Lancet. “Como é possível que a Espanha se encontre agora nesta situação?”questiona o grupo de especialistas, levando em conta que a saúde espanhola é vista como uma das melhores do mundo, de acordo com classificações internacionais. Os signatários da carta pedem uma investigação séria e independente que responda a esta pergunta, que muitos espanhóis se fazem.

O jornal acrescenta que a Espanha é o oitavo país do mundo com o maior número de mortes durante a pandemia, de acordo com o número oficial de 28.000 mortes. Segundo o jornal El País, esse número é de 45.000 mortes e colocaria a Espanha no nível do Reino Unido, em quinto lugar. Não é só isso: em relação à população, as 61 mortes espanholas por 100.000 habitantes estão acima de países como Itália, com 58, França, com 45, ou Portugal, com 16.

Além disso, houve diferenças muito importantes entre as regiões da Espanha, com Madri, Castilla-La Mancha e Catalunha com mais de 30.000 mortes em comparação com outras regiões em que o impacto da doença foi muito menor.

“Não se trata de uma busca partidária de censuras políticas, asseguram os signatários da carta, mas de uma análise necessária para entender o que aconteceu para evitar que a situação se repita: Agora é necessária uma avaliação abrangente dos sistemas de saúde e assistência social para preparar o país para novas ondas de Covid-19 ou pandemias futuras, identificando pontos fracos e fortes e lições aprendidas", diz a carta.

Entre eles estão Margarita del Val, virologista do Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa; Manuel Franco, pesquisador da Johns Hopkins University, dos Estados Unidos; Daniel Prieto-Alhambra, farmacoepidemiologista da Universidade de Oxford, no Reino Unido; Rafael Bengoa, assessor de reforma da saúde do governo Obama; Carmen Borrell, gerente da Agência de Saúde Pública de Barcelona e Carles Muntaner, professor de Saúde Pública da Universidade de Toronto, no Canadá.

"Precisamos nos preparar melhor para o futuro"

“É importante que saibamos o que aconteceu, agora que a situação não está tão difícil como no início, principalmente para estarmos prontos para uma possível segunda onda no outono”, justifica Helena Legido-Quigley, promotora da carta e doutora em saúde pública pela London School of Hygiene and Tropical Medicine.

"Seria muito bom para a Espanha fazer isso, porque, no momento, as coisas continuam controladas por algumas administrações e precisamos nos preparar melhor para o futuro", diz Legido-Quigley, que fez a carta circular entre seus colegas assim que teve notícias de que a OMS pretendia fazer sua própria revisão do que aconteceu e quais erros ou omissões deveriam ser corrigidos.

O premiê Boris Johnson se comprometeu a fazer o mesmo no Reino Unido, e, a Suécia, outro país cuja abordagem tem sido fortemente contestada, também avaliará de forma independente sua administração.

“Solicitamos uma avaliação independente e imparcial de um painel de especialistas internacionais e nacionais, com foco nas atividades do governo central e dos governos das 17 comunidades autônomas”, afirmam no texto.

Como explica Legido-Quigley, é “muito importante que a análise não seja politizada”, pois seria um trabalho confiado a especialistas nacionais e internacionais de grande prestígio em pandemias, que podem realizar um “estudo independente, imparcial e sem conflitos de interesses”.

Para evitar este viés politizado, as 20 pessoas que assinam a carta correspondem a diferentes "sensibilidades", esclarece Legido-Quigley, ou têm colaborado em administrações de diferentes signos políticos, tanto na Espanha como em outros países.

O normal seria ter uma equipe dedicada a coletar todos os dados e documentação exigidos pelos especialistas, que assim poderiam fazer uma revisão quantitativa e qualitativa da gestão espanhola da epidemia, de acordo com Legido-Quigley, que também realiza pesquisas na Universidade de Cingapura.

Por exemplo, os especialistas poderiam entrevistar de forma anônima e confidencial todos os envolvidos nos diferentes níveis de gestão da pandemia, nos governos central e regional, a fim de extrair essas avaliações qualitativas.

O grupo de especialistas pede que essa análise exame não seja concebida como um instrumento para distribuir culpas, mas para identificar as áreas em que o sistema de saúde deve ser melhorado.

A avaliação, de acordo com esse grupo de cientistas, deve incluir três áreas de ação em que se concentrar: governança e tomada de decisão, aconselhamento científico e técnico, e capacidade operacional. Além disso, devem ser consideradas as “circunstâncias sociais e econômicas que contribuíram para tornar a Espanha mais vulnerável, incluindo as crescentes desigualdades”.

Essa avaliação pode levar a uma melhor preparação para uma pandemia, prevenir mortes prematuras e construir um sistema de saúde resiliente, com evidências científicas em sua essência.

Possíveis explicações

As possíveis explicações, informa o texto, apontam para uma falta de preparação para uma pandemia (sistemas de vigilância fracos, baixa capacidade para testes e falta de equipamento de proteção individual), uma reação tardia por parte das autoridades centrais e regionais e lentidão nos processos de tomada de decisão.

Eles também citam os altos níveis de mobilidade populacional, falta de coordenação entre autoridades, pouca dependência de aconselhamento científico, envelhecimento da população, grupos vulneráveis ​​que vivenciam desigualdades sociais e de saúde e falta de preparação em asilos.

"Esses problemas foram exacerbados pelos efeitos de uma década de austeridade que esgotou a força de trabalho em saúde e reduziu as capacidades do sistema de saúde", acrescentam os signatários. Avaliar e pesar tudo isso, no entanto, seria tarefa do grupo independente para examinar em detalhes o que aconteceu na Espanha antes e depois daquele dia de março em que foi declarado o estado de emergência.

Os erros continuaram a ser cometidos, acredita Legido-Quigley, quando muitas regiões que "ainda não tinham capacidade" para responder a possíveis surtos puderam entrar na segunda fase, como ficou provado mais tarde.

Por tudo isto, o grupo de especialistas conclui que o governo de Pedro Sánchez deve agora tomar a decisão de encomendar este exame independente: “Encorajamos o governo espanhol a considerar esta avaliação como uma oportunidade que pode conduzir a uma melhor preparação para uma pandemia, prevenir mortes prematuras e construção de um sistema de saúde resiliente, com evidências científicas em seu âmago”.

 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.