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Morre aos 94 anos Michel Piccoli, monstro sagrado do cinema francês

Morreu o ator francês Michel Piccoli aos 94 anos.
Morreu o ator francês Michel Piccoli aos 94 anos. AP - Laurent Gillieron
Texto por: RFI
6 min

Renoir, Melville, Godard, Buñuel, Resnais, Hitchcock, Chabrol, Costa-Gavras, Varda, Demy, Lelouch, Carax. Os nomes dos grandes diretores que trabalharam com Michel Piccoli ilustram o brilhantismo da carreira deste ator, considerado um verdadeiro "monumento" do cinema e do teatro francês, e europeu. Entre popular e iconoclasta, entre grandes sucessos e cinema marginal, Piccoli nunca hesitou em desconstruir sua imagem, seja na cena do teatro, seja na tela de cinema. A França se despede nesta segunda-feira (18) de um ícone, que faleceu no dia 12 de maio.

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Talvez seja a calvície precoce. Ou a sobrancelha espessa. Ou até mesmo seu olhar penetrante. A menos que fosse seu sorriso, sempre travesso, ou seus 1,82 m de altura, medidas bastante incomuns para franceses nascidos antes da Grande Guerra. Mas o fato é que Michel Piccoli, que morreu em 12 de maio aos 94 anos – sua morte só foi anunciada nesta quarta-feira (18) – sempre manteve uma aura de mistério. Um recurso encantador para um homem e uma qualidade preciosa para qualquer ator.

Esse grande ator foi um daqueles artistas raros que instantaneamente dão profundidade e peso aos papéis que encarnam. E como houve papéis! Quando se olha para sua filmografia, é possível ter vertigem ao ver desfilar os nomes dos diretores com quem ele trabalhou. Renoir, Melville, Godard, Buñuel, Ferreri, Resnais, Hitchcock, Chabrol, Costa-Gavras, De Broca, Boisset, Rivette, Sautet, Tavernier, Malle, Cavalier, Ruiz, Varda, Demy, Lelouch, Miller, Moretti, Carax, para citar apenas os principais. Quem mais, em todo o cinema francês, pode se orgulhar de ter sido dirigido por esta infinidade de diretores?

Mas sua imensa carreira, com mais de 200 filmes, levou tempo para decolar. Com efeito, foi apenas aos 38 anos, em O Desprezo (1963), obra-prima de Jean-Luc Godard, que Piccoli se revela para o grande público, quando já havia participado de mais de 60 filmes para a televisão. E foi aos 40 anos, depois de Dom Juan ou O Banquete de Pierre (1965) de Marcel Bluwal, na televisão, que ele se tornou verdadeiramente famoso.

"Linhas retas me entediam”

Em pouco tempo ele se tornaria um dos principais atores do cinema europeu, alcançando todos os públicos, tanto o de Luis Buñuel quanto o de Claude Sautet, seja o  cinema intelectual ou o popular, uma distinção que ele sempre desafiou com força. "Avanço nos trilhos, mas eu amo que a locomotiva faça desvios. As linhas retas me entediam”, ele confidenciou à revista Télérama, em 2001. Sempre em movimento para desconstruir sua própria imagem, ele às vezes chegou ao limite da transgressão como em A Comilança (1973), um de seus seis filmes sob a direção de Marco Ferreri.

No seu melhor momento como ator, seja tanto em papéis de manipuladores subversivos quanto burgueses em crise existencial, ele se destacou com o (também transgressor) Buñuel, seu diretor favorito, uma colaboração que durará dez anos e seis filmes, assim como com Ferreri, em Segredos de Alcova (1964), ou sob a batuta do espanhol, em O Fantasma da Liberdade (1974). “Um ator e um cineasta são duas pessoas que se observam constantemente. Estou trabalhando com um diretor para entender por que ele me escolheu e até onde ele me permite ir em seu maior segredo”, disse ele sobre sua colaboração com o cineasta hispânico-mexicano.

Rejeição ao star system

Sob a direção de Claude Sautet, ele realizou quatro filmes, incluindo dois – As Coisas da Vida (1970) e Max e os Duelistas (1971) – com Romy Schneider como parceira, com os quais Piccoli alcança patamares gigantes de popularidade, mas o ator rejeitava o "star system". "Eu nunca me recusei a ser uma estrela. Mas eu nunca quis ser uma", disse à Télérama. "Quando vi que havia uma receita que agradava", continuou ele, "isso me fez querer mudar. Eu sempre procurei outros mundos”, disse.

Vencedor do Prêmio de Interpretação em Cannes para Le Saut dans le Vide (O Salto no Vazio, 1980), ele foi indicado quatro vezes para o César (espécie de Oscar do cinema francês).

Entre 1974 e 1994, Michel Piccoli costumava fazer cinco filmes por ano, o que não o impediu de voltar aos palcos de teatro, onde começou sua carreira em 1945, aos 20 anos. Nós o vemos tocando tanto o repertório clássico em Fedra (Racine), ou na cena de La Fausse Suivante ou Le Fourbe Puni (Marivaux), no Conto de Inverno (Shakespeare), nos Jardim das Cerejeiras (Tchecov), além de se arriscar em criações contemporâneas como Combat de Nègre et de Chiens et Le Retour au Désert (Koltès), Terra Estrangeira (Schnitzler) ou La Maladie de la Mort (Marguerite Duras).

Nunca satisfeito, embora tenha diminuído um pouco o ritmo com a idade, ele triunfou durante duas temporadas seguidas no Théâtre de l'Odéon em Paris, com sua versão para o Rei Lear, de Shakespeare, com mais de 80 anos, um papel que ele recusou repetidamente e que acabou lhe rendendo duas indicações ao Prêmio Molière, a maior honraria do teatro francês, em 2006 e 2007.

Quando ele completou 90 anos, o vimos novamente, excelente, como um papa em dúvida em Habemus Papam, de Nanni Moretti, e depois, com um papel menos substancial em Holy Motors, de Leos Carax, dois filmes que ainda satisfazem seu gosto pelo não conformismo, ambos apresentados em seleção oficial no Festival de Cannes, respectivamente em 2011 e 2012.

Com posições de esquerda ao longo de sua vida, mas decepcionado, como muitos, pela política nos últimos quinze anos, Michel Piccoli veio de uma formação artística e burguesa. Nascido em 27 de dezembro de 1925, no 13º distrito de Paris, ele teve pais musicais: pai italiano e violinista, mãe herdeira de industriais ricos e pianista nos Concertos Colonne. Foi-lhe prometida a direção da fábrica de pintura de seus avós maternos, mas Piccoli sempre pareceu querer fugir dessa burguesia que ele tanto encarnou em alguns de seus papéis na tela grande.

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