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Imagens aéreas do confinamento mostram uma Paris que ficará para a história

Imagem do filme "Paris vu du ciel", mostra a Praça da Concórdia e a avenida do Champs-Élysées desertas durante a epidemia de Covid-19.
Imagem do filme "Paris vu du ciel", mostra a Praça da Concórdia e a avenida do Champs-Élysées desertas durante a epidemia de Covid-19. © RFI
Texto por: Maria Paula Carvalho
7 min

Os mesmos drones da polícia francesa que ajudaram a controlar o confinamento por causa da Covid-19 registraram imagens que vão ficar para a história. Do alto, vê-se uma Paris imersa em um sono profundo. Um cenário desolador e belo. Assustadoramente calmo. E que tem data para acabar. 

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A partir de segunda-feira (11), a população francesa volta às ruas sem precisar de uma justificativa de deslocamento, como acontecia desde o dia 17 de março, quando o país entrou em isolamento total. Nesse período, as câmeras aéreas foram usadas como ferramentas na difícil missão de manter os habitantes em quarentena. Apesar dos esforços, mais de 12 milhões de controles foram realizados pelos agentes de segurança, que aplicaram mais de 760.000 multas de € 135 euros aos infratores.    

O inferno são os outros

Há oitenta anos, um dos grandes filósofos franceses escreveu: “o inferno são os outros”. Ao proferir essas palavras, no entanto, Jean-Paul Sartre (1905-1980), jamais imaginaria que hoje os outros fariam tanta falta.

Foram oito semanas de comércio fechado, escolas sem aulas, empresas paradas e vida social em suspenso. Uma estratégia firme do governo francês para frear a pandemia de Covid-19 e diminuir a sobrecarga nos hospitais.

Uma decisão que se mostrou eficaz do ponto de vista sanitário, evitando ao menos 60.000 mortes pelo coronavírus, de acordo com um estudo da Escola Francesa de Saúde Pública. Mas que também deixou marcas profundas na economia do país, que entrou oficialmente em recessão, depois de registrar uma queda do PIB de 5,8% no primeiro trimestre do ano; o pior índice desde 1949.

O remédio amargo contra o vírus mudou a rotina e o cenário da Cidade Luz.

O vídeo produzido pelo ministério do Interior mostra Paris em dias bizarros, que entrarão para a posteridade como um dos maiores desafios já enfrentados na França moderna. Ninguém diante da catedral de Notre Dame, que teve o canteiro de obras paralisado por conta da epidemia, e onde as atividades só foram retomadas na segunda-feira (4).

“A ideia era mostrar a capital francesa como jamais vemos. Em tempos normais, não podemos usar drones dessa forma, pois há questões de segurança envolvidas”, explica à RFI Javier Namour, responsável pelo setor de fotografia e vídeo do serviço de comunicação do ministério do Interior. “A filmagem foi interessante para ver se o confinamento foi cumprido, mas também tem um valor estético, ao mostrar os museus e o rico patrimônio arquitetônico de Paris, uma cidade tão bonita”, acrescenta.

Vista do alto, em pleno confinamento, a movimentada Praça de Saint Michel, no Quartier Latin, deixou de ser a mesma. Palco de tantas manifestações, a Praça da República também parece ter entrado num silêncio sepulcral. Enquanto o jardim das Tuileries, o mais antigo de Paris, criado no século XVI, perdeu o vai e vem habitual dos turistas. Assim como a Praça da Concórdia, ornamentada pelo obelisco do templo de Luxor, presente recebido pela França, de 3.300 anos.

Plano detalhado de filmagem

A operação de filmagem exigiu um plano detalhado. Era preciso delinear um trajeto adequado para o voo dos drones, sem a interferência de antenas ou cabos que pudessem atrapalhar o visual. Além disso, a meteorologia foi determinante, já que as imagens deveriam ser feitas com condições ideais de visibilidade e vento. “Fizemos vários dias de gravações, com sobrevoos de curta distância e a aproximadamente 50 metros de altura. Outras capitais também aproveitaram o confinamento para manobras assim”, afirma Namour.

Berço do luxo e da sofisticação, a avenida do Champs-Élysées, uma das mais belas do mundo, ficou inerte. Em tempos normais, esse ponto turístico da arquitetura e paraíso de compras recebe, em seus 2 quilômetros de extensão, cerca de 300.000 visitantes por dia. As cenas raras, filmadas do céu, mostram cartões postais transformados sem a presença humana.

Felizmente, Paris tem data para acordar desse repouso absoluto: 11 de maio marca a abertura gradual das atividades, quando os moradores retomarão o direito de ir e vir. E de flanar pelas avenidas e ruelas de sua metrópole milenar. Ainda que de uma forma diferente: portando máscaras, mantendo distância uns dos outros, protegidos e atentos contra uma ameaça invisível, mas ainda presente. Como alertam as autoridades de saúde, os franceses terão de aprender a conviver com o vírus.

“Certamente são registros de momentos únicos, pois Paris nunca havia parado assim. Mas eles só passarão para a posteridade quando tudo isso terminar e a vida voltar ao normal”, conclui, prudentemente, Javier Namour.

Guerra sanitária

Erguido há 200 anos para comemorar as vitórias militares de Napoleão Bonaparte (1769-1821), o Arco do Triunfo testemunha atualmente uma guerra sanitária, cuja maior batalha acontece dentro dos hospitais. De acordo com um balanço recente, 23.200 pessoas continuam internadas, quase 3.000 em UTIs.

Em plena epidemia, a celebração pelo fim da Segunda Guerra Mundial, nessa sexta-feira (8), aconteceu de forma discreta. Acompanhado de poucas pessoas, o presidente Emmanuel Macron participou de uma cerimônia em formato reduzido no túmulo do soldado desconhecido e depositou flores diante da estátua do general de Gaulle, chefe da resistência francesa.

Em tempos de coronavírus, a bandeira tricolor da França tremula, dia e noite, na Praça da Étoile, formada pela junção de 12 importantes avenidas da capital. Além de comemorar a vitória sobre os alemães, há 75 anos, o símbolo nacional nas cores azul, branco e vermelho, também homenageia hoje os mais de 25 mil franceses mortos pela Covid-19 e todos aqueles que vivem e trabalham para proteger a população.

Paris confinada

Inúmeros profissionais de comunicação visual aproveitaram a calmaria da quarentena para realizar trabalhos inusitados. “Paris confinada” é um filme de 3 minutos que presta homenagem à riqueza arquitetônica da capital francesa, bem como aos homens e mulheres que continuam a mantê-la viva, ainda que reclusa.

Durante 25 dias, os diretores Marc Didier (Skydrone Film) e Christophe Lyard, (Futuria Production) capturaram essa atmosfera incomum, a fim de mostrar como a cidade e seus habitantes passaram por esse momento tão particular.

Do céu e graças a dezenas de horas de filmagens usando um drone, o trabalho proporciona, ao mesmo tempo, uma visão imutável da capital francesa e de sua herança histórica, e um parêntese instantâneo da solidariedade humana expressa durante a pandemia.

O filme testemunha uma cidade aparentemente confinada, em que a visibilidade de determinadas tarefas e ofícios se revela pela urgência da crise sanitária. Os autores destacam o contraste entre a imobilidade imposta pelo isolamento e a nova percepção de tarefas que sempre existiram, mas ninguém via e valorizava.

Trata-se de um tributo aos “invisíveis”, seguido de um muito obrigado. Um reconhecimento ao trabalho de carteiros, entregadores, garis, costureiras, caixas de supermercado, policiais, professores, médicos, enfermeiros e tantos outros profissionais que deixaram de lado seus medos para aliviar as dores e suprir necessidades de outros franceses.

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