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Imunidade passiva: médica explica como a transfusão de plasma pode ser um tratamento contra Covid-19

Paciente de Covid-19 com respiador nasal é tratado em uma unidade de pneumologia do hospital de Vannes, na França, em 20 de março de 2020.
Paciente de Covid-19 com respiador nasal é tratado em uma unidade de pneumologia do hospital de Vannes, na França, em 20 de março de 2020. REUTERS - STEPHANE MAHE
Texto por: RFI
7 min

Chefe do departamento de doenças infecciosas e tropicais do Hospital Saint-Antoine, em Paris, a Prof. Dra. Karine Lacombe pilota um estudo sobre a transfusão de plasma de pacientes curados da Covid-19 em outros doentes internados com coronavírus. Segundo ela, o tratamento pode evitar que pacientes em estado grave precisem de terapia intensiva. 

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Por Caroline Paré e Ophélie Lahccen

“Trata-se de usar o princípio da imunidade passiva”, resume Lacombe em entrevista à RFI. “Quando um paciente desenvolve a Covid-19, ele desenvolve anticorpos para o vírus. Estes anticorpos estão presentes no plasma. Uma vez curado o paciente, esses anticorpos permanecem. Receber esses anticorpos neutralizantes pode permitir que pessoas doentes, que ainda não desenvolveram anticorpos, tenham esses anticorpos disponíveis para combater o vírus”, explica a médica e pesquisadora.

Nesta terça-feira (21), foi anunciado, no Rio de janeiro, que três pacientes em estado grave foram os primeiros brasileiros a receber este mesmo tratamento no último fim de semana. Eles estão internados com Covid-19 no Instituto Estadual do Cérebro (IEC).

A médica infectologista comenta também outros estudos com antivirais que estão em curso, como aqueles com o remdesivir (medicamento desenvolvido para o Ebola), o lopinavir/ritonavir e a hidroxicloroquina. 

RFI - Você continua observando coisas novas, em termos de complicações, como danos a órgãos?

Karine Lacombe -  Com certeza. Inicialmente, o alerta que foi dado focava na doença pulmonar aguda grave. Gradualmente, notamos em toda a Itália, que havia sido afetada dez dias antes de nós, que havia outras complicações que estavam acontecendo, em particular, um estado de hipercoagulação com riscos de acidente vascular cerebral significativo e embolia pulmonar.

Quando a epidemia chegou à França, surgiram outras manifestações clínicas da infecção, como por exemplo, a perda de paladar e olfato que não havia sido descrita anteriormente. Também foi descoberto que muitos pacientes, principalmente idosos, que chegaram com diarreia e febre sem manifestações pulmonares, estavam de fato infectados pela Covid-19, o que não se não tinha visto antes.

Mais recentemente, vimos que alguns pacientes desenvolveram manifestações dermatológicas: erupção cutânea, eritema (um pouco de vermelhidão da pele, que pode ser bastante passageira).

Portanto, existem realmente sinais clínicos muito diferentes do que tínhamos como informação no início da epidemia. Agora que estamos dando um outro passo, estamos começando a ver as consequências a longo prazo, com pacientes com novas manifestações inflamatórias, apenas algumas semanas depois que eles se recuperaram da infecção. É uma infecção que questiona muito nosso conhecimento.

RFI - Atualmente, vários estudos clínicos estão em andamento. Quando vamos obter resultados?

Karine Lacombe -  Existem muitos estudos terapêuticos lançados em todo o lugar. Houve alguns testes na China, muito poucos testes randomizados, mas principalmente o que é conhecido como corte ou grupo terapêutico. Eles mostraram resultados bastante contraditórios sobre a eficácia ou ineficácia dos antivirais lopinavir/ritonavir ou hidroxicloroquina. Os resultados não nos permitiram concluir a eficácia destes tratamentos.

A partir do momento em que começamos a tratar pacientes infectados na Europa, iniciamos grandes estudos terapêuticos que ainda estão em processo de inclusão. Quando o efeito do tratamento não é muito importante, é necessário incluir muitos pacientes para mostrar que esse tratamento é mais benéfico do que nenhum tratamento. Este é o caso do estudo Discovery, que deve incluir mais de mil pacientes para mostrar uma diferença entre os tratamentos disponíveis.

Lembro que estes tratamentos em fase de testes são principalmente antivirais: remdesivir (medicamento desenvolvido para o Ebola), lopinavir/ritonavir, hidroxicloroquina, interferon (um imunomodulador) e o grupo de comparação, sem tratamento específico.

Existem outros estudos em andamento com a hidroxicloroquina, por exemplo. Também existem testes com imunomoduladores, anti-inflamatórios para uma fase posterior da doença. Há também o teste de transferência de imunidade passiva, com a transfusão de plasma de pacientes curados para pacientes doentes.

Para todos esses testes clínicos, é necessário tempo para incluir os pacientes, para se obter os resultados em termos de monitoramento em particular. Portanto, teremos resultados no final de abril, início de maio.

RFI - Você está pilotando um estudo sobre a transfusão de plasma de pacientes curados. Você pode nos explicar do que se trata?

Karine Lacombe -  Trata-se de usar o princípio da imunidade passiva. Quando um paciente desenvolveu a Covid-19, ele desenvolve anticorpos para o vírus. Estes anticorpos estão presentes no plasma. Uma vez curado o paciente, esses anticorpos persistem e, a priori, devem impedir que ele seja infectado novamente. É isso que se desenvolve quando se entra em contato com muitas outras infecções virais, que são imunizantes, como o sarampo.

Receber esses anticorpos neutralizantes - capazes de neutralizar o vírus - pode permitir que pessoas doentes que ainda não desenvolveram anticorpos tenham esses anticorpos disponíveis para combater o vírus.

Foi demonstrado que funciona muito bem para algumas doenças, mas não para outras. Por exemplo, funciona muito bem para sarampo e para SARS-CoV. No vírus animal de SARS-CoV-2, especialmente no chimpanzé, foi demonstrado que a transferência de imunidade passiva controla a infecção por SARS-CoV-2.

Temos sinais interessantes da China, onde cerca de 15 pacientes, em dois estudos diferentes, foram tratados com plasma de convalescentes. Houve um resultado clínico muito bom para esses pacientes. Há também uma série de casos de pacientes vindos dos Estados Unidos que foram tratados e isso funcionou muito bem.

RFI - Quantos pacientes estão participando deste estudo? Em que estágio da doença estão?

Karine Lacombe - Os resultados fragmentados que temos sobre o uso do plasma são resultados obtidos em pacientes que já estavam em terapia intensiva, em uma fase muito avançada da doença.

Decidimos, em nosso teste, chamado Coviplasm, ir mais adiante e testar em pessoas com sinais significativos de inflamação. Esses pacientes chegam ao hospital com dispneia (dificuldade em respirar), mas ainda não estão em terapia intensiva. Nosso objetivo é justamente evitar que entrem na UTI.

De fato, em alguns países, não há leitos suficientes em terapia intensiva para acomodar todos os pacientes que passaram para essa fase inflamatória, o que requer ventilação artificial.

Decidimos, portanto, testar em pacientes hospitalizados, que precisam ou não de oxigênio, mas que correm o risco de piorar. Decidimos voluntariamente não administrar esse tipo de tratamento em pacientes ambulatoriais (fora do hospital), porque sabemos que a maioria deles se cura espontaneamente em 5 a 6 dias.

RFI - Existe compartilhamento de informações entre todos esses testes? Como pesquisadores e clínicos se mantêm atualizados com o andamento desses estudos?

Karine Lacombe - Temos uma grande rede para compartilhar estudos. Para os estudos realizados na França, a maioria dos principais centros hospitalares participa. Esse também é o caso dos estudos de prevenção que ocorrem fora do hospital. Há muito compartilhamento de informações. No caso do Discovery, ele é um estudo europeu.

Para poder participar desses testes, você deve ter um número suficiente de pacientes. É por essa razão que, nos países do Sul, em particular na África subsaariana, são lançadas iniciativas terapêuticas, mas enquanto não houver muitos doentes, é difícil estabelecer testes clínicos.

Espera-se que haja um compartilhamento de conhecimento entre esses países e os países que foram capazes de conduzir esses estudos e demonstrar a eficácia de certos tratamentos. Isso permitiria que todos os pacientes pudessem se beneficiar dos tratamentos.

 

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