França tem 8.000 fichados por radicalização e “ameaça elevada” de atentado terrorista, diz ministro do Interior

Ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, em discurso sobre a ameaça terrorista no país. Em 31 de agosto de 2020.
Ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, em discurso sobre a ameaça terrorista no país. Em 31 de agosto de 2020. REUTERS - POOL

 A ameaça terrorista continua presente no território francês e pode ser classificada como “extremamente elevada”. Assim o ministro do Interior da França, Gérald Darmanin, apresentou a situação no país em um pronunciamento nesta segunda-feira (31) em que expôs números alarmantes e os planos do governo para lidar com atos desta natureza.  

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De acordo com o balanço do governo, 61 planos de atentados foram desbaratados no país desde 2013. Desses, 32 foram programados de 2017 para cá. Atualmente, mais de 8.000 pessoas (8.132) estão listadas nos arquivos oficiais por radicalização terrorista.

“Este trabalho diário, meticuloso e implacável, muitas vezes nas sombras, permitiu que nos dotássemos dos meios e ferramentas legais necessários para lutar contra a persistente ameaça terrorista no território nacional”, afirmou Darmanin. Atualmente, a França tem em suas prisões 505 presos identificados como "terroristas islâmicos", acrescentou o ministro.

Ao falar da sede da Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI), serviço da polícia judiciária competente pela luta contra a radicalização na França, Gérald Darmanin sublinhou que "o risco terrorista de origem sunita continua a ser a principal ameaça que o país enfrenta". Um problema que, de acordo com o ministro do Interior, também preocupa outros vizinhos europeus, como Espanha e Alemanha, que registraram agressões recentes à faca.

Estado Islâmico (EI) mais fraco, mas atuante

Darmanin destacou que “apesar da coalizão de Exércitos contra a organização Estado Islâmico ter resultado na diminuição dessa ameaça, o risco não terminou”. Informações recentes dão conta da resiliência do EI, que voltou para a clandestinidade mas continua com sua propaganda terrorista e financiamento de atos desse tipo. No entanto, para Darmanin, é "a ameaça endógena (planos de atos terroristas elaborados no território) que é mais significativa e mais forte", destacou.

“Assassinar judeus, jornalistas ou muçulmanos. Assassinar a identidade do nosso país e nosso modo de viver”, declarou Darmanin sobre as ameaças que rondam a França. “A França é alvo do terrorismo islâmico porque representa a abertura aos outros, a diversidade e a liberação de mulheres”, observou o ministro, antes de anunciar um reforço ao efetivo da DSGI de 1.200 agentes, até o fim do mandato de Emmanuel Macron.

O ministro do Interior ainda assegurou que “a luta contra o terrorismo islâmico é uma das principais prioridades do governo”. “Faremos uma batalha implacável (...) nunca desistiremos de perseguir estes inimigos da República”, insistiu.

Começa julgamento

O pronunciamento do ministro do Interior francês acontece a dois dias da abertura do julgamento do processo sobre os ataques terroristas de 2015 perpetrados contra a redação do jornal satírico Charlie Hebdo e um mercado de produtos Cacher, em Paris.

Em janeiro daquele ano, três extremistas islâmicos franceses mataram 12 jornalistas do semanário satírico, incluindo os renomados cartunistas Cabu, Charb, Honoré, Tignous e Wolinski, além de um policial e quatro clientes de um supermercado. Os ataques marcaram o início de uma série de atentados na França.

Este julgamento em larga escala, o primeiro por um ataque jihadista ocorrido no país desde 2017 e os assassinatos cometidos por Mohamed Merah, será filmado por seu "interesse na constituição de arquivos históricos", observou a Justiça francesa.

Quatorze réus, suspeitos de diversos graus de apoio logístico aos irmãos Saïd e Chérif Kouachi e Amedy Coulibaly, autores dos atentados que aterrorizaram o país por três dias em janeiro de 2015, serão julgados até 10 de novembro em um tribunal especial.

Apesar da violência sofrida por seus profissionais, a irreverência da publicação Charlie Hebdo sobreviveu intacta ao massacre. Mais de cinco anos após o atentado em sua redação, o semanário humorístico francês continua a se apresentar como um baluarte da liberdade de expressão e mantém o tom provocativo.

Os autores dos atentados pensavam em "vingar" Maomé, depois que o semanário publicou várias charges zombando do profeta, da mesma forma que costuma debochar de outras religiões, o que é permitido na França, onde o crime de blasfêmia não existe

"Antes, mandávamos para o inferno Deus, o Exército, a Igreja e o Estado. Atualmente, tivemos que aprender a mandar para o inferno associações tirânicas, minorias egoístas, blogueiros e blogueiras que nos repreendem como se fôssemos educadores", escreveu em janeiro Riss, diretor de redação do Charlie Hebdo por ocasião do quinto aniversário do atentado.

Para reportar o julgamento, o Charlie Hebdo optou por escalar o cartunista François Boucq e o escritor Yannick Haenel, seus colaboradores regulares, mas que não fazem parte do corpo editorial. "Nós os escolhemos porque eles não estavam lá em 7 de janeiro. Obviamente precisávamos de um desenhista, pois o Charlie Hebdo sempre acompanhou os julgamentos por meio do desenho. Quanto ao Yannick Haenel, o escolhemos por ele ser um escritor e, portanto, terá um olhar diferente de um jornalista", explicou Gérard Biard, editor-chefe da publicação.

 

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