Morre o príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth II, aos 99 anos

O príncipe Philip de Edimburgo, que faleceu nesta sexta-feira (9) aos 99 anos
O príncipe Philip de Edimburgo, que faleceu nesta sexta-feira (9) aos 99 anos REUTERS - POOL New

As bandeiras estão a meio mastro no Palácio de Buckingham, em Londres, em sinal de luto pela morte do príncipe Philip de Edimburgo, nesta sexta-feira (9), aos 99 anos. Uma das figuras mais emblemáticas da realeza britânica sai de cena, após mais de seis décadas como coadjuvante, ao lado da rainha Elizabeth II, a quem sempre demostrou grande lealdade.

Publicidade

"É com profundo pesar que Sua Majestade, a rainha, anuncia a morte de seu amado marido, Sua Alteza Real, o príncipe Philip, duque de Edimburgo", diz o comunicado oficial, emitido três semanas depois de ele ter passado um mês no hospital para tratamento de uma infecção e, em seguida, um problema cardíaco. "Sua Alteza Real faleceu em paz esta manhã no castelo de Windsor. Outros anúncios serão feitos no momento oportuno. A Família Real se une às pessoas em todo o mundo em tristeza por sua morte", completa o comunicado à imprensa emitido pelo Palácio.

Pouco inclinada a demonstrações de afeto em público, a rainha não poupou elogios ao marido. "É minha rocha. Tem sido minha força e minha âncora", declarou ela, em 2011. Enquanto a monarca ostenta o recorde de longevidade no trono, Philip foi o príncipe consorte que mais tempo ocupou essa posição, ao superar, em 2009, Charlotte, a esposa de George III.

Reações internacionais

Imediatamente após o anúncio da morte do príncipe, as reações começaram a chegar.  O príncipe Philip "incorporou uma geração", disse o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison.

O primeiro-ministro Boris Johnson elogiou a vida e a obra "extraordinárias" do Príncipe Philip.

"O príncipe era um homem de convicção e princípios", reagiu, por sua vez, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, externou "profundas condolências a Sua Majestade, rainha Elizabeth, ao príncipe Charles, à Família Real e ao povo do Reino Unido pelo falecimento do duque de Edimburgo. O príncipe Philip foi um servidor público dedicado e fará muita falta em Israel e em todo o mundo", escreveu em sua conta no Twitter.

Depois de ter participado de mais de 22.000 atos oficiais, Philip estava afastado das atividades públicas desde 2017. "Sinto que fiz a minha parte. Agora quero me divertir um pouco," declarou ele à BBC.

Para observadores, contudo, apesar da seriedade com que encarnava seu papel de consorte, o seu maior valor foi ter sido "o único homem do mundo a tratar a rainha como um ser humano, de igual para igual", afirmou, certa vez, lorde Charteris, ex-secretário particular de Sua Majestade.

Philip assumiu seu papel secundário no reinado para os momentos bons e ruins. Ele mesmo admitia que havia passado muitos anos aprendendo a encontrar o seu lugar à sombra da rainha e no coração dos britânicos. Ao fim da vida, o príncipe conseguiu um alto índice de popularidade, assim como a sua esposa, apesar de algumas gafes.

Bom humor e constrangimento

Em janeiro de 2019, por exemplo, um acidente de trânsito revelou que ele ainda dirigia, aos 97 anos. Apesar das críticas, o príncipe voltou ao volante dois dias depois e sem o cinto de segurança. Porém, três semanas mais tarde, cedendo à pressão, acabou entregando a carteira de motorista.

Para uma tribo de Vanuatu, na Oceania, Philip era motivo de veneração, como uma divindade ligada aos espíritos do vulcão Yasur. Mas nem por isso perdia a chance de provocar risadas. "Você conseguiu que não a comessem?", perguntou ele a uma jovem britânica que tinha viajado a Papua-Nova Guiné, em 1998.

Na Austrália, em 1960, foi abordado por um homem chamado Robinson, que lhe confessou: "minha esposa, doutora em Filosofia, é muito mais importante que eu". "Temos o mesmo problema em minha família", respondeu o duque.

Em outra oportunidade, um menino afirmou que desejava ser astronauta e Philip rebateu que ele estava muito gordo para voar.

Ao ser questionado se desejava visitar a União Soviética, respondeu: "adoraria visitar a Rússia, mas esses caras assassinaram metade da minha família", afirmou, em referência ao destino dos Romanov.

"As pessoas têm a impressão de que príncipe Philip não se importa em nada com o que pensam dele, e têm razão", escreveu o ex-primeiro-ministro Tony Blair em suas memórias.

"Duvido muito de toda tentativa deliberada de criar uma imagem porque acho que ela pode ser facilmente desmascarada," disse Philip em uma entrevista à Thames TV, em 1984.

Philip recebia pouco reconhecimento público por seus esforços. Em parte, isso se devia ao seu relacionamento difícil com a imprensa, a quem rotulou de “répteis sangrentos” e cuja cobertura se concentrava em suas gafes, descreve o jornal The Guardian. Certa vez, ele disse ao ex-parlamentar conservador e biógrafo Gyles Brandreth: “Eu me tornei uma caricatura. Aqui estamos. Eu apenas tenho que aceitar isso”.

Infância difícil

De ascendência alemã, o duque nasceu príncipe da Grécia e da Dinamarca, em 10 de junho de 1921, na ilha grega de Corfu. Era o quinto filho de Alice de Battenberg e Andrew da Grécia. A família fugiu quando ele tinha apenas 18 meses, após a proclamação da república grega, buscando refúgio em Paris.

O pai era frequentador dos cassinos de Monte Carlo. A mãe, depressiva, entrou para um convento. Philip tinha 10 anos. Deixado com parentes distantes, estudou em colégios na França, Alemanha e Grã-Bretanha, até ser enviado para um austero internato escocês.

"Nós falávamos inglês em casa. Os outros estavam aprendendo grego. Eu conseguia entender uma parte. Mas então [a conversa] mudou para o francês. E depois para o alemão," declarou Philip ao jornal The Independent, em 1992.

"Se uma palavra não vinha em um idioma, você tendia a usar outro," declarou ele, sobre a infância em diversas línguas.

Philip ingressou na Marinha Real britânica e participou ativamente nos combates durante a Segunda Guerra Mundial no Oceano Índico e no Atlântico. “Parece-me que foi de grande ajuda para a rainha, quando ela finalmente se tornou rainha, ter alguém que fosse, de certo modo, profissionalmente qualificado em alguma coisa e que não se contentasse apenas em passear”, disse ele à BBC, em 2011.

Em outra entrevista, Philip também falou sobre a interrupção de sua carreira na Marinha, após a ascensão ao trono da Rainha Elizabeth II, em 1952. "Fiquei obviamente desapontado porque tinha acabado de ser promovido a capitão. Na verdade, a parte mais interessante da minha carreira naval estava apenas começando," afirmou. "Mas, pensando bem, sendo casado com a rainha, parecia-me que meu dever principal era servi-la da melhor maneira possível," disse ele à rede ITV, em 2011.

Casamento real

Philip era um jovem de 18 anos quando conheceu Elizabeth, antes da guerra. Lilibeth, como ela era chamada pela mãe, tinha 13 anos e logo se apaixonou. Os dois se casaram oito anos mais tarde, em 20 de novembro de 1947.

Nomeado duque de Edimburgo, Philip teve de renunciar aos títulos de nobreza anteriores e à religião ortodoxa, convertendo-se à Igreja Anglicana.

Em fevereiro de 1952, a morte prematura de seu sogro, o então rei George VI, marcou o fim de sua carreira de oficial na Marinha, dando início ao período como príncipe consorte.

"A principal lição que aprendemos é que a tolerância é um ingrediente essencial em qualquer casamento feliz”, afirmou o príncipe ao comemorar 50 anos de união, em 1997. “Isso até pode não parecer tão importante quando as coisas estão indo bem, mas é crucial quando as coisas dão errado. E você pode acreditar que a rainha possui essa qualidade da tolerância em abundância”, completou.

Após a sua última hospitalização, o príncipe Philip voltou para Windsor, a oeste de Londres, onde observou o período de lockdown ao lado da esposa, de 94 anos. Philip de Edimburgo completaria 100 anos em junho.  

(Com informações da AFP)

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.