Crise de energia preocupa Europa antes do inverno e, na França, pode “acordar” coletes amarelos

O aumento nos preços do gás é impulsionado pela recuperação econômica global.
O aumento nos preços do gás é impulsionado pela recuperação econômica global. AFP - LOIC VENANCE

O aumento dos preços da energia na Europa e a redução dos estoques de gás natural às vésperas do inverno causam dor de cabeça em diversos países, que poderão enfrentar problemas para abastecer as casas quando as temperaturas despencarem. Na França, o governo anunciou um pacote de medidas para limitar ao máximo o aumento das contas de luz, diante da ameaça de retorno do movimento dos coletes amarelos, a seis meses das eleições presidências no país.

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Diferentemente do Brasil, onde a crise hídrica leva ao risco de apagões, na Europa o problema é um efeito colateral da retomada econômica. Em meio a uma alta acelerada da atividade desde maio, graças ao recuo da epidemia e à flexibilização das normas sanitárias, a demanda por gás explodiu no continente nos últimos meses, a ponto de colocar sob tensão os estoques em países como Alemanha, Espanha e Itália. Isso ocorre num momento em que a produção esperada de fontes renováveis não correspondeu às expectativas, com um verão com pouco vento para abastecer as usinas eólicas.

Para completar, um imbróglio geopolítico com a Rússia piora o quadro. Moscou, a maior produtora e fornecedora de gás no continente, se aproveita da situação para pressionar pela aceleração do início das operações do gasoduto Nord Stream 2, entre o país e a Alemanha.

Com o fornecimento a conta-gotas pelos russos, os valores da eletricidade dispararam, principalmente nas economias mais dependentes das importações e com menor oferta nacional de energia nuclear. No Reino Unido, a crise energética já levou sete fornecedores à falência e prejudica o abastecimento alimentar, que também depende do gás.

Na Grã-Bretanha, como em vários países europeus, a escassez de gás faz disparar o custo da eletricidade.
Na Grã-Bretanha, como em vários países europeus, a escassez de gás faz disparar o custo da eletricidade. REUTERS - Phil Noble

À espera de um inverno pouco rigoroso

Com os estoques atuais do produto, os países não deverão enfrentar rupturas no aquecimento das casas à condição de o inverno não ser tão rigoroso. Os preços, entretanto, seguirão em tendência de alta.

Semana após semanas, os europeus anunciam planos para limitar os aumentos, que têm um forte impacto no poder aquisitivo das famílias já fragilizadas pela pandemia de Covid-19. A Itália subsidiará as tarifas para os 3 milhões de italianos de renda baixa, enquanto 6 milhões de pequenas empresas e 29 milhões de usuários ficarão isentos de um imposto para o desenvolvimento de infraestruturas até o fim do ano. Com as medidas, Roma visa evitar uma alta da conta de luz que chegaria a 40%.

Na Espanha, onde a eletricidade subiu 35% desde junho, a cartada da redução de impostos também foi aplicada e o governo prometeu baixar a conta mensal de luz dos consumidores em 22% até dezembro.

Pacote francês

Nesta quinta-feira, foi a vez de o governo francês revelar o seu pacote – três semanas depois de oferecer aos mais pobres um “cheque-energia" de 100 euros, para ajudá-los a pagar a conta. O país é menos abalado pelo contexto internacional por ter menor dependência do gás, graças às usinas nucleares nacionais. Mesmo assim, uma alta de 15% está prevista para novembro e outra de 12% ocorreria em fevereiro – porém essa segunda acaba de ser cancelada.

O primeiro-ministro, Jean Castex, disse que o próximo aumento dos valores será de no máximo 4%. O premiê também bloqueou os preços do gás de novembro a abril e a diferença será compensada nos meses seguintes, quando o consumo cai, com a volta dos dias quentes.

Coletes amarelos bloqueiam distribuidora de combustíveis em Frontignan, em 3 de dezembro de 2018.
Coletes amarelos bloqueiam distribuidora de combustíveis em Frontignan, em 3 de dezembro de 2018. PASCAL GUYOT / AFP

O governo francês está em alerta diante do impacto político de um aumento do custo de vida dos franceses. A seis meses das eleições presidenciais, o ressurgimento do movimento dos coletes amarelos assombra novamente o presidente Emmanuel Macron. Algumas coincidências sustentam esse temor: os protestos se iniciaram há praticamente três anos, também no outono, em oposição à criação de um imposto ambiental que levaria ao aumento dos preços da gasolina. O movimento rapidamente ganhou força e se espalhou pelo país por meses, numa das maiores crises políticas enfrentadas pelo atual presidente, que buscará a reeleição em 2022.

Medida “eleitoreira”

Agora, o aumento da luz chega no momento em que os franceses já estão incomodados com a subida do litro de combustíveis nos postos – reflexo do encarecimento do petróleo no mercado mundial.

“Vemos claramente uma decisão eleitoreira do governo, a poucos meses da eleição. A medida de um ‘cheque-energia’ para 5,8 milhões de franceses é boa, mas não para limitar a alta para todos os franceses. Com o congelamento dos preços do gás, todos aproveitam”, explica a economista Stéphanie Villers, autora de “Crise Econômica 2020, em direção de um novo mundo”, em entrevista à RFI. “O interesse eleitoral fica ainda mais claro se comparamos com as medidas adotadas por outros países, ainda mais atingidos que a França, que se focaram realmente nos cidadãos com condições de vida mais precárias. A Alemanha ainda não anunciou nada”, frisa a economista.

A decisão do governo francês, entretanto, poderá ser criticada durante a campanha pelos conservadores, que já acusam o governo Macron de colocar as contas públicas do país à perigo. “A limitação da alta dos preços a 4% representará € 4 bilhões a menos nos caixas do Estado, enquanto mais um cheque para 6 milhões de franceses custaria € 600 milhões de euros. Vemos bem a diferença. Haveria ainda uma ampla margem para evitar um custo tão alto”, observa Villers.

Para garantir a paz social, Castex aposta as fichas na retomada econômica e na volta do crescimento, que deverão sustentar a expectativa de que o indicador do poder aquisitivo aumentará, como prevê o Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee). A previsão é de que, depois de permanecer estável a 0,4% em 2020, o índice subirá de 1,5 a 2% até o fim do ano.

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