Europeus buscam unidade e nova estratégia nas relações com a Rússia

Em meio a interesses divergentes, europeus buscam nova estratégia para lidar com a Rússia.
Em meio a interesses divergentes, europeus buscam nova estratégia para lidar com a Rússia. © Fotomontagem RFI/Adriana de Freitas

Além dos Estados Unidos, os europeus também buscam um entendimento para estabelecer novas relações com a Rússia. O assunto estará em discussão na próxima reunião de cúpula dos 27 países da União Europeia (UE), em 24 e 25 de junho. Dois grandes jornais franceses – Le Figaro e Le Monde – comentam um relatório com propostas que serão discutidas no encontro da semana que vem, em Bruxelas.  

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Segundo um diplomata ouvido pelo Le Figaro, "chegou a hora de tentar outra coisa", ou seja, ir além das sanções impostas pela participação dos russos na guerra no leste da Ucrânia. É consensual que a abordagem diplomática adotada pelo bloco ante as manobras ousadas de Putin tem sido insuficiente para dissuadir o presidente russo de seu plano voltado à desestabilização das democracias europeias. 

Em um relatório apresentado na quarta-feira (17), pouco antes da reunião entre o presidente americano, Joe Biden, e o líder russo em Genebra, a Comissão de Bruxelas e o chefe da diplomacia do bloco, Josep Borrell, admitiram que apaziguar as relações com Moscou levará tempo. “A UE deve se preparar para uma nova desaceleração de suas relações com a Rússia como a perspectiva mais realista no momento”, aponta o documento, assinalando uma “espiral descendente”.

Para "mudar a dinâmica atual para uma relação mais previsível e estável", de acordo com a circunstância e o assunto, o bloco deve ser capaz de "revidar, pressionar e dialogar", sugere o espanhol Borrell, e atuar em todos os aspectos diplomáticos, inclusive com medidas mais coercitivas. Em caso extremo, "limitar os recursos de que o governo russo pode dispor para levar a cabo a sua política externa disruptiva", diz o texto.

Na prática, o relatório defende uma fiscalização mais eficaz das "atividades criminosas" originárias da Rússia, entre elas os ciberataques com pedido de resgate a empresas e instituições. "Intensificar o combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, em particular por meio do aumento da transparência dos fluxos financeiros relativos à Rússia.”

Esses fluxos são importantes, ressalta o diário Le Figaro. O montante total de investimento estrangeiro direto feito por europeus na Rússia representava € 311 bilhões no final de 2019. Por outro lado, os russos já haviam investido cerca de € 136 bilhões na UE. As novas sanções, cuja estrutura terá de ser definida, também poderiam abranger os autores de ataques cibernéticos coordenados.

Interesses divergentes

Neste momento em que a UE é chamada a se fortalecer para enfrentar ameaças híbridas e desenvolver ferramentas de comunicação estratégica, o relatório apela também a um diálogo contínuo sobre temas de interesse comum. “Podemos lidar com o Ártico ou as mudanças climáticas, com o processo de paz no Oriente Médio ou com a energia nuclear iraniana sem a Rússia?”, questionou Borrell. Na avaliação do espanhol, Moscou é “um ator necessário, até mesmo incontornável” para a União Europeia. O problema é que o Kremlin não reconhece o órgão executivo do bloco como um interlocutor de pleno direito. 

As discussões até entre os 27 países da UE prometem ser difíceis, já que os interesses dos europeus divergem em relação a Moscou. Por enquanto, Paris, Berlim e Roma pedem esse diálogo. A Polônia, os Estados Bálticos e a Suécia continuam a favor de uma linha dura. Outros países, principalmente a Hungria e Chipre, não querem que suas relações com Moscou se deteriorem. 

O jornal Le Monde considera que Borrell está diante de uma daquelas missões impossíveis atribuídas ao coordenador de política externa do bloco. "Ele deveria acrescentar 'unir' ao desafio de fazer os europeus conseguirem 'revidar, pressionar e dialogar' com a Rússia", ironiza o Le Monde

Por razões econômicas, políticas, estratégicas ou energéticas, os europeus não conseguem adotar um discurso unificado nas relações com o Kremlin, à exceção de circunstâncias extremas, quando a Rússia ultrapassa a linha vermelha. "A Rússia não quer falar com a UE; de uma forma deliberada, prefere conversar diretamente com alguns membros do bloco", lamenta Borrell. 

Economia de baixo carbono pode criar problemas para Rússia

Atualmente, 26% do petróleo e 40% do gás importados pela Europa são de origem russa. Mas esta situação tende a mudar com a diversificação das fontes de abastecimento e o avanço dos projetos visando uma economia de baixo carbono. No futuro, os europeus poderão se servir dessas alavancas para fazer o vizinho russo mudar de rumo.

O gás e o petróleo representam 60% das exportações da Rússia e respondem por 40% do orçamento do país. A previsível redução dessas exportações "inevitavelmente terá um impacto interno", afirma o relatório. O que também evoca as fragilidades estruturais do país: uma renda per capita que caiu 10% desde 2013, um rápido declínio demográfico e uma trajetória orçamentária preocupante, assinala o Le Monde.

Em busca de um "diálogo", a Europa deve levar Moscou a cooperar e fazer com que alguns avanços sejam concretizados, a fim de garantir uma relação mais "estável e previsível”. O Ártico, o Oriente Médio, o Afeganistão e a não proliferação de armas nucleares poderiam representar áreas de cooperação, diz o documento.

Caso essa estratégia não dê resultados, sempre haverá  a possibilidade de adotar sanções. No entanto, o chefe da diplomacia europeia prefere evitar esse recurso. "Sanções são um meio, mas não devem substituir uma política", afirma.

Resta saber se o projeto de Borrell será endossado pelos 27 ou se tornará apenas mais um calhamaço de páginas perdidas nas gavetas da Comissão Europeia, conclui o Le Monde.

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