Pandemia/França

Covid-19: Profissionais de saúde da França criticam escassez de testes e desrespeito ao confinamento

Na França, o número de testes realizados diariamente é considerado baixo por especialistas.
Na França, o número de testes realizados diariamente é considerado baixo por especialistas. Arkadiusz Stankiewicz/Agencja Gazeta/via REUTERS

A Assembleia Nacional francesa votou na noite de sábado (21) para domingo (22) o projeto de lei que permite a instauração de um estado de emergência sanitária de dois meses de duração diante da pandemia do coronavírus. A estratégia adotada pela França para combater o Covid-19 é cada vez mais contestada pelos profissionais de saúde, que criticam a falta de máscaras, a aplicação restrita de testes e um confinamento parcial da população.

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O texto, que vem sendo debatido desde quinta-feira (19) autoriza o governo a tomar medidas imediatas para ajudar empresas, além de adiar o segundo turno das eleições municipais – que deveria acontecer neste domingo – , e prorrogar estado de confinamento. Mas o texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, onde há divergências.

O Conselho Científico dará uma opinião sobre o confinamento na segunda-feira (23). A França contava, na noite de sábado, com 14.459 casos confirmados e 562 mortes causadas pelo Covid-19.

Ao mesmo tempo, o país lida com a escassez de testes e de máscaras, mesmo para os profissionais dos hospitais. O ministro da Saúde, Olivier Véran, anunciou no sábado ter encomendado 250 milhões de máscaras que serão distribuídas “progressivamente”, numa tentativa de acalmar os ânimos. Véran disse também, durante uma coletiva de imprensa que a França “é um dos primeiros países europeus em matéria de testes”. Mas as autoridades francesas continuam a testar apenas os casos graves e realizam somente 4.000 testes por dia, enquanto a Coreia do Sul realiza 20.000 testes diários.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma orientação clara: testar o maior número de pacientes. “Testar, testar, testar, não se combate um incêndio de olhos fechados”, disse o diretor geral da OMS, Tedros Adhanon Ghebreysus.

Gilles Pialoux, médico titular e chefe do setor de doenças infecciosas do Hospital Tenon, em Paris, denuncia no canal de jornalismo independente Brut – que ficou famosos na cobertura da crise dos “coletes amarelos” em 2018/2019 – que a França só testa profissionais de saúde com sintomas do coronavírus, pessoas com sintomas que são hospitalizadas ou pessoas com sintomas e doenças graves associadas.

“Enquanto Singapura e Itália testam uma grande quantidade de pessoas, a França se limita a estes casos. Testamos pouquíssimo, não temos máscaras suficientes para os médicos que estão na linha de frente, isso é ridículo”, desabafa o médico. Pialoux alerta também para outro problema: “Se uma pessoa tem sintomas e não é testada, isso vai mudar o comportamento dela. Ainda não temos um estudo científico para provar, mas a percepção de prevenção de uma pessoa que sai com o exame positivo é outra. Ela automaticamente toma mais cuidado para não contaminar os outros. Quando não têm o resultado, inconscientemente expõem mais os outros”.

Pauline Londeix, co-fundadora do Observatório da Transparência da Política de Medicamentos denuncia, no jornal Le Parisien, que “o atraso da realização massiva de testes e a leveza do confinamento imposto pelo governo são irresponsáveis”. “Por sua incompetência, o governo está num atraso incompreensível. Os exemplos de Nova York e da Alemanha mostram que fazer testes em massa é possível e eficaz. Estes erros (do governo francês) nos colocam em perigo”, alerta.

A deputada e ex-ministra da Ecologia, Delphine Batho, alerta que “apenas uma campanha de testes em massa pode identificar os portadores assintomáticos do vírus e organizar o isolamento destas pessoas”.

Confinamento leve demais ou indisciplina?

A esse problema, soma-se a indisciplina dos franceses para cumprirem as regras de confinamento. Bosques como o Bois de Vincennes, no leste de Paris, e Bois de Boulogne, a oeste, continuam atraindo famílias que vão passear juntas. O mesmo acontece com as florestas, como a de Fontainebleau. O jornal Le Parisien deste domingo (22) alerta para o fato: “São numerosos os franceses que não entendem por que não podem ir passear em bosques e florestas, já que nestes lugares a distância de um metro pode ser respeitada. Mas se todos tiverem a mesma ideia ao mesmo tempo, o grande afluxo impedirá que esta regra, essencial à prevenção, seja aplicada. Sem falar que os eventuais acidentes mobilizariam inutilmente equipes de socorro e corpo médico, que já estão bastante ocupados”, explica o jornal num box chamado “Clarificação”.

O jornal conservador Le Figaro lançou neste domingo, em seu site, uma pesquisa on-line para saber se as regras do confinamento devem endurecer. No final da manhã, 82% dos votantes diziam que sim, e 18% que não, de um total de 161 mil votos.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, em entrevista ao jornal Le Parisien deste domingo defendeu um confinamento muito mais severo. “A cada vez que saímos de casa, colocamos os outros em perigo”, disse. A prefeita, que é candidata à reeleição e teve 29,33% dos votos no primeiro turno das municipais do domingo passado (15), transformou o seu gabinete em uma “sala de guerra” (contra o Covid-19), uma célula de crise para gerenciar medidas contra a pandemia.

Dentre as medidas recentes, a prefeitura anunciou a gratuidade de creches para filhos de profissionais de saúde e o fechamento das margens do Sena, dos gramados da esplanada de Invalides e do Champs-de-Mars, onde fica a Torre Eiffel, tradicionais locais de passeios e piquenique entre parisienses e turistas. Ginásios para os migrantes acampados nas ruas e a utilização das cantinas escolares para a preparação de refeições para moradores de ruas, cerca de 3.500 em Paris, segundo a prefeitura, também estão entre as medidas anunciadas por Anne Hidalgo.

 

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