Polêmico livro escrito por Hitler, ‘Mein Kampf’ retorna às livrarias francesas em edição 'crítica'

Foto de arquivo de 11 de dezembro de 2015, mostrando diferentes edições de "Mein Kampf" de Adolf Hitler no Instituto de História Contemporânea de Munique.
Foto de arquivo de 11 de dezembro de 2015, mostrando diferentes edições de "Mein Kampf" de Adolf Hitler no Instituto de História Contemporânea de Munique. AP - Matthias Balk

A editora francesa Fayard anunciou a publicação em 2 de junho de sua "edição crítica" de "Mein Kampf", o manifesto da ideologia racista e antissemita que embasou o nazismo de Adolf Hitler. Os benefícios econômicos obtidos com a venda do texto serão doados à Fundação Auschwitz-Birkenau.

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As livrarias francesas receberam na última segunda-feira (17) um e-mail da renomada editora francesa Fayard explicando o contexto da publicação, no dia 2 de junho, de "Mein Kampf" ("Minha Luta"), de Adolf Hitler. A distribuição do livro, diz o email enviado, será feita apenas para as livrarias que o solicitarem.

Com o título "Historicizar o mal", a edição crítica de "Mein Kampf" custará € 100 (R$ 645,00). A editora afirma que “a Fundação Auschwitz-Birkenau, encarregada de preservar a memória do célebre campo de concentração e extermínio, receberá os direitos autorais da primeira cópia vendida e todos os benefícios que dela possam advir”.

“Devemos republicar uma obra maldita que, segundo a opinião geral, é um tecido de horrores e loucuras? Para quê? A quem se destina?”, questiona, no entanto, o jornal francês Le Figaro.

"Proibir um livro que, de qualquer forma, sai fora de controle após algumas páginas devido à sua completa insanidade, não faria sentido, porque os fãs sempre poderão arranjar meios para obtê-lo", diz o historiador Claude Quetel, autor de "Tudo sobre Mein Kampf", ao Le Figaro.

"Por que não comentar esse livro com um grande aparato crítico, como faz a editora Fayard? Isso nos permite tirar o chão de quem continua a tirar vantagem [do texto] por razões mais ou menos duvidosas; e este é, em última análise, o argumento mais razoável", acredita.

O livro terá 1.000 páginas, das quais um terço será o texto original e dois terços a análise crítica.

"Nosso comitê de historiadores, liderado por Florent Brayard, traduziu, adaptou e expandiu as 3.000 notas da edição alemã e escreveu uma introdução geral e introduções de 27 capítulos", explicou o editor francês da obra.

Livro escrito na prisão

O livro foi escrito entre 1924 e 1925, quando Adolf Hitler estava na prisão após seu golpe fracassado em Munique contra a República de Weimar, lembra Le Figaro, acrescentando que, quando foi publicado, não teve muito sucesso e os próprios nazistas não o leram muito. Goering fez piada sobre isso e Himmler o achou chato. No entanto, quando o nazismo já controlava a Alemanha, mais de 12 milhões de cópias foram vendidas no país.

A primeira parte de "Mein Kampf" é o autorretrato de Hitler e a segunda parte é onde ele expõe suas obsessões. A ideia de que a vida é uma luta de morte entre os "fortes" e os "fracos". Uma luta sem misericórdia ou trégua entre as "raças dominantes" e as "raças servis" e, acima de tudo, um confronto ininterrupto entre o mundo germânico ariano e o mundo judaico.

Não é a primeira vez que o livro é publicado na França. A primeira edição data de 1934, um ano após a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. O líder nazista ficou furioso  na época com a editora francesa Nouvelles Editions Latines, que publicou o texto, numa edição de 700 páginas, por não respeitar os direitos autorais, explica Le Figaro. Hitler iniciou um processo contra a editora, e os juízes franceses decidiram a favor do chanceler nazista em junho de 1934. A editora teve que parar de imprimir e vender o livro, e destruir todas as cópias do inventário.

Quatro anos depois, em 1938, a editora Fayard publicou uma edição aprovada pelo regime nazista, sob o título "Minha doutrina", duas vezes mais curta, eliminando, entre outras coisas, as numerosas passagens anti-francesas.

Proibido na França durante a Ocupação Nazista

Paradoxalmente, o livro foi proibido na França durante os anos em que o país foi ocupado pelos nazistas. O "Mein Kampf" consta da "Lista Otto", o documento de 12 páginas intitulado "Livros Retirados da Venda por Editoras ou Banidos por Autoridades Alemãs", publicado em 28 de setembro de 1940.

O historiador Quetel explica a Le Figaro que o livro de Hitler não seria do agrado daqueles alemães que, como Otto Abetz, amigo de Jünger e Drieu la Rochelle, sonhavam com uma reaproximação com a intelectualidade francesa.

A partir da década de 1960, o livro pôde ser encontrado em algumas livrarias. A Nouvelles Editions Latines, que ainda o comercializa, entre 2003 e 2016, teria vendido cerca de 50 mil exemplares, como explica Claude Quetel ao jornal francês. Um número pequeno em comparação com o mundo árabe-muçulmano, onde ele é vendido aos milhões, diz Le Figaro, acrescentando que hoje é muito popular na Turquia e na Índia, onde os ultranacionalistas hindus o consideram fascinante.

Uma edição crítica alemã de "Mein Kampf", em dois volumes de quase 2.000 páginas, foi publicada por um centro de pesquisa histórica com sede em Munique, o Institut für Zeitgeschichte, em janeiro de 2016, quando a obra entrou em domínio público.

Em janeiro de 2021, a Bellona Publishing House em Varsóvia publicou uma edição crítica de 1.000 páginas em polonês.

(Com AFP)

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