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Acusações de cantora francesa sobre violência da polícia geram controvérsia na França

A cantora e atriz francesa Camélia Jordana que denunciou violência da polícia, em uma cena do documentário de François Armanet «Haut les filles».
A cantora e atriz francesa Camélia Jordana que denunciou violência da polícia, em uma cena do documentário de François Armanet «Haut les filles». Sonia Sieff
Texto por: RFI
5 min

Em um vídeo postado nas redes sociais nesta sexta-feira (29), artistas, líderes de movimentos de defesa de minorias e jornalistas manifestam apoio à cantora e atriz francesa Camélia Jordana. Ela foi criticada após ter feito declarações sobre abusos e violências cometidas pela polícia. A polêmica provocou reações do ministro do Interior e de sindicatos de policiais.

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As afirmações de Camélia Jordana foram feitas durante um dos programas de maior audiência do canal France 2, na noite de sábado (23). Um dos entrevistadores, o escritor Philippe Besson, fez uma pergunta sobre as acusações de violência cometidas por policiais, que aumentaram nos últimos anos na França.

“Milhares de pessoas não se sentem seguras diante de um policial, e eu sou uma delas”, declarou a cantora. “Eu estou falando de homens e mulheres que vão trabalhar todas as manhãs nas periferias e são massacrados simplesmente pela cor de sua pele. É um fato”, completou.

No domingo (24), o ministro do Interior, Christophe Castaner, ameaçou denunciar a cantora à Justiça e condenou as palavras de Camélia Jordana nas redes sociais.

“Não, senhora, ‘os homens e as mulheres que vão trabalhar todas as manhãs na periferia’ não são ‘massacrados simplesmente pela cor de sua pele’”, escreveu o ministro. “Essas ideias mentirosas e vergonhosas alimentam a raiva e a violência.”

Diante da polêmica, Camélia Jordana publicou um tuíte na noite de domingo (24) dizendo que estava impressionada com as reações e entusiasmada pela “reabertura do debate público”. A cantora propôs a Castaner um debate sobre o assunto no programa de televisão que o ministro escolhesse.

Na segunda-feira (25), Castaner afirmou à imprensa que não iria levar o caso à Justiça, por dar valor ao debate público, mas acrescentou que a liberdade de expressão não significa dizer “qualquer coisa”.

Redes sociais

Mas a polêmica não parou por aí. Durante toda a semana, artistas e cidadãos comuns reagiram mostrando apoio à Camélia Jordana nas redes sociais com a hashtag #JesuisCamélia (eu sou Camélia).

Em um vídeo postado nesta sexta-feira (29) nas redes sociais, por iniciativa do site Cerveaux Non Disponibles (Cérebros não disponíveis), próximo ao movimento dos coletes amarelos, artistas, esportistas e jornalistas repetem as palavras da cantora. Entre eles, a atriz Aïssa Maiga, o raper Demi Portion, o ex-jogador de futebol Vikash Dhorasso, a cantora Pomme e uma das líderes do movimento dos coletes amarelos Priscilla Ludovsky.

Ludovsky disse, em entrevista à radio France Info na quarta-feira (27), que “na periferia isso sempre existiu, eu sempre vi isso”. Ela defendeu o direito da cantora de se expressar. “O que eu constato é que tem coisas que vemos mais que antes, principalmente depois dos coletes amarelos. O comportamento que pode ter a polícia foi revelado.”

Assa Traoré, irmã de Adama Traoré, que morreu em 2016 durante uma intervenção da polícia, apoiou a cantora no Twitter que, segundo ela, “teve a coragem de dizer em voz alta, o que todos pensam em voz baixa”. O caso Traoré gerou consternação e reações políticas.

Durante um controle policial, Adama Traoré teria tentado escapar e três policias o retiveram segurando o jovem contra o chão. Segundo testemunhas, ele disse que não conseguia respirar. Ele morreu minutos após chegar à delegacia de Persan, na periferia de Paris. Várias queixas foram feitas contra a polícia por homicídio involuntário e não assistência a pessoa em perigo. O caso ainda está sendo julgado.

Queixa de policiais

Em reação, um novo hashtag apareceu #JenesuispasCamélia, de internautas que não concordam com a cantora.

O sindicato de policiais Alliance denunciou as “acusações inadmissíveis contra policiais (racismo, assassinatos...)”, em um comunicado onde disse que levaria a questão à Procuradoria da República e pediu que o ministro do Interior faça o mesmo.

Já o sindicato dos comissários da polícia nacional (SCPN) se manifestou no Twitter, fazendo referência ao concurso de tevê que lançou Camélia Jordana, o Nouvelle Star (nova estrela). “Um testemunho lamentável de uma nova estrela da bobagem que demonstra, em dez minutos, a pobreza de pensamento, acompanhada de argumentos escandalosos e caluniosos sobre o serviço público.”

Em um comunicado, a associação SOS Racismo apoiou a “análise” da cantora e disse ser uma pena que o ministro do Interior tenha condenado as palavras de Camélia Jordana.

Violência da polícia

Camélia Jordana volta a trazer para o debate público uma questão da sociedade francesa que existe há tempos. Os confrontos entre a polícia e moradores das periferias são frequentes e acabaram tomando conta de Paris em 2005, após dois jovens serem eletrocutados depois de fugir de um controle policial. Os distúrbios, que duraram três semanas na época, foram considerados os maiores da história do país depois do movimento de Maio de 68.

Desde o início do movimento dos coletes amarelos em outubro de 2018, associações e a imprensa denunciam o aumento de abusos cometidos por policiais à margem de manifestações. Até maio de 2019, 54 queixas tinham sido arquivadas por falta de provas pela promotoria de Paris e apenas dois policiais foram julgados por violência.

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