Por que os novos casos de Covid-19 não estão lotando hospitais e UTIs na França?

Apesar do aumento das contaminações por coronavírus na França, os hospitais têm internado poucos pacientes em terapia intensiva.
Apesar do aumento das contaminações por coronavírus na França, os hospitais têm internado poucos pacientes em terapia intensiva. AFP - MARTIN BUREAU

O jornal econômico Les Echos desta sexta-feira (28) explica por que os novos casos de coronavírus não têm impacto nos hospitais e UTIs na França. Embora a circulação do vírus tenha se acelerado desde julho, as internações aumentaram pouco. Em Paris, a média de permanência na terapia intensiva caiu de 21 para 12 dias.

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Bastaram apenas 17 dias para a epidemia de coronavírus dobrar de tamanho na França. A cada semana, o número de casos aumenta e a proporção de testes positivos deram um salto de mais de 40%.

Apesar disso, os hospitais franceses têm recebido menos pacientes em terapia intensiva. Em 25 de agosto, a contagem era de 410 pacientes e 49 novos doentes em 24 horas. As admissões, até agora, têm crescido moderadamente, com 128 casos a mais na segunda semana de agosto, em comparação aos 73 na primeira semana de julho.

Nos Hospitais de Assistência Pública de Paris, no centro da evocada "zona vermelha", foram registradas 74 internações em terapia intensiva desde 16 de julho, diante mais de 200 diários na época do pico da epidemia. “Temos taxas de internação que nada têm a ver com o afluxo de março, mesmo que o vírus tenha voltado a circular ativamente”, observa Antoine Vieillard-Baron, chefe da unidade de medicina intensiva do hospital Ambroise-Paré.

Segundo Les Echos, existem várias explicações para este paradoxo. Em primeiro lugar, a recuperação viral ainda é apenas uma "ondulação", lembra o professor de medicina, em comparação com dezenas de milhares de casos diários em março-abril. "Teremos que ver como a situação evolui nas três ou quatro semanas após o início do ano letivo, mas, por enquanto, isso limita a pressão sobre os estabelecimentos de atendimento", avalia Vieillard-Baron.

Mais jovens infectados

Além disso, há uma gravidade menor de novas infecções. Isso provavelmente não se deve a uma mutação do vírus que teria perdido a agressividade, pois essa mínima transformação ocorreu na primeira onda.

Durante o verão europeu, os especialistas observaram a concentração das transmissões em uma população mais jovem, portanto menos vulnerável à doença. Em julho e agosto, os menores de 40 anos responderam por 18% das hospitalizações por coronavírus, contra 8% em março-junho. No entanto, a maioria desses jovens não sofre de complicações.

Melhor suporte medicamentoso

Hoje também se evita internações nas unidades de terapia intensiva, graças ao melhor atendimento aos pacientes no hospital. Após o ensaio clínico "Recovery", a dexametasona é agora administrada de forma muito mais sistemática para combater o efeito inflamatório do vírus. 

“O tratamento com corticosteróides é barato e mostra resultados positivos; é o único que tem efeito convincente, tanto para os casos intermediários como graves, explica Vieillard-Baron a Les Echos.

Além disso, a doutrina do cuidado nas UTIs evoluiu em poucos meses. “Temos menos pacientes em assistência respiratória, o que tem o efeito de encurtar o tempo médio de internação, que passou de 20-21 dias para 12 dias”, comemora o médico.

Métodos menos invasivos

Enquanto 8 em cada 10 pacientes foram equipados com ventilação mecânica no auge da crise - o que demanda intubação ou mesmo oxigenação extracorpórea do sangue, sob anestesia geral - essa proporção agora é de apenas 3 em 10 pacientes na França.

Em vez de entubar os pacientes automaticamente quando um limiar clínico é atingido, os médicos agora recorrem a métodos menos invasivos e com efeitos muito positivos, porque a recuperação dos doentes é mais complicada quando eles passam semanas inconscientes. A estratégia é positiva para os contaminados, que ficam com menos sequelas, e para os hospitais, que têm as UTIs menos lotadas, conclui Les Echos.

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