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Será o fim do beijo para cumprimentar? Pandemia ameaça um dos rituais mais tradicionais da França

O presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, se cumprimentam no Palácio do Eliseu, em 13 de junho de 2017.
O presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, se cumprimentam no Palácio do Eliseu, em 13 de junho de 2017. AFP/Patrick Kovarik
Texto por: RFI
4 min

Quem já veio à França deve ter se deparado com o ritual obrigatório da “bise”: os dois, três ou até cinco beijos no rosto trocados como forma de cumprimento. A tradição não acontece apenas em situações informais: comum no âmbito profissional, até mesmo o presidente Emmanuel Macron respeita esse hábito em seus encontros com chefes de Estado. Mas, em tempos de coronavírus, essa regra de saudação está ameaçada.

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La bise”, o beijo de cumprimento na bochecha, é uma regra seguida em toda a França e serve para todas as ocasiões, informais ou não. Todos os dias, os colegas de trabalho se saúdam seguindo o ritual. Homens também trocam beijos, que variam de quantidade em relação à região do país, indo de dois até cinco. Esse hábito também é utilizado para agradecer ou felicitar alguém por algo.

A tradição chegou a incomodar alguns chefes de Estado. Na época em que Nicolas Sarkozy era presidente da França (2007-2012), a chanceler alemã Angela Merkel não escondia seu constragimento de ter que ceder suas bochechas aos beijos do francês. No entanto, a líder parece ter se acostumado com a tradição e atualmente cumprimenta Emmanuel Macron sem demonstrar contrariedade.

“O beijo faz parte dos rituais de interação. Ele é cheio de códigos”, explica o antropólogo francês David Le Breton, em entrevista à France Info. “Ele é sempre acompanhado de uma série de gestos. Podemos deixar uma certa distância ou nos inclinar, guardar as mãos nos bolsos ou nos abraçar”, indica.

Distância social prejudicou a bise

No entanto, com as recomendações do governo francês durante a pandemia para que os cidadãos evitem o contato físico e respeitem a distância social, a bise teve de ser deixada de lado, seja entre chefes de Estado, colegas de trabalho, amigos ou familiares. Muitos já sentem saudades do ritual, que consideram caloroso e convivial.

“Faz muita falta, sinto pena de ter que renunciar a isso”, afirma a estudante Mélodie Ricaud, de Montpellier, no sudeste da França, onde as pessoas se cumprimentam com três beijos na bochecha. A jovem diz que a pandemia a obrigou a adotar o “namastê”, saudação com as mãos unidas na altura do rosto.

Fatima Boulamaat, que vive no bairro popular de Petit Bard, também em Montpellier, recorreu à tradição de seus ancentrais para saudar os amigos. “Cumprimento os amigos como minha avó marroquina o fazia, colocando a mão direita sobre o coração e olhando diretamente nos olhos das pessoas, para que sintam meu carinho”, explica.

Para outros franceses, o fim da bise – um cumprimento às vezes considerado constrangedor, exagerado ou desnecessário – é um alívio.

“Uma das coisas positivas desta epidemia é o fim dos beijos. Odeio esse costume. Quando eu me afastava rápido para evitar uma boca babando na minha bochecha, as pessoas se ofendiam”, diz a francesa Cécile em um post no Twitter.

A internauta Elise tem a mesma opinião. “Eu acho isso muito estranho. É um contato direto com gente que você não conhece. Você é obrigada a obedecer só porque é um código social”, reitera.

Mudanças de hábitos devido ao coronavírus

A crise do coronavírus provavelmente vai alterar algumas tradições. A pandemia já mudou muitas formas dos franceses se cumprimentarem e as relações físicas.

“As pessoas se deram conta que algumas doenças se transmitem pela saliva. Corremos o risco atualmente de colocarmos na balança o custo de um beijo sistemático em relação a seu benefício social”, afirma à France Info a especialista em economia experimental Marie-Claire Villeval, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica. Desde o início do confinamento na França, ela estuda as consequências do distanciamento social sobre o comportamento das pessoas.

Segundo a pesquisadora, se o corpo é percebido como uma fonte de “alegria, compartilhamento ou prazer”, a epidemia poderia acentuar o aspecto “perigoso” das pessoas, devido à transmissão de doenças. “Antes da crise atual, deformávamos de maneira excessiva o aspecto positivo do corpo. Talvez será o contrário no futuro. É sempre uma questão de equilíbrio”, avalia.

O uso da máscara amorteceu essas mudanças, analisa Marie-Claire Villeval. “Sabemos ler uma emoção ou uma intenção no olhar, mas o sorriso condiciona a interpretação da sinceridade. Com a máscara, isso não existe mais. Vai ser preciso encontrar novos parâmetros”, reitera.

Para David Le Breton, a sobrevivência do beijo vai depender em parte da duração da pandemia. O ritual pode ser retomado quando a ameaça do vírus terminar. “Nas relações muito fortes, familiares ou entre amigos, a bise não vai desaparecer”, sublinha.

Com a popularização dos gestos recomendados pelas autoridades durante a pandemia para evitar o contato físico, outras práticas começaram a substituir o beijo. Como o cumprimento em que os cotovelos ou os pés de tocam.

“Há vários gestos que permitem mostrar que queremos saudar uma pessoa. O sorriso, por exemplo, diz mais do que um beijo convencional, quando, automaticamente, oferecemos nossa bochecha. O sorriso implica em uma pequena doação de si mesmo muito além da bise”, conclui o antropólogo, em entrevista à France Info.

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