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Covid-19: médicos selecionam doentes por falta de aparelhos de respiração no leste da França

Equipe do Samu transporta paciente com coronavírus para Hospital Universitário de Estrasburgo, no leste da França.
Equipe do Samu transporta paciente com coronavírus para Hospital Universitário de Estrasburgo, no leste da França. EUTERS/Christian Hartmann
Texto por: RFI
4 min

A falta de aparelhos de respiração artificial no leste da França obriga médicos a efetuar uma triagem nos pacientes em meio à crise do coronavírus. Franceses com 70 anos ou mais, portadores de outras doenças, têm sido preteridos na reanimação. Os poucos equipamentos de intubação disponíveis são às vezes reservados aos pacientes mais jovens, com mais chances de sobrevivência. A denúncia é mencionada em todos os jornais nesta quarta-feira (18).

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A França tinha até a noite de terça-feira (17) 7.730 casos da infecção provocada pelo Covid-19, mais de 2.500 pessoas hospitalizadas, sendo 700 em estado grave, em reanimação. Em Mulhouse (leste), um dos maiores focos da epidemia no país, a afluência de doentes não para. Os hospitais da cidade de 110.000 habitantes, localizada a 26 km da fronteira com a Alemanha e a 36 km da Suíça, estão saturados.

Enfermeiros e médicos relataram à reportagem do jornal Le Parisien que são obrigados, contra sua própria vontade, a privar de intubação idosos com a pneumonia viral, sobretudo quando eles já sofrem de outras doenças que diminuem as chances de sobrevivência. Uma enfermeira, identificada como Delphine, diz que tem praticado essa "medicina de guerra", reservando os poucos aparelhos de respiração disponíveis para os mais jovens. "Mas desde quando com 70 anos uma pessoa é velha?", questiona com tristeza e indignação o Le Parisien.

Na manhã desta quarta-feira, a Aeronáutica começou a transportar os doentes de Mulhouse para Toulon (sul), onde ainda há leitos desocupados. Essa ponte aérea vai durar até que seja construído o primeiro hospital militar de campanha, com 30 vagas de reanimação, na região da Alsácia. "Hospital de campanha é símbolo de guerra e de catástrofes", nota o diário, como vimos no Afeganistão e no Iraque. Só que, desta vez, a guerra é na França e contra um vírus, cita a reportagem.

Paris tenta evitar triagem dos casos graves

Paris está se aproximando dessa situação. O pediatra Rémi Salomon, presidente da comissão médica dos hospitais públicos da região parisiense, afirma no Le Parisien que as autoridades sanitárias estão fazendo o máximo possível para duplicar ou triplicar a capacidade das UTIs da capital, para evitar a absurda escolha de deixar os mais vulneráveis morrerem, como tem acontecido na Itália.

O Le Monde informa que um documento remetido à Direção Geral da Saúde busca orientar os médicos nesta difícil escolha. "Não podemos ocultar essa realidade. Quando tivermos uma pressão enorme para admitir pacientes que farão filas nas entradas dos hospitais, essa questão será colocada", disse Bernard Guidet, chefe do serviço de reanimação do Hospital Saint-Antoine, em Paris.

Em longa entrevista ao Le Figaro, o presidente da Sociedade Francesa de Reanimação (SRLF), professor Éric Maury, confirma que a situação no leste é "catastrófica" e que a entidade tenta formar, num contexto de emergência, novos enfermeiros de UTI. Ele reafirma que os respiradores artificiais estão esgotados em Mulhouse, enquanto pessoas contaminadas pelo coronavírus e com pneumonias severas continuam a chegar em massa nos hospitais da região.

Questionado por que as autoridades francesas não anteciparam essa situação, o médico argumenta que a evolução da epidemia na China não indicava essa explosão do sistema de saúde. Foi com o decorrer da contaminação na Itália e a rápida propagação do vírus na França que os hospitais se viram nesse dilema de ter de escolher entre pacientes com bons prognósticos de sobrevivência, enquanto outros vão morrer pela saúde debilitada e a falta de aparelhos de intubação.

Ele conta que as autoridades discutem transportar respiradores de uma região para outra do país, em função do pico de pacientes, e utilizar, eventualmente, os aparelhos existentes em clínicas veterinárias. Os franceses devem compreender que a situação é muito grave e ficar em casa, implora o médico.

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