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Antropólogo que atua há 10 anos em epidemias diz que Brasil é cínico ao lidar com a Covid-19

Áudio 07:07
O antropólogo e pesquisador Jean-François Véran, que trabalhou com a ONG Médicos sem Fronteiras durante a pandemia de Covid-19, fala sobre a crise humanitária na França e no Brasil.
O antropólogo e pesquisador Jean-François Véran, que trabalhou com a ONG Médicos sem Fronteiras durante a pandemia de Covid-19, fala sobre a crise humanitária na França e no Brasil. © Paloma Varón/RFI
Por: Paloma Varón
14 min

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o antropólogo e pesquisador francês Jean-François Véran mora há 12 anos no Brasil e há 10 anos trabalha com emergências humanitárias. Ele estava em Paris, para o seu pós-doutorado, quando foi surpreendido pela pandemia de Covid-19. Não pensou duas vezes: foi a campo com a ONG Médicos sem Fronteiras, onde atua como conselheiro, para garantir o acesso à saúde para refugiados e a população mais precarizada.

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Antes de trabalhar durante o confinamento em Paris, Véran já havia realizado missões humanitárias com a MSF no Brasil, na Venezuela, em Honduras, na Guatemala, em El Salvador, no Haiti em em vários países africanos. Sobre estas experiências, ele escreveu o livro "Médicos sem Fronteiras e Situações Humanitárias: uma Exploração Antropológica" (em tradução livre, do inglês), lançado este ano. 

Ele diz nunca ter imaginado, porém, que o aprendizado nestes países em desenvolvimento seriam utilizados no seu próprio país. "O que está acontecendo agora me remete ao início do meu envolvimento com a MSF. Logo após o terremoto no Haiti, em 2010, eu me envolvi como voluntário nos trabalhos para combater a epidemia de cólera. Como antropólogo, a tarefa era exatamente o que eu acabei fazendo dez anos mais tarde em Paris. Eu não imaginava que os ensinamentos que acumulei no decorrer destes anos todos iam me servir na minha própria cidade", conta.

E qual seria o papel do antropólogo durante uma epidemia? "Quando se tem uma epidemia, há três parâmetros a integrar. O primeiro é o vírus propriamente dito, que circula, e a maneira como ele circula é estudada pela epidemiologia. Depois tem a maneira como o vírus trabalha nos corpos, e isso é a parte médica, porque cada corpo reage de uma forma específica. E tem um terceiro elemento, que é muito importante, é como nós, como seres sociais, vivendo em sociedade, recebemos as informações, nos adaptamos, nos comportamos", explica Véran. 

"Toda esta parte sociológica, toda esta parte do comportamento em sociedade é a parte que nós tratamos nas respostas epidemiológicas", completa. 

Segundo ele, que já trabalhou em diversos países na América Latina e na África com epidemias de malária, dengue e HIV, entre outras, o seu trabalho é "entender como as pessoas reagem, se adaptam, resistem, são criativas em relação à realidade da epidemia e às políticas sanitárias". 

Epidemia sem sentido

Para o antropólogo, a lógica da epidemia se apresenta de três diferentes maneiras. "A primeira coisa é que é um mal que vem do exterior para o interior. O outro elemento que a gente trabalha muito é a ideia de dupla causalidade: gente é capaz de reconhecer uma origem biomédica a um problema e, ao mesmo tempo, uma origem política, religiosa, espiritual - e tem que entender as duas coisas ao mesmo tempo. E, para terminar, eu queria dizer que as epidemias às vezes não fazem sentido. Por que elas atingem uma pessoa e não outra, mesmo dentro da mesma família? Um se protege e fica doente, outro não faz nada para a proteção e sai imune."

"São todas essas coerências e incoerências que a gente tenta entender e restituir na forma de política de apoio", ressalta.

França: barreiras no acesso à saúde

Véran conta como se deu o trabalho durante os meses de confinamento na França, em que as pessoas só podiam sair de casa uma hora por dia, num raio de 1km, e com um atestado. 

"No trabalho que a gente fez com o MSF aqui em Paris era atuar junto às populações ditas precárias, nossa missão era identificar as pessoas que ficavam fora dos dispositivos de intervenção do Estado, por motivo de irregularidade, de clandestinidade. A gente não tratou uma população francesa geral. A gente tratou uma parte muito específica, essencialmente migrantes, muitos deles em situação irregular e muitos medos em relação a esta situação", conta.

Na França, diz o antropólogo, basta ter três meses de permanência no território, com ou sem visto, que se tem direito à ajuda médica por parte do Estado, mas as pessoas em situação ilegal não procuram o sistema de saúde por medo de serem fiscalizadas.

"A resposta sanitária foi bastante abrangente, mas houve muitas barreiras de acesso: muitas pessoas renunciando aos cuidados de saúde, mesmo tendo direito, por medo de controle da polícia, medo de serem fiscalizados. Apesar de o Ministério do Interior ter dito que não haveria retaliação nenhuma. Então a gente trabalhou em clínicas móveis, com unidades móveis de saúde, para tentar atingir esta população, quer seja para tratar de Covid-19 ou qualquer problema de saúde, durante este grande momento de colapso que a gente viveu", relata.

"Eu lembro de uma reflexão de uma médica daqui de Paris, super treinada, que trabalha com emergências, que disse: ‘Nossa, a gente tinha antecipado tudo, menos situações humanitárias em Paris’. Então a gente acabou fazendo dentro de Paris o que a gente estava fazendo em outros contextos, de maneira bastante similar, trabalhando a questão da neutralidade, da autonomia, da confiança no acesso à saúde, para dar atenção à saúde primária, tentar quebrar as barreiras de acesso", conclui.  

Brasil: "cinismo" de Estado

Ao comparar a gestão da pandemia no Brasil e na França, Véran ressalta o que ele chama de aliança do governo com os setores populares, que, por conta da precariedade em que vivem, não têm condição de fazer o lockdown e respeitar as regras sanitárias. 

"A população brasileira está de certa forma mais acostumada a viver situações de emergência de saúde" diz ele, citando as frequentes epidemias de dengue, chikungunya, zika, e malária (esta, na região Norte). 

"De uma forma geral, os setores populares estão mais acostumados com a incerteza do amanhã. Insegurança alimentar, violência, operações policiais etc., e têm esta maneira de se virar que faz com que eles aparentemente pareçam mais resilientes", diz.

"Ao mesmo tempo, o que eu noto também é um certo cinismo das políticas públicas sanitárias no Brasil, que sabe muito bem que a população que está saindo na rua, que está lutando contra a ideia do lockdown, que está cética com a epidemia, é uma população que não tem escolha nenhuma, porque tem que se virar como sempre, tem que colocar comida na mesa dos filhos, tem que batalhar no cotidiano como sempre fez", analisa.

De acordo com o antropólogo, no Brasil, o poder público recuperou a precariedade com "cinismo", porque, diz ele, "este discurso popular não é um discurso de não adesão à ideia da epidemia e a uma necessidade de se proteger melhor, mas o discurso pragmático de quem não tem realmente como aderir aos princípios do lockdown".

Para ele, o poder público brasileiro "vai para o lado do hiperpopulismo e se apropria deste discurso porque não quer oferecer condições de lockdown decentes para estas populações". 

"Essa aliança bem cínica, explorada pelo poder público (no Brasil), me parece uma grande diferença com a gestão da crise aqui na França, onde a situação (da gestão) da precariedade foi muitas vezes não completamente acertada, porque é uma situação inédita, mas este linguajar do cinismo eu não vi aqui não", finaliza.

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