Cinema/César

Acusado de abuso sexual, Roman Polanski ganha César de melhor diretor em noite de protestos

Emmanuelle Bercot e Claire Denis recebem o prêmio de melhor direção para Roman Polanski. Em 28 de fevereiro de 2020.
Emmanuelle Bercot e Claire Denis recebem o prêmio de melhor direção para Roman Polanski. Em 28 de fevereiro de 2020. REUTERS/Piroschka van de Wouw

As acusações de estupro e agressões sexuais contra o cineasta Roman Polanski deram o tom da cerimônia de premiação do César, o Oscar do cinema francês, na noite desta sexta-feira (28), em Paris.

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Momentos antes da premiação, a polícia teve de usar gás lacrimogênio para afastar manifestantes que se concentravam em frente à sala Pleyel, onde ocorreu a cerimônia.

Ignorando as críticas e o barulho dos protestos, a Academia Francesa de Filmes reconheceu o trabalho do cineasta franco-polonês. O filme de Polanski, "J'accuse", (O oficial e o espião”, em português) concorria em 12 categorias e levou três estatuetas, incluindo a de melhor diretor.

Diversas atrizes, incluindo Adèle Haenel, se retiraram do evento em sinal de protesto. Indicada como melhor atriz pelo filme “Retrato de uma jovem em chamas”, ela havia acusado o diretor Christophe Ruggia de molestá-la quando adolescente.

O ministro da Cultura francês, Franck Riester, reiterou neste sábado (29) que "celebrar" Roman Polanski no César foi um "mau sinal", acrescentando que ele "podia entender" a reação "de raiva" da atriz Adèle Haenel. "A dificuldade com este prêmio a Roman Polanski é que não estamos apenas comemorando o trabalho, mas também comemorando o homem", comentou Riester.

Em um comunicado à imprensa intitulado "Shame" (vergonha), o coletivo #NousToutes (Todas Nós) estimou que a Academia Francesa "literalmente cuspiu nos rostos das vítimas de violência de pedofilia, das vítimas de violência sexual e, mais amplamente, de milhões de mulheres neste país ".

O grupo convocou outras descontentes a participarem de um ato no dia Internacional da Mulher. "Estaremos na rua no domingo 8 de março para dizer novamente que queremos acabar com toda a violência sexual e de gênero. E que nem a Academia Francesa de Filmes, nem os que a apoiam nos impedirão", acrescentou a organização feminista.

Roman Polanski e a equipe de seu filme, incluindo o ator Jean Dujardin, estrela francesa do cinema, que interpreta o papel principal do longa-metragem sobre o caso Dreyfus, decidiram não participar da cerimônia do César. Coube à atriz Emmanuelle Bercot e à diretora Claire Denis receberem o prêmio por Polanski.

“O oficial e o espião” aborda um episódio real no qual um soldado judeu do exército francês foi condenado injustamente por um crime que não cometeu.

Outros prêmios

"Les Misérables" (Os Miseráveis), de Ladj Ly, que retrata uma periferia parisiense, levou o prêmio de melhor filme. O longa-metragem já foi visto por mais de dois milhões de espectadores. Em seu agradecimento, o cineasta disse que "o único inimigo não é o outro, mas a miséria".

O prêmio de melhor atriz foi para Anaïs Demoustier por sua performance no filme “Alice et le maire” (Alice e o prefeito). A atriz de 32 anos vive o papel de uma jovem filósofa que tenta ajudar um prefeito socialista de Lyon a recuperar o gosto pela política.

Anaïs Demoustier recebe o César de melhor atriz pelo filme “Alice et le maire”.
Anaïs Demoustier recebe o César de melhor atriz pelo filme “Alice et le maire”. REUTERS/Piroschka van de Wouw

O franco-marroquino Roschdy Zem ganhou a estatueta de melhor ator por sua atuação no filme “Roubaix, une lumière”, em que ele encarna um policial carismático e sensível.

Parasitas, de Bong Joon-ho levou o prêmio de melhor filme estrangeiro. A equipe da produção sul-coreana não veio à Paris, mas enviou um vídeo de agradecimento.

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