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Último volume de trilogia de poesia sinestésica de Natan Barreto é lançado em Paris

Áudio 07:05
Radicado em Londres, o poeta baiano Natan Barreto está em Paris para lançar o terceiro livro de uma trilogia: "O Ritmo da Roda: poemas fotográficos".
Radicado em Londres, o poeta baiano Natan Barreto está em Paris para lançar o terceiro livro de uma trilogia: "O Ritmo da Roda: poemas fotográficos". RFI
Por: Paloma Varón
12 min

Poeta baiano radicado em Londres, Natan Barreto volta a Paris para o lançamento de ‘O Ritmo da Roda: poemas fotográficos’, último  volume de sua ‘Trilogia dos Livros das Capas Brancas’, que reúne poemas que dialogam com imagens. O novo livro traz 33 poesias escritas a partir de fotografias, nas quais o poeta narra acontecimentos que marcaram o mundo. 

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“O trabalho do escritor é um trabalho muito individual, muito solitário. A poesia feita dialogando com imagens de outras pessoas acaba não sendo mais. Eu me vejo trabalhando com a obra de outras pessoas, tem essa mistura”, diz Barreto, sobre a criação literária. 

“Se a gente pensa ao longo da História, muitos artistas se baseavam em narrativas, em mitologia, em contos e em relatos religiosos para chegar à imobilidade de uma obra de arte”, conta, relatando que fez o caminho inverso. 

“O que eu busquei, a partir de 'Movimento imóvel’ [o primeiro livro desta trilogia] foi partir da ‘fixidez’ de uma obra de arte para chegar ao movimento de uma narrativa. Ricardo Viel, da Fundação José Saramago, que assina o prefácio de ‘O Ritmo da Roda’, falou desta poesia sinestésica, que mistura todos os sentidos. Você parte de uma imagem e vai buscando todos os sentidos para encontrar uma narrativa e para declarar esta narrativa por escrito”, explica. 

Desenhos de crianças

Barreto conta que, nesta trilogia, a única obra que partiu dos poemas em direção à imagem foi o ‘Bichos, poesias desenhadas’, um livro de quadras (poesias de quatro versos), com 83 poemas: “Eu escrevi as poesias primeiro e buscava um artista para ilustrar este livro”. 

“Falei com minha irmã em Salvador, no bairro de Periperi, de onde eu venho, e ela, que é diretora de uma escola, fundada por nossa mãe, me disse: ‘Eu não conheço um artista, mas, por que não os alunos da escola?’ Então ela leu as 83 poesias com um grupo de 29 crianças e todas responderam com seus desenhos. No final, me deu uma caixa com mais de 2.000 desenhos e eu fui escolher o que mais se aproximava da minha poesia”, conta. 

O princípio disso tudo foi em 2003, quando eu fui convidado, em Londres, junto com poetas ingleses, para escrever poesias a partir de fotografias de Sebastião Salgado. Foi a primeira vez que eu escrevi poesias em inglês, porque o meu trabalho foi também de tradução simultânea, eu escrevia um verso em inglês e traduzia para o português”, relembra, sobre sua trajetória de poeta.

Já a ideia de escrever ‘Movimento Imóvel’, o primeiro livro desta trilogia, foi dada por uma amiga, via uma rede social. “Vi uma imagem de Paul Gauguin [pintor francês], uma natureza morta com três cachorros, e escrevi uma poesia sobre esta imagem. Postei no Facebook e uma amiga sugeriu que eu deveria escrever um livro de poesias baseado em obras de arte. Achei que era meio loucura, mas esta ideia foi semeada em mim e eu acabei escrevendo este livro.”

Denúncia

“Por este livro passam escravos e refugiados, passam vítimas de um sistema excludente e preconceituoso, passa a guerra, passa a fome, passa a dignidade que a pobreza às vezes produz, passam a solidão e a injustiça, passa muita dor. Mas passam também beleza, esperança, força, resistência, sorrisos, amor e sonhos”, escreveu Ricardo Viel, da Fundação Saramago, em Lisboa sobre o livro. 

Questionado se, ao mostrar o sofrimento e as guerras, faz uma poesia militante, o autor refuta: “Eu não acho que seja uma poesia militante. Trata-se de uma poesia verdadeira, que fala do mundo”. 

“Muita gente pode percebê-lo como um livro triste. Eu não vejo assim, vejo um livro sobre imagens reais. Então, sim, há escravidão, há homofobia, há sofrimento, há pobreza. Sim, há guerra, mas ao mesmo tempo existe resistência.  É uma poesia que quer mostrar a minha voz. Eu acho que chamá-la de militante pode restringi-la”, completa. 

Mãos e o sentimento do mundo

“No princípio do livro é toda esta destruição causada pelos homens e no final a poesia é sobre mãos: as mãos de Mestre Vitalino, as mãos do artista francês Matisse, as mãos do artista belga Magritte, as mãos de candangos construindo Brasília… são mãos humanas. As próprias mãos que destroem são também mãos que constroem”, ilustra. 

“E, no final, mãos de crianças brincando de roda. É um círculo que retorna, pois a primeira poesia do primeiro livro se chama 'A Roda' e ela termina com os versos “O ritmo da roda ainda ecoa”. Este poema veio dar título ao último livro e também fecha o último livro, fechando este círculo, esta roda”, acrescenta, dizendo que escolheu nas imagens aleatoriamente, a partir do sentimento que elas lhe causavam.

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