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"A gente vai tentando sobreviver": crise econômica derruba renda de brasileiros na Europa

Em Portugal, a taxa de desemprego e de subutilização chegou a 14,6% da população, de acordo com os dados de junho do Instituto Nacional de Estatística
Em Portugal, a taxa de desemprego e de subutilização chegou a 14,6% da população, de acordo com os dados de junho do Instituto Nacional de Estatística AP - Armando Franca
Texto por: Cristiane Capuchinho
8 min

Em julho, quando as fronteiras da Europa voltaram a se abrir e a vida parecia retomar seu rumo, a comissão da União Europeia previu uma contração de 8,3% na economia do bloco para este ano. A estimativa de que a crise vai continuar aumenta a pressão sobre milhões de trabalhadores que perderam sua renda parcial ou totalmente com a pandemia do coronavírus.

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"A gente vai tentando sobreviver como pode. O que acontece é que não tem perspectiva de melhora", desabafa Fábio César, 50 anos. Morando em Madri há 13 anos, o guia turístico atendia uma agência de turismo especializada no público latino-americano.

O guia é um dos quase 4 milhões de pessoas que dependem do seguro-desemprego na Espanha, de acordo com os dados de julho do Ministério do Trabalho. O auxílio, no entanto, precisa ser complementado com o dinheiro de suas economias para pagar as contas. "O que eu ganho hoje não é nem 20% do que eu ganhava. Foi um corte muito grande", diz.

Sem a expectativa de voltar a trabalhar rapidamente, Fábio saiu de um apartamento de 60 m² no centro de Madri para um imóvel menor e na periferia da cidade. "Tenho enviado meu currículo a todo tipo de emprego, de caixa de supermercado a vagas em hotéis. O problema é que não há trabalho. Diminuí meus gastos e estou tentando segurar, mas de onde a gente tira e não repõe, acaba", resume.

Com as restrições de circulação de pessoas para conter a crise sanitária, o turismo foi uma das indústrias mais afetadas no continente. O setor é responsável por cerca de 13 milhões de empregos e 10% do PIB do bloco.

Na Espanha, um milhão de vagas de emprego foram fechadas no segundo trimestre de 2020, segundo a pesquisa EPA
Na Espanha, um milhão de vagas de emprego foram fechadas no segundo trimestre de 2020, segundo a pesquisa EPA © AP - Manu Fernandez

De volta para o Brasil

Para piorar, as medidas atingem a época do ano em que o setor mais ganha dinheiro: as férias de verão. Paris, cidade que recebe 50 milhões de turistas por ano, está vazia. Sem norte-americanos, russos e chineses --públicos importantes para o setor-- muitos restaurantes e atividades ligadas ao turismo internacional mantiveram as portas fechadas neste verão.

Bárbara Brecht, 36 anos, resolveu entregar o apartamento que mantinha alugado na capital francesa e esperar uma próxima temporada de trabalho no Brasil. Guia turística especializada em grupos australiano e norte-americano, a paulista estava de férias quando a Europa começou sua quarentena.

Nesse período, em geral, ela costumava sublocar seu apartamento pelo AirBnB para pagar as contas. Dessa vez, sem hóspedes, a guia teve que tirar dinheiro de suas economias para pagar o aluguel em euros enquanto estava trancada do outro lado do Atlântico. “Não tinha condição de manter um apartamento em Paris sem trabalho. Então entreguei as chaves em junho”, conta.

Em São Roque (SP), ela imagina que 2020 seja um ano perdido para o trabalho e faz os planos para a volta em março do próximo ano. “Meu medo maior é como recomeçar. Eu não sei quanto de dinheiro eu vou ter para voltar para a França, para pagar os primeiros alugueis, e agora ainda com o câmbio do euro a R$ 6,50”, preocupa-se.

Apesar da chegada de turistas franceses e europeus, Paris tem menos visitantes que em um ano normal. A consultoria MKG estima que a taxa de ocupação dos hotéis seja de 54% em toda a França.
Apesar da chegada de turistas franceses e europeus, Paris tem menos visitantes que em um ano normal. A consultoria MKG estima que a taxa de ocupação dos hotéis seja de 54% em toda a França. REUTERS - CHARLES PLATIAU

Países do sul da Europa foram mais afetados

São exatamente os países do sul da Europa, que mais dependem do turismo, aqueles mais afetados pela crise do coronavírus, de acordo com as estimativas da União Europeia.

A Espanha, a França e a Itália devem ver uma queda em torno de 10% em seu PIB neste ano. A recessão em Portugal está estimada em 9,8% do Produto Interno Bruto do país, enquanto na Grécia a expectativa é de retração de 9%.

Cada país criou medidas de contenção das consequências da crise global em sua economia para proteger empregos. Na França, o governo chegou a pagar o salário integral ou parcial de 9 milhões de trabalhadores em abril, enquanto o país passava por um período de confinamento obrigatório. Em junho, o seguro-desemprego ainda beneficiava 4,5 milhões de pessoas – o equivalente a um quarto de todos os trabalhares do setor privado.

Entre eles, Amanda Marques, 28 anos, subchefe de cozinha em Poitiers (oeste da França). Os restaurantes tiveram autorização para reabrir apenas em junho, mas ainda com restrições no atendimento. A subchefe voltou ao trabalho em julho.

Durante os meses sem atividade, Amanda conseguiu o auxílio do governo francês, mas em valor mais baixo do que sua renda normal. “Para mim, o valor ficou uns 20% mais baixo do que o que ganhava, mas para meu namorado a diferença foi bem grande, € 800, para pagar pensão [dos filhos], aluguel e tudo mais.”

 

Desemprego e desesperança entre jovens

A redução do trabalho no setor de alimentação atinge duramente jovens e imigrantes que contam com empregos temporários durante o verão para guardar dinheiro em meses com menos trabalho.

O paranaense Jorge Luna, 19 anos, chegou a Lisboa em fevereiro em busca de trabalho. Às vésperas da pandemia, ele conseguiu ser contratado durante uma semana como garçom na capital portuguesa e foi dispensado por conta do confinamento.

Desde então, ele busca emprego em vão na cidade. “Meu tio, que está trabalhando em Londres, tem mandado dinheiro para a gente sobreviver. Estamos desse jeito até agora.”

Ele divide uma casa com outras seis pessoas na periferia de Lisboa, onde, segundo ele, ninguém está trabalhando. “Estamos tentando correr atrás, procuro nos grupos, pela cidade. As coisas estão começando a apertar.”

A situação dos trabalhadores ilegais é mais complicada. Sem visto, eles não têm direito a auxílios dos governos e dependem da sorte e de redes de apoio. A Europa tem cerca de 4 milhões de ilegais, segundo estimativas do Pew Research Center.

Aos 21 anos, Luís Carvalho já começou a procurar outro lugar para morar em Barcelona. O jovem trabalhava para um empreiteiro de reformas antes do início da pandemia, mas em março seu empregador decidiu cumprir a quarentena em Portugal e o deixou sem trabalho.

Desde então, ele conseguiu empregos esporádicos apenas por sete dias e não tem como pagar seu aluguel.

“Praticamente fiquei dependendo da ajuda de conhecidos”, conta, “Mas já faz três meses que estou aqui, e ninguém vive de graça”, sintentiza.

Morando há quase três anos na Espanha, ele diz que já viveu temporadas difíceis e costumava trabalhar “tudo que pode” no verão porque o inverno é um período mais complicado de encontrar trabalho.

Com a economia parada, ele tem considerado voltar para o Brasil. “Penso muito em voltar para São Paulo. Só que lá está mais difícil que aqui. Às vezes, com o tempo, aqui melhora.”

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