VÍDEOS: Quando os animais invadem os espaços urbanos, no meio da pandemia de Covid-19

Animais invadem as cidade desertas por causa da quarentena.
Animais invadem as cidade desertas por causa da quarentena. © Fotomontagem RFI

O célebre escritor francês Jean de La Fontaine (1621-1695) dizia: “eu me sirvo dos animais para instruir os homens”. Autor de fábulas que marcaram os séculos, como “A Cigarra e a Formiga” ou “O Lobo e o Cordeiro”, seus personagens parecem ter invadido as ruas e meandros de algumas das principais cidades do planeta, incentivados pelo confinamento dos humanos, face à pandemia da Covid-19. 

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O movimento dos bichos sem a presença humana, algumas vezes motivado pela fome e pelo medo de predadores (como a invasão de pavões reais nas ruas de Madri), outras por simples curiosidade (como o cervo que brinca de pular ondas na região dos Landes, na França) continua emocionando internautas em todo o planeta. Confira uma seleção desses momentos, acompanhados de trechos de obras de La Fontaine e de outros escritores franceses que desenvolveram uma relação literária pra lá de especial com os animais, como Wajdi Mouawad, Colette, Voltaire e Victor Hugo.

1 - Ao sul da região parisiense, a cidade de Boissy-Saint-Leger acordou deslumbrada com o barulho do casco de... cervos!

Só lhes falta a palavra; se tivessem, ousaríamos matá-los e comê-los? Quem seria o bárbaro que poderia assar um cordeiro, se esse cordeiro nos houvesse conjurado, com um discurso cheio de ternura, à espera de nos tornarmos ao mesmo tempo assassinos e antropófagos?" 

(Voltaire, 1694-1778, escritor e filósofo francês)

2 - Quando os javalis passeiam pelas Ramblas, em Barcelona, na Espanha.

Vermelho entre os humanos, visível desde as nuvens, ele corria de uma rua para outra, de uma avenida para outra, atravessando becos e jardins, tão pequenos vistos do céu, tão lentos vistos de lá de cima, na urgência de fazer seu coração bater para frente, sempre mais rápido, sempre mais.

“Anima” (Wajdi Mouawad, escritor, dramaturgo, ator e diretor franco-libanês, hoje diretor do Teatro Nacional de La Colline, em Paris)

3 - Na ilha italiana da Sardenha, o milagre dos golfinhos que voltam a aparecer no porto.

No fundo dos mares, existem peixes monstruosos dotados de fala. Uma língua há muito esquecida que eles expressam em um idioma antigo, o da dor e da tristeza. Quem dos humanos mergulharia para se juntar a eles e aprender com eles como falar e decifrar esse idioma? Este humano, se voltasse à superfície, teria dentro de sua boca azulada pelo frio os fragmentos de uma linguagem desaparecida da qual o alfabeto procuramos incansavelmente. Aprenderíamos a falar novamente, inventaríamos novas palavras."

“Anima” (Wajdi Mouawad, escritor, dramaturgo, ator e diretor franco-libanês, hoje diretor do Teatro Nacional de La Colline, em Paris)

4 - Na região de Landes, no sudoeste da França, um cervo pula as ondas na praia deserta, no meio da pandemia de Covid-19. A alegria do animal viralizou nas redes sociais francesas.

"Não existe um só animal que não reflita o infinito"

(Victor Hugo, um dos maiores romancistas franceses do século XIX, que pressionou o Congresso francês a adotar a Lei Grammont em 1850, que sanciona os maus tratos contra animais domésticos)

5 - Quando as cabras invadem as ruas do País de Gales, no Reino Unido.

“Kiki-Docinho [a gata]: É um provérbio oriental. Se eu quisesse, cachorro, perturbar o silêncio desta sala, eu poderia escolher habilmente, para me limpar ali, uma cadeira mal apoiada, cujos pés martelassem regularmente: "toc, toc, toc, toc" ao ritmo da minha língua. É a maneira que eu inventei para me dar liberdade. "Toc, toc", diz a cadeira. Ela, que lê ou escreve, fica irritada e grita: "Cale a boca, Kiki. Dona de todos os meus direitos, eu me lavo inocentemente. "Tique-taque, tique-taque. "Ela entra em pânico e abre a porta para mim, que levo muito tempo para atravessar, com um passo de exílio... lá fora, corro o risco de me sentir superior a todos.

Toby-Cachorro, que não ouviu, bocejando: Que semana triste, hein? Já esquecemos como é uma caminhada. Desde que ela caiu do cavalo, não tenho mais prazer em comer.

 Kiki-Docinho: Meu Deus, nós podemos amar as pessoas e cuidar de nossos estômagos.

 Toby-Cachorro: Eu não, eu não! Quando ela caiu do cavalo e gritou, senti meu coração se partir."

(Colette, 1873-1954, premiada escritora, atriz e jornalista francesa, vencedora do prêmio Goncourt e do Nobel de Literatura de 1948)

6 -  Pinguins passeiam pelo Chicago's Shedd Aquarium

Com que direito você coloca pássaros em gaiolas?

Com que direito você tira esses cantores das pradarias,

Das fontes, ao amanhecer, da nuvem, dos ventos?

Com que direito você rouba a vida daqueles que vivem?

(Victor Hugo)

7 - Quando a polícia de Paris "escolta" dona pata e seus patinhos pelas marginais da capital francesa, no meio da pandemia (e posta nas redes sociais!):

Os animais têm essa vantagem sobre os seres humanos, eles não podem ser tolos” (Victor Hugo)

8 - Um jacaré atravessa tranquilamente a rua em Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil.

Não tenho nenhuma piedade. Meu ventre é imenso. Minha boca é imensa. E minha fome não tem fim. Sempre esfomeado, quero sempre mais. Eu sou um sorriso sem sentimento, eu mordo tudo. Eu sou atraído pelo sangue. Eu vivo nos mangues, nos rios, mas também posso muito bem viver nos esgotos, e os homens me chamam de Crocodilo [trocadilho em francês com o verbo “croquer”, “morder”], mas nada pode ser mais Crocodilo que um Humano. (...) Escolhi o lugar menos disputado. Junto ao tubarão branco e o urso grizzli, sopu o predator mais perigoso do Humano. É bom que alguns dentre nós lhes façam sofrer o que eles impõem aos elefantes, roubando suas presas; aos rinocerontes, roubando seus chifres.”  

“O Crocodilo” (Wajdi Mouawad)

9 - Cervos invadem as ruas no Japão.

Novilhas, Cabras e Ovelhas, em companhia do Leão

A novilha, a cabra e as irmãs, as ovelhas,

Com um orgulhoso Leão, senhor do bairro,

Estabeleceram sociedade, como eles diziam, nos velhos tempos,

E juntaram o lucro e o dano.

Nos lagos da Cabra, um cervo foi capturado.

Para seus associados, foi imediatamente enviado.

(La Fontaine)

10 - A batalha dos macacos, na Tailândia.

"A galinha dos ovos de ouro

A avareza perde tudo querendo tudo ganhar.

Eu não quero, como testemunha,

Nada senão aquele galinha, que, de acordo com a fábula,

Colocava um ovo de ouro todos os dias.

Ele acreditava que ela tinha um tesouro dentro de seu corpo.

Ele a matou, abriu, e a achou semelhante

a aquelas cujos ovos não lhe traziam nada,

Tendo ele mesmo matado o mais belo de seus bens.

Boa lição para os avarentos:

Nos últimos tempos, quantos vimos

Que da noite para a manhã ficaram pobres

Querendo ser ricos cedo demais?"

“A Galinha dos Ovos de Ouro” (La Fontaine)

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