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Dança/Brasil

Festival Panorama de dança desembarca na França como ‘ato de resistência’

“Quando Quebra Queima”, do ColetivA Ocupação, na programação do festival Panorama 2020, no Centre National de la Danse (CN D) de Paris.
“Quando Quebra Queima”, do ColetivA Ocupação, na programação do festival Panorama 2020, no Centre National de la Danse (CN D) de Paris. ©Mayra-Azzi
Texto por: Márcia Bechara
9 min

O tradicional Festival Panorama de dança contemporânea, que acontece há 27 anos no Rio de Janeiro, desembarca em Pantin, nos arredores de Paris, pela primeira vez em 2020. Evento único em seu gênero na América do Sul, a versão francesa do Panorama reunirá, até o dia 21 de março, artistas brasileiros de diferentes backgrounds, numa programação que mistura espetáculos, performances, mesas redondas e festas, acolhida pelo Centre National de la Danse (CN D), o Centro Nacional da Dança, na capital francesa. A RFI conversou com a atual diretora do festival, Nayse López, sobre os motivos desta mudança e a curadoria desta edição.

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Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha, diz o ditado, que, ao que parece, continua válido em tempos de governo Bolsonaro no Brasil. Neste contexto, o tradicional Festival Panorama, que há 23 anos ocupa a capital fluminense com dançarinos e performers de referências e origens diferentes, será realizado pela primeira vez fora do país, com o nome Panorama Pantin, Le Brésil au CN D. Com os recentes cortes de patrocínios à cultura por parte das estatais brasileiras, a edição 2019 do tradicional festival nem chegou a acontecer e seus organizadores desembarcam em 2020 na França, onde contam com apoio do Centro Nacional da Dança do país, instituição diretamente ligada ao Ministério da Cultura francês.

“Tomamos a decisão de não fazer o Panorama em 2019”, conta Nayse López, diretora do festival. “Uma das razões, extremamente prática, era porque enfrentávamos muita dificuldade com captação de recursos após a posse do governo Bolsonaro, porque o governo não apenas extinguiu o Ministério da Cultura, o que dificultou vários processos legais, como também determinou que as estatais, que são uma grande fonte de financiamento da cultura brasileira, se retirassem dos festivais”, diz.

“A Petrobras, por exemplo, que foi patrocinadora do Panorama durante 15 anos, foi impedida de patrocinar festivais com esse perfil”, lembra a curadora. “Nunca houve uma censura aberta a um projeto, mas uma clara censura econômica. Os projetos com posicionamento político foram eliminados das carteiras de patrocínio das empresas do governo”, conta. “Isso teve um impacto enorme na área, porque no caso do Rio de Janeiro isso também se estende ao governo do estado, que compartilha a posição de extrema direita do governo federal, e a prefeitura do Rio que praticamente desmontou todo o aparato cultural da cidade”, pontua a curadora.

Programação

Repartida em três momentos, a partir de referências cronológicas – futuro, passado e presente -, a programação do festival Panorama 2020 em Pantin aborda a questão corporal a partir de pontos de vistas diversos como a tecnologia, a educação, a informação, a censura e o “pensamento descolonizado”. “Nossa busca foi tentar não criar uma narrativa, porque as obras têm a sua própria maneira de lidar com as questões do Brasil de hoje, mas organizar alguns conjuntos de ideias para cada fim de semana”, diz López.

“O primeiro final de semana fala da juventude, dessa possibilidade de futuro que essa nova geração de artistas vê, discute, e está questionando. São peças de artistas muito jovens, que nascem dessa inquietação quase adolescente de jovens periféricos”, diz López. “São artistas que também estão nessa luta cotidiana da descolonização de um país com uma herança colonial fortíssima. Estamos há muitos anos tentando entender as cicatrizes desse período colonial até hoje”, avalia a diretora.

“Na programação do Panorama existem corpos jovens, maduros, negros, brancos, héteros, gays, cis, trans, com questões que atravessaram o festival nos últimos anos. Estamos no centro de uma resistência desses corpos, que estão marginalizados no discurso do atual governo”, afirma López. “Essa programação no CN D, em Pantin, tenta levantar três grandes questões: o “futuro”, dando voz aos jovens para que eles exprimam sua raiva e angústia pelo que acontece no Brasil e no mundo; no segundo fim de semana, temos o eixo do passado, onde a ideia é verificar em que momento da história corpos como o negro ou o gay foram impedidos de ter protagonismo”, lembra.

Descolonização, informação e resistência

“Falamos também do corpo latino-americano como um todo, porque a peça da Federica [Folco, “Proyecto Tango”], do Uruguai, é uma peça que fala sobre a origem do tango enquanto lugar de luta nos portos do país, é uma luta que se transforma em dança, com uma carga política importantíssima para se pensar o que foi a construção do ideário da arte latino-americana. Neste mesmo fim de semana, temos a peça do Wellington Gadelha, da periferia do Nordeste brasileiro, que se coloca como um homem periférico negro num país colonial. A descolonização é um termo que vem sendo muito usado nesta última década por autores diferentes, numa tentativa de retirar os pré-conceitos e estereótipos que historicamente foram aplicados a certo corpos”, detalha a diretora do festival. “Como curadora, tento entender que estereótipos, que rótulos, que camadas de significado colonizantes foram aplicadas à arte produzida sobre esses corpos”, diz.

O último final de semana de programação do Panorama, evocado no eixo do “presente”, traz uma discussão sobre “o mundo que esses corpos enfrentam do ponto de vista da relação com a era da informação, com as fake news, com a noção de verdade”, segundo a curadora. “Historicamente se pensa a resistência contra regimes totalitários. Mas agora percebemos que há, dentro dessa democracia manipulada a partir da informação, onde as eleições são pautadas pela mentira, pelas fake news, apoiadas por um enorme poder econômico. É um momento novo, onde é preciso resistir dentro da própria democracia”, atesta López.

“As peças deste terceiro final de semana falam de censura, de controle, da informação. ‘Domínio Público reúne quatros artistas brasileiros que foram atacados e censurados, utilizando a Monalisa como metáfora sobre o que é verdade e o que é mentira. O que acreditamos e o que queremos acreditar sobre determinados fatos históricos”, afirma. “O espetáculo ‘Looping: Paris Overdub’ discute a não-subserviência dos corpos, fala sobre abrir um espaço para a sensualidade, estimulando o contato entre os corpos de uma maneira livre, lembrando que a festa também é um lugar de se discutir informações com liberdade. A ideia é olhar para as nossas resistências, nesse mundo imerso numa guerra de informações”, diz.

Futuro "incerto"

A programação do festival Panorama conta ainda com reflexões políticas por meio de mesas redondas dedicadas aos direitos de minorias LGBTQI+ ou indígenas. O CN D renova, com essa iniciativa, um histórico de apoio a coreógrafos e performers brasileiros como Lia Rodrigues, Micheline Torres, Wagner Schwartz, Volmir Cordeiro, Calixto Neto e Marcelo Evelin.

O futuro do festival Panorama, no entanto, ainda é incerto, como conta Nayse López. “Não temos certeza aqui no Brasil neste momento nem do que vai acontecer mês que vem”, ironiza. “Diante de um quadro de muita insegurança financeira, resolvemos em 2019 não anunciar uma edição que talvez não se realizasse por falta de recursos. Em paralelo a isso, como é um festival muito antigo, chegamos à conclusão que era hora de parar e repensar o formato”, diz. “Que tipo de projeto atende à necessidade dos artistas da performance contemporânea e do público nesse momento?”, questiona a curadora.

“Duas palavras são muito importantes nesta edição do festival na França. Resistência, resiliência, ou seja, acreditar que o que a gente faz tem importância e ressonância e precisa ser feito. E também solidariedade, porque a decisão da Mathilde Monnier (ex-diretora do CN D), ao ser reiterada [pela nova direção francesa] é um ato não só de solidariedade com uma comunidade artística que está de alguma forma em risco de sobrevivência pela ausência de políticas públicas, mas também pelo entendimento do CN D do seu papel. Não é um teatro pura e simplesmente, é um centro nacional de referência que olha para o que está acontecendo na dança, na França e no mundo”, afirma a diretora do Panorama.

Confira a programação completa do Festival Panorama 2020 no site do Centre National de la Danse.

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