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França/Política

Ex-ministra da Saúde da França chama eleição municipal de ‘farsa’ e confessa que sabia que coronavírus seria um ‘tsunami’

A ex-ministra da Saúde Agnès Buzyn disse que "desmoronou" após a derrota na corrida pela prefeitura de Paris.
A ex-ministra da Saúde Agnès Buzyn disse que "desmoronou" após a derrota na corrida pela prefeitura de Paris. Julien De Rosa/Pool via REUTERS
Texto por: Márcia Bechara
5 min

As confissões desta terça-feira (17) de Agnès Buzyn, ex-ministra da Saúde do governo do presidente Emmanuel Macron, ao jornal Le Monde, sacudiram a esfera política na França em pleno pico da pandemia de coronavírus no país. Em uma entrevista reveladora ao vespertino, a ex-ministra prevê “milhares de mortos” no território francês.

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“Eu me pergunto o que vou fazer da minha vida”, disse a ex-ministra de Macron, Agnès Buzyn, nesta terça-feira (17) ao jornal Le Monde. Ela afirmou ter "fechado a porta do QG" de sua campanha em Paris e "desmoronado". O jornal conta que as lágrimas da ex-ministra “não têm nada a ver com as de ‘emoção’ e ‘desgosto’, enxugadas “entre dois sorrisos” durante a entrega ao ministério da saúde, há um mês, para concorrer à prefeitura de Paris. São lágrimas pesadas de cansaço, exaustão, mas também de remorso”, diz o vespertino francês.

"Quando saí do ministério", disse Buzyn ao jornal, "chorei porque sabia que uma onda de tsunami estava à nossa frente. Saí sabendo que as eleições [municipais] não aconteceriam”. A declaração caiu como um raio no meio político e entre os franceses, que reagiram às declarações da ex-ministra nas redes sociais.

O líder da França Insubmissa (esquerda radical), Jean-Luc Mélenchon, chegou a questionar a “responsabilidade penal” dos funcionários do governo Macron que haviam sido avisados da catástrofe por Buzyn. “Ela deveria ter desistido de seu emprego no meio de uma tempestade, no momento em que adivinhou o drama que estava por vir?”, questiona Le Monde.

Desistência da prefeitura de Paris

Buzyn ficou na terceira posição na preferência dos parisienses no primeiro turno das eleições municipais, realizado no domingo (15). Sem esperar pelas diretrizes de seu partido, A República em Marcha (LRM), ou pelo anúncio do adiamento do segundo turno, divulgado na segunda-feira (16) "devido à situação de saúde e nos hospitais ", ela decidiu se retirar do páreo.

"Foi minha decisão, como cidadã e médica. Desde o começo, eu só pensava em uma coisa: o coronavírus. Deveríamos ter parado tudo, foi uma farsa. A última semana foi um pesadelo. Eu estava com medo em todas as reuniões. Eu vivi essa campanha de maneira dissociada”, confessou a ex-ministra ao jornal.

Ainda segundo Le Monde, “também na política, o inconsciente fala”. “No domingo, 15 de março, Agnès Buzyn foi votar no 5º distrito de Paris, perto de sua casa, mas havia esquecido seu título de eleitor em casa em outra bolsa”, conta o vespertino. “Ao finalmente deslizar a cédula [dentro da urna], foi impossível desbloquear a tampa da garrafa de álcool gel... Carma ruim, sinal ruim”, ironiza o jornal. À noite, ela foi superada nas urnas pela prefeita socialista, Anne Hidalgo, e pela candidata da direita, Rachida Dati.

Tudo começou em 14 de fevereiro. Naquele momento, a OMS ainda não estava falando de uma pandemia. Os epidemiologistas compararam a mortalidade do vírus à da gripe. Somente a província chinesa de Hubei estava confinada. Convidada pela [radio francesa] France Inter, naquela manhã, Agnès Buzyn falou sobre a situação da saúde no meio da então epidemia.

Ela ainda não havia visto o vídeo íntimo de Benjamin Griveaux, e repetiu: “Não posso ser candidata. Eu já tenha uma agenda muito ocupada, tenho muitas reformas no ministério e infelizmente houve um trabalho inesperado, que é essa crise de coronavírus”, declarou na ocasião, dando o caso por resolvido. “Mas todos insistiam muito para que eu fosse candidata”, revela Buzyn a Le Monde, dando detalhes dos bastidores da campanha.

A crise sanitária constantemente a remete ao seu passado como ministra. “As redes sociais adotaram essa frase, lançada por Buzyn em 24 de janeiro: ‘O risco de disseminar o coronavírus na população é muito baixo’”, lembra o jornal. "Claro, eu não deveria ter dito essas palavras. Mas antes de deixar o ministério, eu havia preparado tudo (...) Mas eu sempre digo: ministra um dia, médica sempre. O hospital vai precisar de mim. Haverá milhares de mortes", conclui a ex-candidata de Macron à Prefeitura de Paris, apesar do arrependimento declarado ao jornal Le Monde.

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