Lutas feministas: Movimento de Libertação das Mulheres completa 50 anos

Uma dúzia de mulheres se manifesta na Place de l'Etoile, em Paris, em 26 de agosto de 1970. Entre elas, as escritoras Christiane Rochefort e Monique Wittig.
Uma dúzia de mulheres se manifesta na Place de l'Etoile, em Paris, em 26 de agosto de 1970. Entre elas, as escritoras Christiane Rochefort e Monique Wittig. © AFP

Singular e independente, o Movimento de Libertação das Mulheres (MLF) é um marco histórico na luta pela melhora da condição feminina na França, e completa hoje, 26 de agosto, seu 50º aniversário. Muitos foram os avanços desde sua criação, da legalização do aborto em 1975 a novas formas de lutar pelos direitos das mulheres. A data será lembrada com uma manifestação a partir das 18h (horário local) desta quarta no mesmo Arco do Triunfo, em Paris, onde tudo começou.

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Paris, 26 de agosto de 1970. Sob o Arco do Triunfo, uma dúzia de mulheres colocou uma coroa de flores com os dizeres "para a esposa do soldado desconhecido". Em suas faixas, podia-se ler: “Há alguém mais desconhecido que o soldado desconhecido, sua esposa” ou “Um em cada dois homens é uma mulher”. Essa primeira manifestação foi solidária à greve das mulheres norte-americanas – que comemoram o 50º aniversário do sufrágio feminino nos Estados Unidos– e marca o início do movimento que revolucionou a França.

Para Christine Bard, especialista em história da mulher e gênero e professora de História Contemporânea na Universidade de Angers, na França, o MLF se destaca por ser autônomo, mais radical e midiático que os movimentos feministas anteriores. “Há humor na frase que diz que há uma mulher desconhecida para cada soldado desconhecido. E o humor marca a atuação do movimento”, explica

Em sua opinião, entre os maiores legados do movimento estariam a liberdade do corpo, em um sentido amplo, que inclui o controle sobre a própria fertilidade, o direito ao aborto e o direito ao próprio prazer, com a liberação sexual e a liberdade homossexual. Ela enfatiza a importância da denúncia à violência contra a mulher, que passaria por mudanças nos modelos de educação e da família patriarcal.

Para Bard, o viés provocador estaria entre os principais legados do MLF aos movimentos feministas da atualidade. Ela vê nas redes sociais um grande aliado para a disseminação e compartilhamento de informações e conceitos feministas, destacando inclusive a importância das redes como ferramenta de denúncia.

Ela destaca o movimento #MeToo, por dar às participantes a oportunidade de se colocarem em primeira pessoa e sem filtros. “Ali as pessoas se colocam como ‘eu’, as informações circulam rapidamente e não há controle, garantindo a espontaneidade de quem participa. O movimento inclusive se recusa a se tornar uma associação para que seu engajamento continue se diferenciando daquele de sindicatos, partidos ou outras associações”

Feminismo colado sobre os muros

Atuante há um ano e somando cerca de 3.000 ativistas na França, Les Colleuses (As coladoras, em tradução livre) estão entre os movimentos feministas que herdaram principalmente a vertente midiática do MLF. Suas frases coladas em simples papéis brancos sobre os muros públicos exibem mensagens nada simples: são denúncias sintéticas e agressivas sobre a violência contra as mulheres, levadas às ruas, ao alcance de todos que passam.

Lambe-lambes com dizeres como “Ela o deixou, ele a matou” ou “Nós somos a voz daquelas que não têm mais voz” ilustram o discurso do grupo. “É muito pedagógico. As colagens levam aos cidadãos e cidadãs informações sobre um assunto de grande importância. É um modo de atuação único, em que cada pessoa vai poder colar aquilo que acha importante e necessário sobre o muro”, explica Camille Lextray, 24, uma das colleuses.

Mais do que acessível, Lextray acredita que a estratégia de comunicação, que ocupa o espaço público, acaba por questionar também alguns valores antifeministas, que se esforçam em designar um lugar específico – e redutor – para a mulher na sociedade. “Como mulher, somos ensinadas que devemos ser doces e não chamar a atenção. Com a colagem é o inverso, os homens param para nos olhar, mas nós não nos importamos”, acrescenta Lextray.

Uma das intervenções do grupo feminista Les Colleuses em um muro próximo à Bastilha. Paris, 23 de setembro de 2019.
Uma das intervenções do grupo feminista Les Colleuses em um muro próximo à Bastilha. Paris, 23 de setembro de 2019. © arquivo pessoal

Maio de 1968

Foi na esteira do movimento de maio de 1968 - e em oposição à invisibilidade das mulheres - que nasceu o Movimento de Libertação das Mulheres, fundado, entre outras, por Antoinette Fouque, Monique Wittig e Josiane Chanel. O MLF surge do reagrupamento de diferentes associações feministas, e logo pequenos grupos pertencentes a diferentes correntes se formam dentro do movimento. Antoinette Fouque cria, por exemplo, o coletivo “Psicanálise e política” pelo qual reivindica uma “libido uterina”, em oposição à teoria freudiana, e tenta fazê-la existir no cenário político.

Os grupos também se formaram pelas divergências: a homossexualidade e a condição das mulheres lésbicas, por exemplo, não eram uma prioridade dentro do MLF, e tanto que em 1971 surge dentro do movimento a Frente Homossexual para Ação Revolucionária, na tentativa de conter a invisibilidade das mulheres lésbicas.

O movimento deu origem à primeira editora feminina da Europa, em 1973, e em seguida, em 1974, abria-se a primeira livraria feminina em Paris. As ativistas também se lançaram na distribuição de publicações coletivas para compartilhar suas ideias: Le Torchon Brûle, jornal do movimento, foi publicado entre 1971 e 1973.

Ações provocativas e personalidades da mídia

Os grupos que compõem o MLF divergem em questões estratégicas e políticas, mas todos se unem para ações comuns em torno do direito ao aborto, à libertação de corpos ou contra a violência doméstica. Batalhas lideradas por figuras públicas e políticas que fizeram e até hoje fazem história.

Uma das primeiras ações do MLF foi apoiar a greve de fome iniciada pelas moradoras do abrigo para adolescentes grávidas de Plessis-Robinson, nos subúrbios de Paris, em 1971. Simone de Beauvoir vai ao encontro das grevistas, acompanhada de jornalistas, para denunciar a condição de vida daquelas jovens entre 13 e 17 anos: evasão escolar, marginalização, maus-tratos.

Também em 1971, muitas ativistas do Movimento de Libertação das Mulheres assinaram o “Manifesto de 343”. Escrito por Simone de Beauvoir, publicado no Le Nouvel Observateur, o manifesto reuniu assinaturas de 343 mulheres, entre elas personalidades como a atriz Catherine Deneuve, que afirmavam ter abortado e, assim, se expunham a processos criminais sob risco de pena de detenção.

Em 1972, o MLF fez campanha em apoio à advogada Gisèle Halimi, que defendia uma adolescente julgada por ter abortado após engravidar de um estupro. Foi finalmente em 1975 que a lei que descriminalizava o aborto, apresentada pela Ministra da Saúde, Simone Veil, é aprovada na Assembleia por um período provisório de cinco anos. Em 6 de outubro de 1979, o MLF contribuiu para a organização da marcha pelo direito à interrupção voluntária da gravidez, que reuniu milhares de manifestantes em Paris. Em sequência ao evento, a lei Veil tornou-se definitiva.

Divisões como legado

A influência do Movimento de Libertação das Mulheres foi de uma importância capital para levar a sociedade a transformar e revisar valores ao longo da segunda metade do século XX. Os avanços feministas pelos direitos das mulheres foram incentivados pelo movimento, como em 1974, quando foi criada na França a primeira Secretaria de Estado da Condição da Mulher, chefiada pela jornalista Françoise Giroud. O reembolso por parte da seguridade social das despesas médicas para a interrupção voluntária da gravidez foi autorizado em 1982, sob a liderança de Yvette Roudy, então Ministra dos Direitos da Mulher. A chamada lei Roudy, aprovada em 1983, também impõe igualdade entre homens e mulheres nas instituições políticas.

Em 1979, uma polêmica explode: Antoinette Fouque registra a sigla do movimento e cria uma associação com o mesmo nome. Muitas ativistas criticam o gesto, que descrevem como apropriação do movimento por um grupo de pessoas. Fouque, por outro lado, alega que sua intenção era evitar que o MLF caísse no esquecimento. A institucionalização das dinâmicas feministas com a chegada da esquerda ao poder na França em 1981, com a eleição de François Mitterrand, e a criação do ministério responsável pelos Direitos das Mulheres, assim como as crescentes divisões dentro do movimento, acabam por minar a influência do movimento.

Hoje, o legado do MLF nas lutas feministas existe, mas já não exibe a mesma importância do passado. As ações e a história do MLF não são ensinadas na escola, obrigando as novas gerações de ativistas a construírem seu feminismo sozinhas e a se educarem sobre as lutas atuais principalmente pelas redes sociais, por meio de contas no Instagram, Twitter e Facebook, ou por meio de podcasts e artigos.

Les Colleuses: frase em português colada em um muro na região da Bastilha. Paris, 22 de setembro de 2019.
Les Colleuses: frase em português colada em um muro na região da Bastilha. Paris, 22 de setembro de 2019. © arquivo pessoal

Mesmo que slogans e hinos do MLF sejam repetidos durante as manifestações, as jovens feministas estão se distanciando do movimento, que muitas vezes é percebido como pouco sensível a outras formas de discriminação contra as mulheres, como racismo ou homofobia. É nos métodos que o legado do Movimento de Libertação das Mulheres fica mais evidente. As ações fortes e midiáticas do MLF continuam nas lutas feministas de hoje, por meio de movimentos como Les Colleuses, Femen e La Barbe. Os grupos atuais ostentam a mesma forma de ocupar o espaço público, de levar as demandas aos olhos de todos.

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