Para a imprensa francesa, discurso de Macron serviu para projetar sua candidatura à reeleição

Os jornais franceses analisam o pronunciamento de Emmanuel Macron na noite de domingo, já de olho na disputa eleitoral de 2022.
Os jornais franceses analisam o pronunciamento de Emmanuel Macron na noite de domingo, já de olho na disputa eleitoral de 2022. © Fotomontagem RFI

Em pronunciamento à nação na noite de domingo (14), o presidente Emmanuel Macron declarou que a França entra em uma nova etapa a partir desta segunda-feira (15), com o recuo confirmado da epidemia de coronavírus. O centrista falou em retomada econômica, plano de relance, reconstrução, ecologia, solidariedade e união republicana. Disse que o "Estado resistiu", atribuindo-se uma nota satisfatória à gestão da crise sanitária que irritou a imprensa.

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Macron parabenizou a si mesmo por ter tomado a decisão de suspender gradualmente a quarentena desde 11 de maio, explica o jornal Libération. Na época, a oposição criticou o presidente, prevendo uma segunda onda da epidemia e, mais grave ainda, dizendo que ele colocava a vida dos franceses em risco. Quatro semanas mais tarde, a França retoma sua liberdade para enfrentar a segunda crise, desta vez econômica e social, uma vez que Macron acertou em sua aposta, mas isso não é suficiente para uma reconquista de popularidade.

O presidente fez um discurso "patriótico", avalia o Libération, ao falar de uma política de relance baseada na ecologia, em sintonia com as ambições europeias. Em seu editorial, o jornal nota que a palavra "independência" foi citada com mais frequência do que investimentos ou ação social. "O objetivo de Macron foi cortar na raiz o afã dos que defendem a soberania nacional", uma narrativa que ganhou espaço durante a epidemia de coronavírus e hoje é disputada pela direita tradicional e a extrema direita francesa, os principais adversários do centrista na corrida eleitoral de 2022.

"Manu, o intrépido"

"Depois da resistência, a recuperação", resume o editorial do Figaro, enquanto o diário católico La Croix lembra que o país se encontra diante de um desafio histórico. Será necessário "acelerar" nessa nova etapa, "baseada na ecologia, na soberania econômica e na descentralização", sublinha o diário Le Parisien.

"Macron continua confinado em suas certezas", diz com ironia a manchete do l'Humanité. Para esse diário comunista, o presidente repetiu "velhos slogans políticos" e fez um discurso vazio de conteúdo.

A revista L'Obs, de linha editorial progressista, também critica o chefe de Estado francês por seu pronunciamento cheio de "acrobacias", que procurou fazer média com tudo e todos, elogiando principalmente a si mesmo. Em tom ácido, a L'Obs chama Macron de "Manu, o intrépido": graças a ele, "seremos capazes de redescobrir o prazer de estar juntos", diz a revista, repetindo uma fórmula usada por Macron no início de seu pronunciamento.

O jornal Le Monde também sublinha que o discurso do presidente serviu para projetá-lo no cenário eleitoral pós-mandato. Mas a forma como ele pretende reconstruir a economia, levada a nocaute pelo coronavírus, permanece uma incógnita.

Para a imprensa francesa, Macron está esquecendo muito depressa as falhas na gestão do acesso às máscaras, testes de diagnóstico, equipamentos de proteção pessoal de médicos e enfermeiros e leitos de UTI. É daqui para frente que ele coloca sua reeleição em jogo. Antes, terá de mostrar que consegue evitar um aprofundamento das desigualdades, realizar escolhas estratégicas na área industrial que tornem a França mais independente no futuro e também vencer as resistências políticas à modernização do Estado.

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