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França limita uso da cloroquina para casos graves e sob estrito controle médico

O médico Didier Raoult insiste em utilizar um coquetel de cloroquina associado ao antibiótico azitromicina para combater o coronavírus apesar da resistência da comunidade científica.
O médico Didier Raoult insiste em utilizar um coquetel de cloroquina associado ao antibiótico azitromicina para combater o coronavírus apesar da resistência da comunidade científica. AFP/Gérard Julien
Texto por: Daniella Franco
6 min

O uso da cloroquina, remédio contra a malária que está sendo utilizado pelo Hospital Universitário de Marselha no combate ao coronavírus, continua gerando controvérsia na França. Para tentar acalmar a polêmica, enquanto a eficácia da substância não for comprovada, o governo francês resolveu enquadrar o uso deste remédio somente para casos graves de Covid-19 e com acompanhamento médico.

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O Hospital Universitário de Marselha, no sul da França, especializado em doenças infecciosas, já está tratando contaminados pelo coronavírus com um coquetel de cloroquina associado ao antibiótico azitromicina, de eficácia comprovada contra pneumonias. A substância é administrada sob a orientação do professor Didier Raoult, diretor do Instituto Mediterrâneo de Infecção de Marselha. O especialista afirma ter testado o remédio com sucesso em 24 pacientes, entre os quais três quartos teriam sido curados em seis dias.

Na noite de segunda-feira (23), o ministro francês da Saúde, Olivier Verán, declarou em coletiva de imprensa que o tratamento que vem sendo administrado por Raoult em Marselha também poderá ser utilizado pelas equipes médicas que desejarem em breve, mas sob condições. A recomendação é utilizar o coquetel somente para os casos graves de coronavírus e sob vigilância médica estrita.

Verán frisou que está excluída a possibilidade que os médicos possam receitar a cloroquina para doentes comprarem nas farmácias e também a pacientes que foram contaminados pela Covid-19, mas passam bem. "O Alto Conselho de Saúde Pública da França não está de acordo com a utilização deste tratamento em ausência de recomendação, com exceção de formas graves da doença, mas com decisão do colégio médico e sob vigilância medical estrita", afirmou o ministro.

Nenhum estudo científico reconhecido comprova eficácia do remédio

O motivo é que não há, até um momento, um estudo científico reconhecido pela comunidade médica que comprove a eficácia da substância. Por isso, o Alto Conselho de Saúde Pública da França convidou sete diferentes grupos de especialistas para formular um parecer sobre o uso da cloroquina para pacientes contaminados com a Covid-19. O resultado deve sair em 15 dias, segundo Verán. Até lá, o ministro faz um apelo por paciência.

O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, também indicou, na noite de segunda-feira, que mais de 800 pacientes farão testes clínicos com o medicamento. Sobre a possibilidade de disponibilizar o antimalárico nas farmácias, o premiê foi taxativo: "Não vamos autorizar a comercialização da cloroquina".

Polêmica sobre a substância

Muitos médicos franceses e os 39 hospitais públicos de Paris se posicionaram contra a utilização da cloroquina para tratar pessoas contaminadas pelo coronavírus, sem o aval de mais pesquisas. Especialistas não poupam críticas ao médico de Marselha e alertam para os vários efeitos colaterais da molécula, entre eles, disfunção do músculo ciliar, distúrbios gastrintestinais, cefaleia, toxicidade ocular e toxicidade cardiovascular.

Uma das principais opositoras ao tratamento de Raoult é a chefe do serviço de doenças infecciosas do Hospital Saint-Antoine de Paris, Karine Lacombe. Segundo ela, o diretor do Instituto Mediterrâneo de Infecção de Marselha gera "uma falsa esperança". Ela classifica o uso da cloroquina em Marselha como "escandaloso" e "antiético".

"É preciso parar de pensar que esse medicamento é mágico", advertiu Xavier Lescure, especialista de doenças infecciosas e tropicais do Hospital Bichat, em Paris. Em entrevista ao canal de televisão TF1, ele lembrou que é preciso provar que a cloroquina é eficaz contra a Covid-19.

Em entrevista ao jornal Le Monde, uma das vencedoras do Nobel de Medicina de 2008, a francesa Françoise Barré-Sinoussi, também pede prudência sobre a utilização da cloroquina, antes que sua eficácia seja provada de "maneira rigorosa". "Sejamos pacientes", afirma a líder de um comitê de análise de pesquisa criado pelo governo francês.

Didier Raoult, o médico que administra cloroquina em Marselha

A atitude do especialista que insiste em continuar o tratamento de pacientes contaminados pelo coronavírus com um coquetel de cloroquina associado ao antibiótico azitromicina é destaque na imprensa francesa desta terça-feira (24). A aparência do médico, entre profeta, gaulês ou roqueiro, chama atenção dos jornais franceses. Exibindo uma foto do infectologista em página inteira, o diário Libération pergunta em sua manchete: "Cloroquina: esperança ou milagre?"

O diário brinca que o médico distribui "não uma poção mágica, mas um antimalárico que ele garante que cura o coronavírus". "Começamos confiando nele. Mas, com atraso, nos resignamos a testar esse medicamento que ele administrou com sucesso, ao que parece, a pouco mais de vinte pessoas. Sábia decisão que deveria colocar fim à polêmica", afirma o jornal.

"Com sua barba e seus longos cabelos brancos, Didier Raoult tem mais o look de um roqueiro de maio de 1968 do que um professor de medicina", afirma o jornal Le Figaro. "No entanto, esse infectologista de renome internacional está sob os holofotes (…) criando esperança para muitos doentes", publica, lembrando que ele é visto como "gênio" por uns e "bruxo" por outros.

Se ele tem razão ou não, o jornal regional Sud-Ouest afirma que é preciso esperar o resultado dos estudos sobre a cloroquina. Por outro lado, o diário reitera que "na guerra declarada contra o vírus, o início de outras pesquisas mostra que a França e a Europa não querem negligenciar nenhuma pista".

Sud-Ouest também acredita que é preciso investir em outros métodos, como submeter o maior número possível de pessoas ao teste do coronavírus para isolar os contaminados. "A Coreia do Sul colocou essa política em prática de forma brilhante e, na Alemanha, esse método parece trazer frutos e limitar – até o momento – o número de mortos", pontua o jornal.

 

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