OMS busca entender síndrome pós-Covid, que atinge pacientes sem formas graves

O hospital parisiense Foch criou um setor para tratar pacientes com sintomas duradouros da Covid
O hospital parisiense Foch criou um setor para tratar pacientes com sintomas duradouros da Covid © The Feinstein Institutes for Medical Research
Texto por: RFI
4 min

A doença é observada em pessoas contaminadas pelo SARS-Cov-2 que não foram hospitalizadas ou tiveram sequelas orgânicas detectáveis em exames. Isso não as impede, entretanto, de terem sintomas que comprometem o cotidiano há meses, como cansaço ou sensação de falta de ar. Outros pacientes com formas moderadas desenvolveram patologias potencialmente graves.

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Um ano após o aparecimento do vírus que já matou mais de 2,2 milhões de pessoas no mundo, o foco agora está nas campanhas de vacinação, variantes do vírus e tratamento das formas graves nos hospitais.

A "Covid longa", porém, também merece atenção urgente da comunidade científica, disse Janet Diaz, chefe da equipe clínica responsável pela resposta ao coronavírus, em entrevista na sede da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra. Ela pediu que sejam realizados mais estudos para entender as patologias descritas pelos pacientes, que podem durar vários meses.

"Ainda não sabemos realmente o que é a Covid longa", afirmou Diaz, que pediu um esforço unificado em escala global.

Alguns estudos começam a apresentar pistas, mas ainda não se sabe por que certas pessoas apresentam sequelas duradouras, como fadiga extrema, dificuldades respiratórias ou, às vezes, problemas neurológicos e cardíacos graves. "Ainda há muito a aprender, mas estou confiante na mobilização da comunidade científica", afirma Diaz.

Um exemplo da falta de informação é que a chamada "Covid longa" ainda não tem um nome. A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, identifica o mal como síndrome pós-Covid ou Covid-19 de longa duração em um documento recente sobre suas novas recomendações.

A OMS organizará no dia 9 de fevereiro o primeiro seminário virtual dedicado ao tema, com a participação de médicos clínicos, pesquisadores e especialistas. O objetivo é encontrar uma definição da doença, dar um nome formal e harmonizar os métodos para estudá-la.

"É uma patologia que precisa ser melhor descrita. Precisamos saber quantas pessoas são afetadas e as suas causas devem ser compreendidas, para que possamos melhorar a prevenção, o manejo e as formas de curá-la", destaca a representante da organização. Os estudos disponíveis mostram que cerca de 10% dos doentes apresentam sintomas um mês após a infecção e, até o momento, os médicos não sabem quanto tempo eles podem durar ou se podem retornar, o que também acontece.

Jovens saudáveis

O que intriga os especialistas é o perfil dos pacientes, que não são idosos e não têm fatores agravantes. A Covid a longo prazo afeta as pessoas que adoeceram em vários graus "e também inclui os jovens", explica Diaz. Esta é a prova, diz, que a doença não é apenas uma simples gripe, como afirmam os negacionistas da pandemia. É também um argumento contra aqueles que apoiam o isolamento apenas de pessoas frágeis, e acreditam que podem pegar a doença sem correr maiores riscos.

Segundo a representante da OMS, o sintoma mais comum é o cansaço, mas existem muitos outros: exaustão após esforço físico ou doença, dificuldade em pensar com clareza, respiração curta, palpitações cardíacas e problemas neurológicos.

"O que não se entende é como todas essas coisas estão ligadas. Por que alguém tem uma coisa e outra pessoa tem outra?", questiona a médica, destacando que os pesquisadores devem entender os mecanismos da doença que causam esses sintomas. "Isso é devido ao vírus? À resposta imunológica? Se soubéssemos mais poderíamos começar a identificar algumas intervenções para reduzir os sintomas", afirma, dizendo que muitas pesquisas estão sendo feitas.   

O seminário de 9 de fevereiro será o primeiro de uma série de reuniões. "No momento, provavelmente temos dados suficientes para começar a juntar as peças do quebra-cabeça", estima Diaz. Além de uma definição precisa e um nome, o seminário também deve permitir o estabelecimento de regras para a coleta de dados de controle de pacientes com o objetivo de buscar alívio e cura para seus males. "As pessoas às vezes apresentam sintomas por muito tempo, mas sabemos que se curam", afirma, e conclui: "Estamos com vocês".

(Com informações da AFP)

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