Após penúria no início da pandemia, França corre o risco de destruir testes PCR por falta de uso

Enquanto alguns países aplicaram testes em massa, na França apenas os pacientes hospitalizados eram testados no início da pandemia.
Enquanto alguns países aplicaram testes em massa, na França apenas os pacientes hospitalizados eram testados no início da pandemia. REUTERS - Susana Vera

Com a desaceleração da pandemia de coronavírus na França, o país se encontra diante de um cenário paradoxal. Após ter comprado milhões de testes para Covid-19, os laboratórios franceses reclamam que os kits não foram usados e que podem estragar se não forem aplicados nos próximos dois meses. A venda para o exterior é uma solução possível, mas a destruição do material não é descartada.

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No início da aceleração da pandemia, em meados de março, a França sofreu com a falta de máscaras de proteção, mas também de testes suficientes para aplicar na população. Nesse momento, o mais usado era o chamado PCR, feito por meio de coleta nasal. Segundo os especialistas, ele é o teste mais eficaz para identificar a presença do vírus nos primeiros dez dias de contágio.

Nesse momento, em vários países que também enfrentavam o vírus, campanhas impressionantes testavam milhares de pessoas, inclusive nas ruas, sem mesmo sair do carro. Na Alemanha, por exemplo, desde março meio milhão de pessoas eram testadas por semana.

Mas no território francês, apenas os pacientes hospitalizados eram testados, em uma estratégia frequentemente contestada. Ao constatar a falta de testes e máscaras no momento em que a população mais precisava, os franceses criticaram o governo, o acusando de despreparo para enfrentar o surto.

Após inúmeros alertas, inclusive da OMS, dizendo que testar boa parte da população era uma das principais ações, junto com a quarentena, para controlar a pandemia, Paris decidiu agir. No final de abril, o governo francês lançou uma grande campanha, anunciando que iria realizar pelo menos 700 mil testes do tipo PCR por semana.

Mas como a propagação do vírus diminuiu, esse número nunca foi alcançado. Na semana de 13 a 19 de junho, por exemplo, apenas 228 mil testes foram realizados. Esses número contabilizam as pessoas testadas em laboratórios privados, mas também na rede de hospitais do país, que continuam aplicando o protocolo em praticamente todos os pacientes. Mas como o vírus circula menos, há pouca demanda para esse tipo de procedimento.

Revenda para África e América Latina

Os laboratórios, que nas primeiras semanas da pandemia sofriam com a falta de testes, agora se encontram com estoques lotados, sem saber o que fazer. Encontrar uma solução é cada vez mais urgente, já que alguns componentes desses kits, como os reativos, têm que ser usados rapidamente. Segundo números divulgados pela imprensa francesa, se não forem aplicados nos próximos dois meses, milhões desses testes terão que ser destruídos, pois perderão a validade.

A maior parte dos laboratórios participa de campanhas de teste em massa, numa tentativa de eliminar seus estoques. Mas outros já cogitam revende-los para países onde a pandemia continua acelerada. “É o momento de fazer esse material transitar para que ele seja usado em boas condições. Seja na América do Sul, na Inglaterra ou na África, que são locais que precisam”, declarou François Blanchecotte, presidente do sindicato de biologistas da França, em entrevista ao canal de televisão France 2.

Alguns laboratórios temem que, mesmo assim, não consigam eliminar seus estoques. Nesse caso, já há quem levante a hipótese de pedir uma compensação ao governo, que os incitou a comprar tantos testes que podem terminar na lata de lixo.

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