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Polarização racial nos EUA é mais intensa do que na França, dizem especialistas

Protesto contra morte do negro francês Adama Traoré, vítima da violência policial, reuniu 20 mil pessoas na noite de terça-feira (2) em Paris.
Protesto contra morte do negro francês Adama Traoré, vítima da violência policial, reuniu 20 mil pessoas na noite de terça-feira (2) em Paris. REUTERS - GONZALO FUENTES
Texto por: RFI
5 min

A manifestação que reuniu 20 mil pessoas na noite de terça-feira (2) em Paris, em frente à sede da polícia na capital, é o principal tema abordado pela imprensa nesta quarta-feira (3). O protesto pediu justiça para o francês Adama Traoré, um jovem negro de 24 anos morto há quatro anos durante uma violenta interpelação policial. As circunstâncias da morte de George Floyd, nos Estados Unidos, reacenderam o debate sobre o racismo e a violência da polícia francesa.

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Adama Traoré morreu em julho de 2016 quando foi detido por três policiais militares no departamento de Val-d'Oise, ao norte da região parisiense. A investigação concluiu que o jovem sofria de uma patologia cardíaca pré-existente e, por isso, morreu. No entanto, uma perícia independente contratada pela família do rapaz diz que ele foi vítima de asfixia, em consequência do peso dos três policiais militares que o mantiveram imobilizado de bruços durante a interpelação.

O jornal Libération relata que a manifestação associando o caso de Traoré ao de Floyd era previsível, mas o que surpreendeu foi o grau de adesão dos participantes. "Foi uma mobilização inesperada pelo tamanho, pela determinação, pela revolta contra a injustiça", apesar do forte policiamento que havia no local. Manifestações semelhantes aconteceram em Marselha, Lyon e Lille. Em Paris, onde o protesto começou pacífico, houve tumulto após a infiltração de um pequeno grupo de indivíduos que vandalizaram o comércio nas proximidades. A polícia reagiu lançando bombas de gás lacrimogênio contra os manifestantes. Dezoito pessoas foram detidas.

Polícia francesa x polícia americana

O pesquisador Jean-Marc Berlière, especializado na história da polícia francesa, diz nas páginas do diário Le Parisien que não considera pertinente colocar no mesmo patamar a violência policial na França e nos Estados Unidos. "A polícia americana tem uma tradição de violência e não vê o menor problema em atirar contra um suspeito". "É incomparável", diz Berlière. "A proporção de casos entre os dois países é de 1 para 40", assegura.

Outro pesquisador da área, Mathieu Zagrodzki, autor de uma tese sobre as duas polícias, concorda com o colega historiador. "Na França, não existem mortes diárias causadas pela polícia", afirma Zagrodzki. Ele admite, por outro lado, que o organismo francês responsável por investigar policiais denunciados por abusos (IGPN) não divulga estatísticas sobre os erros cometidos pelos agentes. São geralmente ONGs e a imprensa que realizam esses levantamentos e elas contabilizam, por exemplo, 47 mortes entre 2007 e 2017, segundo o site StreetPress, ou 578 casos em 42 anos, de acordo com a mídia independente Bastamag.

Para os especialistas franceses, a principal diferença entre a França e os Estados Unidos está na questão das armas. Segundo Zagrodzki, "o policial americano costuma antecipar que o suspeito esteja armado e frequentemente associa os afroamericanos a indivíduos perigosos". Além disso, as polícias nos Estados Unidos são independentes do poder federal, enquanto na França são coordenadas pelo Estado.

O paralelo que pode ser feito, na opinião de Zagrodzki, tem mais relação com a história dos dois países. O passado segregacionista, no caso dos Estados Unidos, e colonialista, em relação à França. "Mas a polarização racial nos Estados Unidos tem muito mais força do que na França", enfatiza.

O jornal Le Monde lembra que, apesar de proibidos devido à pandemia de coronavírus, os protestos franceses estavam anunciados desde 29 de maio nas redes sociais. Entre as centenas de cartazes exibidos pelos manifestantes, havia referências a Eric Garner, que morreu em 2014 em Nova York durante uma operação de detenção, ou a Zyed e Bouna, dois adolescentes franceses que morreram em 2005 em Clichy-sous-Bois, na periferia de Paris, quando fugiam de uma perseguição policial.

Na maioria dos cartazes, via-se o slogan "Vidas Negras Importam", do movimento norte-americano "Black Lives Matter", que surgiu para denunciar e mostrar a maneira agressiva que policiais americanos tratam vidas e corpos negros. Tanto na França quanto nos Estados Unidos, os manifestantes reivindicam justiça para as vítimas do racismo policial e que os agentes sejam acusados e respondam pelos crimes que cometeram. Outra frase recorrente era "Não consigo respirar", palavras ditas por George Floyd e Adama Traoré pouco antes de morrerem.

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