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“Brasileiras não se calam”: vítimas de assédio e xenofobia em Portugal denunciam abusos pelas redes sociais

Áudio 08:43
Os perfis do “Brasileiras não se calam” evoluíram para um site completo, com campo para compartilhamento de depoimentos e ofertas de voluntariado. O objetivo é criar uma rede de apoio em diversos setores para brasileiras expatriadas.
Os perfis do “Brasileiras não se calam” evoluíram para um site completo, com campo para compartilhamento de depoimentos e ofertas de voluntariado. O objetivo é criar uma rede de apoio em diversos setores para brasileiras expatriadas. © Image par Brij Vaghasiya de Pixabay

Um grupo de mulheres brasileiras residentes em Portugal resolveu dar voz a centenas de outras conterrâneas que também vivem no país. No projeto “Brasileiras não se calam”, as vítimas relatam situações de assédio e xenofobia que já enfrentaram e querem ajudar a acabar com os estereótipos que ainda recaem sobre a mulher brasileira no exterior.

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Caroline Ribeiro, correspondente em Lisboa

Era um jantar em família para celebrar o aniversário da sogra. Alice* estendia a mão sobre a mesa para pegar a salada quando sentiu alguém segurar o braço dela.

“O tio do meu marido simplesmente morde meu braço, com tanta força que eu cheguei a ficar com o braço roxo. Ele vira pra mim e diz: ‘és boa!’. Fiquei sem reação, travei. Muita gente pergunta ‘e o marido?’. Ele não estava perto nessa hora", conta Alice à RFI Brasil. "Como é que uma pessoa me morde com força e o que a faz pensar que ela podia fazer isso comigo, se nunca dei intimidade?”

O depoimento é apenas um entre centenas que já estão publicados nos perfis nas redes sociais do projeto “Brasileiras não se calam”. Em pouco mais de um mês de existência, a iniciativa já conta com mais de 21 mil seguidores no Instagram e vem sendo destaque na imprensa portuguesa.

A ideia nasceu depois de situações explícitas de discriminação contra a mulher brasileira em rede nacional. Durante uma conversa em grupo no programa Big Brother Portugal, sobre mulheres em geral, uma confinada soltou: “a brasileira já nasce com a perna aberta, é assim a vida”. Antes disso, uma outra confinada já tinha se referido diretamente ao comportamento da participante do Brasil, Ana Catharina, com o mesmo tipo de comentário: “como é possível depois de dois dias abrir as pernas?”.

“Depois desse caso, a gente realmente achou que era uma coisa que tinha que ser falada, porque acaba sendo muito normalizado pela população, a ponto de uma pessoa se sentir confortável para falar esse tipo de coisa em um programa, sabendo que iam ter outras pessoas escutando. Não pode continuar do jeito que está, principalmente em Portugal, que tem uma comunidade tão grande de brasileiros”, diz Maria*, uma das criadoras do projeto.

“Isso sempre incomodou, só que a gente foi normalizando, porque a gente vai para um país estrangeiro, muitas vezes não quer nenhum tipo de envolvimento com a justiça, tenta minimizar, dizer que é besteira, e não temos espaço para comentar nem com as amigas”, complementa Maria.

Foi o medo de denunciar formalmente que fez com que Paula* deixasse de lado a agressão física que sofreu junto com outras amigas. A jovem estava no miradouro de Santa Catarina, um famoso ponto turístico de Lisboa, quando o grupo começou a ser incomodado por um homem.

“Um cara vinha passando e falando um monte de besteira, olhando para minha amiga, ‘nossa, que gostosa’. Aí eu falei para os nossos amigos, que estavam em pé, ‘gente, fica mais pra cá, que esse cara tá passando aqui toda hora incomodando a gente’. Aí esse cara ouviu. Ele veio numa raiva pra cima de mim falando ‘sou eu que mando nessa porra, te dou um soco agora’. Aí eu disse: ‘estou falando com meus amigos, que você está incomodando’. Ele ficou mais ofendido ainda e me deu um chute. Fiquei com um machucado em que sinto dor até hoje”, conta Paula à RFI Brasil.

Depois de muita confusão, o grupo da jovem conseguiu dispersar o do agressor, que deixou o local. “A gente ficou sem saber o que fazer, porque ele ameaçou nossos amigos e a gente não quis ir na delegacia com medo do que pudesse acontecer. Mas depois vi um carro de polícia e fui, muito nervosa, falar o que aconteceu. Disseram que não podiam fazer nada, porque o cara não estava mais lá.”

No entanto, o medo de denunciar pode estar, aos poucos, sendo superado. Dados da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, braço do Alto Comissariado para as Migrações do governo português, mostram que houve aumento de 26% no número de denúncias feitas em 2019, em comparação com 2018 – uma tendência que vem se mantendo pelos últimos seis anos.

Ainda de acordo com a Comissão, 17% dos denunciantes dizem terem sido discriminados por serem de nacionalidade brasileira. É o terceiro fator no ranking, atrás apenas das vítimas de etnia cigana e das de pele negra.

No caso específico das mulheres brasileiras, tanto as criadoras do projeto quanto as vítimas que compartilham os depoimentos acreditam que os estereótipos, para além dos que recaem em geral sobre a comunidade imigrante do Brasil, estão longe de ser extintos. “Pelo contrário, eu acho que, de uns tempos pra cá, as coisas estão só aumentando. Desde quando você precisa de um atendimento médico, até um sorriso que você dá para uma criança em um supermercado. Inconscientemente estou criando uma barreira, me anulando, para não passar por esse tipo de situação. Quando preciso procurar um médico, já fico ansiosa”, conta Alice.

No ano passado, ela precisou operar um dos joelhos. No momento da preparação, ouviu do anestesista algo que não estava relacionado ao procedimento: “você vai ter que ficar três meses sem sexo”. “O que faz uma pessoa tomar esse tipo de liberdade?”, questiona Alice.

Residente em Portugal há 11 anos, ela conta que só hoje, depois de começar a fazer terapia, tem conseguido “falar sem chorar” sobre as situações que já enfrentou. “Quando você vai percebendo que aquilo está no seu cotidiano, você entra em choque e não consegue reagir. Foram inúmeras situações ao longo desses anos que eu passei. São feridas abertas na minha vida, e através do perfil foi a primeira vez que eu senti que eu tenho voz.”

Depois de receber tantos relatos, que começaram a chegar até de fora de Portugal, os perfis do “Brasileiras não se calam” evoluíram para um site completo, com campo para compartilhamento de depoimentos e ofertas de ajuda. O objetivo é criar uma rede de apoio em diversos setores para brasileiras expatriadas.

“No começo, como a página era voltada para as denúncias, surgiu a questão do apoio jurídico. Depois a gente foi vendo também que tinham muitas mulheres fragilizadas, com ansiedade, crise de pânico, depressão, e aí veio a questão do apoio psicológico também. Muitas que acabaram perdendo o emprego por causa de assédio, ou até nem conseguiram por causa do sotaque, e essa foi outra demanda que nós vimos. Então vamos tentar divulgar essas profissionais”, conta a fundadora Maria.

*Os nomes foram alterados para preservar as identidades das entrevistadas. Desde o início do projeto, os perfis “Brasileiras não se calam” recebem, diariamente, comentários discriminatórios, alguns ameaçadores, que estão sendo encaminhados para a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e denunciados às próprias redes sociais

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