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É necessário banir do espaço público as homenagens a personalidades escravocratas?

A imprensa francesa desta quinta-feira analisa o fenômeno de destruição de estátuas de personalidades ligadas ao passado escravocrata após a morte de George Floyd nos Estados Unidos.
A imprensa francesa desta quinta-feira analisa o fenômeno de destruição de estátuas de personalidades ligadas ao passado escravocrata após a morte de George Floyd nos Estados Unidos. AP - Steven Senne
Texto por: RFI
4 min

Desde a morte de George Floyd nos Estados Unidos, estátuas herdadas do passado escravocrata ou colonial são desmontadas nos Estados Unidos pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), mas também em vários países europeus como a Bélgica ou o Reino Unido. A imprensa francesa desta quinta-feira (11) analisa o fenômeno.

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O último símbolo visado nos Estados Unidos pelo movimento antirracista foi o navegador Cristóvão Colombo, informa o Le Figaro. Estátuas do descobridor da América foram danificadas nessa quarta-feira (10) em Boston, Miami e Virgínia. Cristóvão Colombo é acusado pelos manifestantes de estar na origem do genocídio dos povos ameríndios, diz o jornal conservador.

O presidente Donald Trump declarou ser contrário à mudança de nome das bases militares que têm o nome de generais que defenderam o sul escravocrata na Guerra de Secessão, como pedem os manifestantes antirracistas.

O movimento, provocado pela morte brutal do homem negro por um policial branco, atingiu também um monumento do cinema: o filme “E o Vento Levou”, que foi retirado da plataforma HBO, salienta Les Echos. Como após o escândalo do produtor de Hollywood Weinstein e o movimento #metoo, a morte de George Floy também afeta a programação da televisão, compara o jornal econômico.

O longa que ganhou oito Oscars e é um dos maiores sucessos de bilheteria da história e descreve preconceitos étnicos e raciais que eram muito presentes na sociedade americana. No futuro, ele só será exibido com uma introdução explicando seu contexto histórico e a Guerra de Secessão.

“A queda dos símbolos”

Libération publica um dossiê especial sobre o tema. "A queda dos símbolos" anuncia o jornal em sua manchete de capa. Irônico, o diário se pergunta se o movimento antirracista vai conseguir uma mudança de estátuas, fazendo um trocadilho com a palavra status. Mais sério, o texto questiona se é necessário banir do espaço público as homenagens às personalidades escravocratas e lembra que a relação entre história e memória é complexa.

Destruir as estátuas do chefe sulista general Lee conseguirá apagar o passado de todo um povo? A direita critica qualquer revisão ou arrependimento histórico como um masoquismo anárquico, ditado pelas minorias que querem culpabilizar a nação de hoje em função dos crimes de ontem, analisa Libération.

Mas as coisas não são assim tão simples. O jornal lembra que estátuas públicas e nomes de rua, não são atos de história mas de memória, isto é, são homenagens decididas em um dado momento e que essa admiração muda com o tempo.

Libération dá como exemplo a figura de Napoleão Bonaparte, que teve um papel importante, tanto negativo quanto positivo, na história francesa. Nenhuma rua de Paris leva o nome do imperador e a capital tem apenas duas estátuas dele. Por quê? Os republicanos estimaram que Napoleão era um inimigo que só merecia uma homenagem discreta.

Revisão da história

É compreensível que descendentes de escravos e de povos colonizados questionem hoje essa memória do passado e que a sociedade não admita a persistência dessas homenagens a traficantes de seres humanos. Mas onde estabelecer a fronteira dessa revisão de nomes de ruas e estátuas?

A solução a esse problema complexo seria corrigir a memória pela história, colocando ao lado das estátuas condenadas uma placa explicando o contexto da época, propõe o historiador Pascal Blanchard, entrevistado pelo jornal.

Libération conversou também com a pesquisadora negra Maboula Soumahoro para quem a França vivia uma negação da realidade racial no país. Ela diz que o país preferia denunciar o racismo nos Estados Unidos, mas que agora, com a onda de protestos atuais, é impossível ignorar as “discriminações que são vítimas cotidianamente os não-brancos na França”. “Chegou a hora de inaugurar uma nova relação de forças”, afirma a professora da Universidade de Tours.

 

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