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Fatores ambientais, culturais e experiência com outras epidemias ajudaram África e Ásia na luta contra Covid-19, diz cientista

A vida praticamente voltou ao normal em Wuhan, na China, onde o novo coronavírus surgiu pela primeira vez em dezembro de 2019.
A vida praticamente voltou ao normal em Wuhan, na China, onde o novo coronavírus surgiu pela primeira vez em dezembro de 2019. AFP
Texto por: RFI
4 min

A Europa enfrenta a segunda onda do coronavírus, e diversos países estão reforçando as medidas de restrição. A situação na China está sob controle. A RFI entrevistou o médico virologista Christian Bréchot, presidente da Global Virus Network, que reúne cientistas do mundo inteiro, e ex-presidente do Instituto Pasteur, para analisar as diferenças entre a Europa e a Ásia nas medidas de contenção do vírus.

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"É muito avassaladora a diferença entre os continentes. Nossa rede é formada por virologistas e cientista do mundo inteiro, que colocam suas competências em comum, colaboram para lutar contra o vírus e analisam o fenômeno. Primeiro, sendo humilde e honesto, eu tenho que dizer que a gente não entende tudo e há coisas que não explicamos", diz o médico.

Para ele, a explicação para o fato de a segunda onda atingir atualmente mais a Europa que a Ásia é multifatorial. "Há claramente diferenças culturais entre a Ásia e a Europa: lá, o uso de máscara existe há muito tempo, são populações que já são traumatizadas pelo primeiro SARS, em 2003/2004, e por epidemias severas de gripe, mas isso não explica tudo", enumera o pesquisador, completando que na Ásia há, em geral, "um senso cívico mais desenvolvido".

Ele lembra também da África, que foi menos atingida pela Covid-19 que a Europa e a América do Norte. "Há fatores climáticos que contam. Nós não temos todas as explicações, mas é claro que o frio favoriza a propagação do vírus e, inversamente, o calor, e sobretudo a umidade, diminuem a sua difusão, mas isso não é o único fator".

Para o cientista, o fato de ter lidado recentemente com outras epidemias, fez a África reagir de forma mais imediata. 

"A África é heterogênea, mas a maioria dos países tomaram medidas de forma rápida e é claro que os antecedentes de Ebola e Zika e outras epidemias favoreceram a preparação e a reatividades nestes países. No fundo, há uma mistura de fatores ambientais, entre eles o climático, culturais e de fatores ligados às medidas tomadas nas epidemias anteriores", analisa.

Liberdades individuais

Bréchot destaca também que claramente não há, na Ásia e na Europa, o mesmo peso dado às liberdades individuais.

"É terrível o que eu vou dizer, mas o fato de a China ter um regime autoritário faz com que país seja muito mais eficaz em situação de epidemia. Quando a China toma medidas para isolar completamente uma cidade como Wuhan, como aconteceu no início de 2020, são coisas que a gente não pode fazer nem pode aceitar em países da Europa."

Mas é interessante notar, diz Bréchot, que, dentro da própria Europa, há diferenças. "Veja o caso da Itália, que é nossa vizinha e muito próxima culturalmente, mas tem uma relação com a saúde que é diferente da dos franceses: os italianos respeitam mais as medidas de proteção da saúde, e isso explica por que a Itália tem se saído melhor que a França na aceitação de medidas bastante duras para a contenção da Covid-19 nesta segunda onda".

É claro, lembra o pesquisador, que o trauma do que aconteceu na primeira onda, quando especialmente o norte da Itália sofreu muito, tem um papel forte nesta aceitação das medidas de restrição.

“O que eu acho muito triste em relação à França é que nós também fomos muito atingidos na primeira onda, em março e abril, com muitas mortes, muitos casos graves, que deixaram sequelas. A gente pagou um preço altíssimo, fomos atingidos de maneira muito dura, e, no entanto, entre junho e agosto [no verão europeu] nós deixamos escapar [os cuidados, a proteção] e agora nos encontramos novamente em uma situação muito dura", lamenta o médico.

 

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