Irritados com demora na vacinação, países europeus fazem corrida fora da UE por novas vacinas

O jornal Libération desta quarta (2) destaca a falta de unidade na estratégia de vacinação dos países europeus.
O jornal Libération desta quarta (2) destaca a falta de unidade na estratégia de vacinação dos países europeus. © Reprodução

Os jornais franceses desta quarta-feira (3) destacam o desmoronamento da estratégia da União Europeia de comprar e dividir as vacinas entre todos os países do bloco. Enquanto o Reino Unido já aplicou a primeira dose em quase um terço da sua população, nos países europeus esta taxa está em torno dos 7%. A lentidão da aprovação de novas vacinas e as novas ondas de Covid-19 provocaram uma corrida de alguns países para comprar outros imunizantes, mesmo sem aprovação da União Europeia.

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"A Hungria, a República Tcheca, a Eslováquia e a Polônia compraram vacinas russas e chinesas. A Áustria e a Dinamarca vão fazer uma cooperação com Israel para produzir vacinas de "segunda geração", lista o diário Libération. "A União Europeia parece mais desunida do que nunca, apesar das reuniões que deveriam garantir alguma coordenação", afirma.

"É uma nova fissura na unidade europeia diante da crise sanitária", avalia o jornal econômico Les Echos.

Em junho de 2020, a União Europeia decidiu fechar a compra conjunta de vacinas para todo o bloco econômico e a redivisão das doses para os países conforme sua população. O objetivo era garantir imunizantes tanto para os países mais pobres quanto para os mais ricos do bloco. O plano parecia bom, mas com o atraso na entrega das vacinas, o aumento de casos com a chegada de novas variantes do coronavírus e a rapidez com que países como o Reino Unido e Israel vacinavam sua população, a aliança se quebrou.

O primeiro a quebrar o pacto foi o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, "que não podia perder uma oportunidade de desafiar a UE", analisa a editorialista do Le Monde Sylvie Kauffman. A Hungria recebeu vacinas russas e chinesas não licenciadas pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA). Até Orbán foi imunizado com uma vacina chinesa, em vez de receber uma dose da AstraZeneca ou da Pfizer-BioNtech, entregues pela UE à Hungria. 

Mas a busca por vacinas fora do acordo europeu se repetiu em outros vizinhos, como a Eslováquia e a República Tcheca. Apesar de alinhados à Europa, os dois países compraram doses da Sputnik V, imunizante russo que nem pediu ainda autorização à agência europeia. 

"É compreensível a ação de um país como a República Tcheca, particularmente afetado pela nova onda da epidemia. O primeiro-ministro, Andrej Babis, tinha praticamente lágrimas nos olhos durante o Conselho Europeu da última quinta-feira (25) enquanto descrevia a situação no seu país", contou um diplomata europeu ao jornal Libération.

A França conta dar uma parte de suas doses, 200 mil vacinas, à Eslováquia e à República Tcheca, mas ainda é muito pouco.

Para não depender da Europa

Na terça, um novo golpe na aliança da União Europeia foi dado pela Áustria e pela Dinamarca. O primeiro-ministro austriaco, Sebastian Kurz, anunciou um projeto de cooperação dos dois países com Israel para desenvolver vacinas anti-Covid resistentes às novas mutações do vírus.

O austríaco disse não querer depender unicamente da União Europeia por conta da lentidão da Agência sanitária europeia. De acordo com a reportagem do Les Echos, a decisão não foi vista com bom olhos em Bruxelas, sede da Comissão Europeia. "O problema da Europa é o de reforçar a produção de vacina. Não é com Israel que vamos resolver isso", disse uma fonte da Comissão ao jornal.

Ainda segundo a reportagem, a agência europeia deve começar a dar autorizações emergenciais a vacinas futuras como uma forma de agilizar o processo. "Esta decisão marca uma virada na estratégia da regulação de medicamentes; a autorização de emergência implica um procedimento considerado arriscado e que era apenas usado excepcionalmente no nível nacional para tratamentos de doenças em fase terminal", afirma o jornal.

A editorialista do Le Monde classifica a estratégia como um fiasco gigante da União Europeia em termos de soft power. Para Sylvie Kauffmann, a "implementação não esteve à altura do projeto".

"A Europa perdeu uma grande oportunidade de promover seu modelo em sua vizinhança. Ofereceu uma avenida para a Rússia e a China. A Europa, seu modelo social, sua ciência e seus valores não têm aparecido", avalia. "Que pena", finaliza.

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