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Médica brasileira viveu início de pandemia em hospital francês e compara: “faltou liderança central no Brasil”

Áudio 07:10
Otilia Lupi é infectologista no Laboratório de Doenças Febris Agudas da Fiocruz
Otilia Lupi é infectologista no Laboratório de Doenças Febris Agudas da Fiocruz © RFI
Por: Silvano Mendes
13 min

A infectologista brasileira Otilia Lupi estava em Paris, atuando como médica visitante no serviço de Infectologia do hospital Pitié Salpetrière, uma das referências em termos de medicina na França, quando a pandemia de Covid-19 chegou na Europa. Ela acompanhou o início da gestão da crise sanitária no país europeu e compara com a situação brasileira, onde o surto chegou mais de um mês depois.  

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“Eu gostei de ter presenciado a chegada da pandemia na França porque tive a oportunidade de ver a complacência de um outro sistema acontecendo”, conta a médica. Ela insiste que são sistemas muito diferentes e que “não seria correto comparar. O colapso aqui é diferente do colapso no Brasil”. 

Otilia já sabia dessa diferença, mas viveu a situação dentro de uma das instituições francesas mais reputadas na luta contra doenças infecciosas, em um momento em que os próprios médicos do país descobriam o vírus que desembarcava na Europa. A infectologista da Fiocruz fazia um estágio de observação no Pitié Salpétrière quando os primeiros pacientes foram hospitalizados, entre fevereiro e março. 

“No primeiro momento, eles lidaram com deficiências, que é uma situação crônica também para a gente no Brasil, em particular no Rio de Janeiro, onde eu trabalho e conheço bastante. Foi muito interessante ver como um sistema mais rico foi capaz de encarar a falta. A falta de máscaras, de leito, de médicos, de enfermeiros”, conta a médica, que estava no hospital francês quando o lockdown foi decretado, em 17 de março. 

Colapso no Brasil é atender nos corredores ou sobre a pia

Otília lembra que nesse dia os médicos alertavam para o fato de que “faltava muita coisa”. No entanto, ela se recorda que, mesmo se os profissionais falavam em falta de leitos, ela constatou que o hospital ainda podia receber pacientes, algo muito distante de sua realidade no Rio de Janeiro. 

“No Brasil, quando falamos de falta de leito, isso significa que eu estou atendendo no corredor, sobre a pia ou na bancada. Essa é a realidade no Rio de Janeiro. Não é sempre, nem em todos os hospitais, mas eu já passei por essa situação”, compara. “Aqui, apesar de algumas dezenas ou até centenas de leitos prontos para receber pacientes, eu vi as pessoas reclamando que a projeção indicava que seriam necessários mais. Eles não aceitavam a simples possibilidade de, em algum momento no futuro, ter falta de leito.”

A preocupação dos profissionais tinha fundamento, pois se no início do surto todos os pacientes suspeitos de contaminação eram hospitalizados, rapidamente os médicos passaram a receber apenas os casos graves. E em algumas regiões do país faltaram leitos, ao ponto de pacientes serem transportados para hospitais mais vazios, públicos e privados, em outras partes do país ou mesmo em países vizinhos, de trem e até de avião. “É claro que eles tiveram a capacidade de ampliar essa recepção de pacientes de uma forma que tem a ver como recursos e planejamento”, pondera Otilia. 

Confiança em um único chefe

A médica também se recorda que no início da pandemia os médicos franceses subestimaram a força do vírus e sua capacidade de contágio pelo mundo. “Eles achavam que iam saber lidar, que estavam acostumados e que ir ser mais uma onda de influenza. Não era consenso que seria um tsunami, mesmo entre os profissionais mais experientes”, conta. Mas logo o contexto se alterou. “Eles mudaram de discurso e passaram a acreditar que, de fato, estavam diante de uma situação nova”, relata. 

Essa adaptação de estratégia no combate ao vírus foi vista em vários países. No entanto, nem todos se organizaram da mesma maneira, como ressalta a médica brasileira. “Baseados em estruturas e conhecimentos de epidemias antigas, os franceses tiveram a capacidade de adequar essa mudança de estratégia, e isso foi muito importante. Claro que a capacidade de compras (de equipamentos) e de captar recursos é maior na França. Mas me chamou a atenção que isso tudo teve a ver com uma liderança central. E isso foi a grande diferença”, constata a médica. “Mesmo se eles mudaram alguns fundamentos básicos sobre a adoção de algumas medidas, eles foram capazes de se adequar a essas novidades, mas sem mudar de liderança. E isso eu acho que faltou ao Brasil”, compara. 

“O discurso foi mudando porque a gente foi aprendendo. Porém, mesmo que houvesse discordâncias e divergências, existia quem ditava a norma. E isso foi fundamental para que eles conseguissem passar esse colapso – para os parâmetros franceses . E, de fato, eles souberam seguir um chefe e isso fez uma enorme diferença, não só no sistema de saúde, mas também para a população”. 

A França enfrenta atualmente uma nova fase de contaminações, com mais de 4 mil casos registrados por dia. No entanto, os números de mortes e hospitalizações seguem estáveis, o que leva a crer que o sistema de saúde francês encontrou uma forma de gerir o fluxo de pacientes, apesar de críticas no ápice da pandemia, quando o país foi comparado com vizinhos, como a Alemanha, elogiada desde o início pela gestão da pandemia. 

O país tenta agora encontrar a solução para outro problema: a questão da prevenção adequada da população, para evitar novas contaminação nesse momento que já está sendo chamado por alguns de "segunda onda" da Covid-19.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo. 

 

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