Manifestantes enfrentam mau tempo na França para protestar contra lei de segurança global

Manifestantes na Praça da Bastilha, em Paris. Em 16 de janeiro de 2021.
Manifestantes na Praça da Bastilha, em Paris. Em 16 de janeiro de 2021. REUTERS - GONZALO FUENTES
Texto por: RFI
4 min

Opositores do projeto de lei que penaliza a divulgação de imagens de policiais em ação saíram novamente às ruas em Paris e em várias cidades neste sábado (16) para lutar “pelo direito à informação, contra a violência policial, pela liberdade de manifestação e contra a vigilância em massa”.

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Cerca de 80 eventos estavam programados em todo o país. Os manifestantes enfrentaram um clima hostil, num fim de semana em que 32 departamentos franceses estão em vigilância por causa da neve e do gelo.

Na capital, uma passeata reuniu milhares de pessoas que marcharam sob chuva e neve em direção à Praça da Bastilha. Eles caminhavam atrás de uma faixa com uma mensagem exigindo a retirada do projeto de lei, que ainda deverá ser votado. "Polícia em toda parte, justiça em lugar nenhum" gritavam os participantes, acrescentando que não seriam impedidos de se manifestar.

A polícia interveio para impedir a realização de uma festa rave não autorizada perto do local do evento. Os organizadores foram multados e tiveram equipamentos de som confiscados.

Somos todos organizadores de raves

Em várias cidades, houve cortejos contra a "repressão desproporcional" da polícia, de acordo com os participantes, especialmente após a rave de Lieuron (Ille-et-Vilaine) que reuniu 2.400 pessoas para o Ano Novo. Os protestos reuniram um grupo numeroso de manifestantes em Nantes, onde eles carregavam faixas com os dizeres "somos todos organizadores de raves" ou "Estado assassino: vidas, culturas, liberdades".

Em todo o país, os protestos reuniram 34.000 pessoas, de acordo com a polícia; 200.000, segundo os organizadores. Em Lille, o desfile aconteceu sob forte nevasca. Lucile Fremaux, supervisora ​​escolar que participava da marcha, disse que “com um ambiente sensível e as leis que o governo cria, a situação torna-se insuportável”.

Thimotée Carpentier, educadora, destacou que há “cada vez mais controle sobre as pessoas, não apenas sobre os delinquentes”. “Estou protestando contra esse regime que se mostra cada vez mais radical. É uma ditadura e a gente se pergunta: onde vamos parar com esta lei de segurança?”.

“Se este é o país dos direitos humanos e da liberdade, eu tenho vergonha de ser francês!”, lamentou François, que usava um colete amarelo durante a manifestação parisiense.

As “marchas pela liberdade” acontecem a pedido da coordenação de associações e sindicatos mobilizados contra o projeto de lei que restringe a divulgação de imagens da polícia. O texto é extremamente criticado pela oposição e por jornalistas, que acreditam que a medida é um ataque direto à liberdade de imprensa. Já ativistas dos direitos humanos afirmam que o artigo 24 pode resultar na banalização de violências policiais durante manifestações, como já vem ocorrendo nos últimos anos. 

Votação em março

Já aprovado em primeira instância na Assembleia Nacional, o projeto deve ser apreciado no Senado, em março. “Ele trata do próprio respeito pelo Estado de direito” e o controle das autoridades “pelos cidadãos, Parlamento, justiça e imprensa”, sublinham as associações que organizam as marchas, acrescentando que “medidas de vigilância da população devem permanecer a exceção”.

Os manifestantes também visam os artigos 21 e 22 do texto sobre o uso de câmeras de pedestres e drones por parte da polícia, e o "novo plano nacional para a manutenção da ordem "(SNMO), regularmente invocado pela polícia para limitar a cobertura midiática das manifestações.

O projeto foi fortemente criticado na França pela Defensoria dos Direitos Humanos e pela Comissão Consultiva Nacional de Direitos Humanos, e no exterior por relatores especiais das Nações Unidas e pelo Comissário de Direitos Humanos do Conselho Europeu.

A mobilização contra a proposta de lei de segurança global, iniciada em 17 de novembro, já deu origem a vários dias de manifestações, muitas vezes acompanhadas de protestos dos "coletes amarelos". A maior delas ocorreu em 28 de novembro e reuniu 500 mil pessoas em todo o país, de acordo com números fornecidos pelos manifestantes, 133 mil na contagem do governo.

 

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