Na estreia do surfe em Tóquio, atletas olímpicas se descolam do estereótipo de belas mulheres californianas

A surfista sul-africana Bianca Buitendag compete nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Em 26 de julho de 2021.
A surfista sul-africana Bianca Buitendag compete nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Em 26 de julho de 2021. AP - Francisco Seco

No ano em que o surfe faz sua estreia entre os esportes olímpicos, o jornal Libération aborda a mudança de mentalidade observada, já faz algum tempo, entre as surfistas profissionais, que conseguiram se descolar do estereótipo de "belas mulheres californianas", obrigando os patrocinadores a aceitarem novos padrões. 

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Em uma matéria publicada nesta quarta-feira (28), o diário pergunta onde foram parar as reef girls, "aquelas garotas que participavam de concurso de biquini nos anos 1980, enquanto os rapazes davam provas de virilidade no mar". 

Segundo a reportagem, "a estratégia comercial mudou em razão da tomada de consciência, no mundo todo, sobre a violência contra as mulheres".

"No imaginário social, as surfistas sempre foram sexies e heterossexuais", explica a especialista no esporte Anne-Sophie Sayeux, mestre em antropologia pela Universidade de Clermont-Auvergne. "A mídia participou ativamente para criar essa imagem", completa a pesquisadora, ao jornal francês. "Porém, isso começa a evoluir, quando nos damos conta de que a surfista é uma esportista que pode ter boa performance. É so o começo de uma conscientização que se espalha por toda a esfera do esporte", analisa.

"Sim, há uma mudança nos últimos anos" confirma a surfista profissional Pauline Ado, presente aos Jogos Olímpicos de Tóquio. "Quando eu cresci, havia um pouco a imagem dessa jovem bonita, de maiô e não necessariamente esportiva. Mas hoje, os valores do esporte e o corpo atlético são mais importantes", completa Pauline, em entrevista ao Libération.

Uma brasileira impôs novos padrões

O jornal cita a história da brasileira Silvana Lima para representar o sexismo existente no surfe, desde 2010. À época, de acordo com a reportagem, a surfista de 31 anos acumulava uma longa lista de prêmios, incluindo duas temporadas como a segunda melhor do mundo. A moça de "cabelos castanhos, baixinha e musculosa", no entanto, "preferia usar bermuda do que biquini e não correspondia ao estereótipo da surfista californiana", diz o texto, "o que lhe dificultava conseguir patrocinadores".

Ela tinha que trabalhar para pagar suas viagens para competir. "Eu não pareço com uma top model ou uma boneca. Eu sou uma surfista profissional, mas as marcas de surfe querem mulheres que sejam, ao mesmo tempo, surfistas e manequins", lamentou a brasileira numa entrevista à inglesa BBC. "Os homens não têm esse problema", completou ela. 

A imagem da surfista loira e de biquini há muito tempo colou às atletas do mar. "Havia pouco tempo, os melhores locais de ondas eram reservados aos homens e nós tínhamos que surfar num mar pior", conta Pauline Ado. "Hoje em dia, nós negociamos, está mais equilibrado". 

Prova disso é que a Liga Mundial de Surfe (WSL) autorizou, em 2021, as mulheres a surfarem na competição em Teahuppo, praia de ondas míticas no Tahiti e que havia sido retirada do circuito feminino, em 2006, por ser considerada muito perigosa. Validado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), o local estará no programa dos jogos Olímpicos de 2024. 

Paridade

Outro grande avanço, cita o Libération, é a paridade entre atletas homens e mulheres em relação aos prêmios em competições da Liga Mundial de Surfe, desde 2018. A decisão surpreendeu o meio esportivo e foi tomada quando a inglesa Sophie Goldshmidt dirigiu a entidade. 

Assim, "os patrocinadores não tiveram outra escolha a não ser seguir a evolução da sociedade e promover o empoderamento feminino", conclui a reportagem, explicando que, atualmente, os trajes para as surfistas são mais adaptados à morfologia de seus corpos curvilíneos, o mesmo valendo para as pranchas.  

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